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Críticas

Cineplayers

Dilatar e entrelaçar.

9,0
A importância de onze minutos nas existências humanas – o quanto pode mudar. O quanto esse tempo pode conter muitas ações, pensamentos, universos inteiros em si. Aqui o tempo é específico – inclusive no título -, mas Skolimowski sempre teve essa impressão sobre o caráter final e decisivo da vida e suas reviravoltas carregadas de dramaticidade e significado. Isso era verdade em grandes clássicos da sua carreira – a relação obsessiva de O Ato Final (Deep End, 1970), os segredos obscuros de O Estranho Poder de Matar (The Shout, 1978), as relações de exploração em Classe Operária (Moonlightning, 1982), a luta pela sobrevivência em Matança Necessária (Essential Killing, 2010). Em seus filmes, cada pequeno evento deixa marcas – e seus personagens foram constituídos por elas.

O veterano conterrâneo e contemporâneo de Roman Polanski despe seu filme de qualquer fator extra-tela e dá valor apenas aos conflitos silenciosos organizados em um coral de um pequeno grupo que toma espaço numa faixa curta de tempo e incorpora o valor dos pontos de vista também à estética do filme – abundam imagens de celulares, de conversas de videochamadas, de câmeras de segurança, entre outas, que abrem o filme apresentando um panorama fragmentário, cuja cronologia descritiva só irá se resolver depois.

Cronologia descritiva essa profundamente dilatada por Skolimowski, que aumenta os tempos do filme a todo tempo, preocupado com o rumo que cada um de seus protagonistas está tomando, onde temos a oportunidade de tomar parte em cada pequeno drama - um entregador viciado em drogas e adrenalina que precisa estar em vários pontos da cidade em um curto período de tempo, um vendedor de cachorro quente, ex presidiário com um segredo obscuro, uma garota com seu cachorro, um adolescente revoltado à beira de cometer um crime, um casal que se encontra na intimidade do quarto, um grupo de paramédicos socorrendo vítimas em estado emergencial, um cafetão viciado em drogas em sua busca obsessiva por sua namorada, que se encontra com um diretor de cinema que tenta constrangê-la com seus avanços.

Criado a partir de uma experiência pessoal trágica, a perda de seu filho, Skolimowski torna seu Onze Minutos uma experiência tão visceral quanto Matança Necessária, ainda que para isso lance mão de uma corrente exatamente oposta ao seu clássico recente, focado em um único protagonista e o detalhamento nos sacrifícios que tem que enfrentar para sobreviver e como é reduzido a um estado praticamente animal. Aqui, todos ainda estão vestido suas máscaras, ainda que cada um carregue seus próprios medos, culpas, perturbações e paixões violentas que cedo ou tarde o roteiro faz vir à tona.

A dilatação temporal de Skolimowski torna seus espaços claustrofóbicos, sufocantes – de alguma maneira seus personagens não sentem que pertencem ali, nem sabem o que estão fazendo concentrados naquele ponto da cidade, com o diretor abusando do ataque sensorial, repetindo os ritmos da trilha sonora e da música, pontuando a proximidade do perigo iminente, fazendo do filme praticamente inteiro uma longa pavimentação para a elaboradíssima e cheia de camadas cena final que de uma vez só faz todas as histórias se encontrarem sem fornecer respostas alguma.

Um único momento e uma única ação basta para mudar todas aquelas vidas de uma vez só. Cada pequeno detalhe manejado nesse mosaico em organizações alternadas e dialéticas de montagem, as histórias em paralelo e as histórias que conversam umas com as outras, nos dão a verdadeira dimensão e impacto emocional da catástrofe cinematográfica, dilatada e entrelaçada pela última vez em toda a concentração de catarse nos atordoando de uma vez só. O efeito cinematográfico, puro e simples, potente e devastador, que poucos cineastas, mesmo veteranos como Skolimowski, conseguiriam preparar e entregar com tanta consciência das ferramentas à sua disposição.

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