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Críticas

Cineplayers

Uma das raras obras que conseguem chegar ao grande público sem as habituais concessões e reducionismos

8,5

Inevitáveis como música natalina em shoppings durante as compras de fim de ano, os violinos estão maciçamente presentes nas trilhas sonoras dos filmes “sérios” da temporada de premiação. Ir ao cinema nessa época é escutar uma saraivada de violinos chorosos, dolorosamente repetitivos, de um punhado de compositores medíocres, que, em geral, nem carreira têm a não ser isso: mandar uma mensagem ao público do cinema de que chegou o momento para se arrebentar em lágrimas. Além da tortura dos violinos piegas, também há que se aguentar outro elemento inevitável à sala de cinema nesse período de prêmios: a tosse. Sim, pois Nelson Rodrigues já dizia que uma parte da classe média acha que assuntos sérios são como fungos alergênicos: causam reações que produzem tosse.

Assistir a 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, 2013) é como estar sentado em alguma emergência de hospital público durante um inverno bem seco, quando a parcela da população que têm problemas respiratórios, como asmáticos e os que sofrem de bronquite, correm para as inalações. Explica-se: o filme de Steve McQueen foi longe como nunca antes ao retratar, com um brutal realismo, a escravidão no sul dos Estados Unidos pelos anos 1840, quando parte dos escravos já eram livres no norte do país. Um violinista negro é sequestrado durante uma turnê em Washington, vendido para uma “plantation” na Louisiana e por uma dúzia de anos vai sofrer todo tipo de humilhação imaginável, que todos nós de alguma forma sabemos como foi, mas ninguém nunca a viu assim, com todos os detalhes, dando voz aos escravos, um filme passado pelo ponto de vista de um músico. É de tirar o fôlego (no caso do pessoal da tosse, literalmente).

Nas duas horas e quinze de filme, uma desgraceira só. Navalhadas na cara, queimaduras no corpo, navios negreiros nos rios do pais, mãos cortadas, escravos cegos de escorbuto, isso só na primeira hora de filme; uma calamidade que, sem exagero, a plateia não está preparada para ver. Houve mesmo quem se perguntasse se seria ético filmar a escravidão, como o cineasta Michael Haneke fez ao levantar a questão se seria correto usar o Holocausto como tema de tantos filmes “inconsequentes”. O escravo em questão, Solomon Northup, escreveu um livro contando a sua história – tudo é baseado em fatos reais – e tornou-se ativista contra a escravidão. Ao convertê-la ao cinema, McQueen e sua equipe fizeram, de longe, o mais importante filme até hoje feito sobre a escravidão nos EUA e a dúvida sobre a pertinência de se filmar o tema simplesmente desaparece.

O filme é tão forte que dissolve a quase nada as tentativas anteriores, como Tempos de Glória (Glory, 1989), de Edwark  Zwick; torna A Cor Púrpura (The Color Purple, 1985), de Steven Spielberg, praticamente uma historieta de salão, e evidencia ainda mais a tolice de Lincoln (Idem, 2012), também de Spielbergh. Quentin Tarantino, a seu modo, até conseguiu fazer um filme engraçado em Django Livre (Django Unchained, 2012), mas, quando pela primeira vez que a palavra nigger é pronunciada em 12 Anos de Escravidão, e é uma das primeiras, sabemos claramente que não é uma paródia e todo seu conteúdo negativo e racista está lá. Como no filme de Tarantino, “the n-word” vai ser pronunciada inúmeras vezes (não 139 vezes, claro), sempre insultante e pejorativa. Curiosamente, 12 Years a Slave é ainda mais violento que Tarantino – é quase um filme de horror, com a grande diferença que não é catártico.

O filme provará que a degeneração engendrada pela escravidão é tal que condena toda a sociedade que participa dela. Ninguém se salvará, pois não há salvação. Salomon será traído pelos seus próprios companheiros de senzala e ele próprio terá de selvagemente castigar uma das escravas, dando chibatas até arrancar a pele da infeliz, cena mostrada em detalhes, sem dúvida uma proeza de maquiagem e efeitos especiais, que não sairá facilmente da mente de quem a vir. Ao ser vendido para um proprietário de terras e escravos sádico (Michael Fassbender, ator fetiche do diretor), cairá no meio de um triângulo amoroso entre o dono, a mulher (chocante interpretação da atriz Sarah Paulson), e uma das escravas, que, além de colher algodão o dia todo, também tinha de prestar serviços sexuais à noite para o patrão.

McQueen não poupa o público da selvageria, para isso usando imagens muito belas: a beleza plástica do filme, soturna e implacável, soma-se a diálogos duros e pausas, longos silêncios, que, se provocam ainda mais tosses, dão o necessário ritmo para que a plateia absorva as imagens. Há uma certa calma, portanto, nas imagens, no andamento do filme, e a violência não explode: ela está permanentemente lá, à espera que aconteça – e chega sempre perversa e aviltante. Esse é o grande trunfo do diretor, algo que nem Spielbergh nem Tarantino conseguiram: a narrativa do filme é interna, seu desenvolvimento soa lógico, mesmo que à beira do surreal; os arroubos das personagens e a brutalidade corporal são recursos estéticos integrados à época e costumes. Sem necessidade de se recorrer à referências externas, McQueen construiu um universo próprio, fluido e eficiente, para sua obra seminal.

Fassbender e sua psicose são a parte mais fraca do filme (além, claro, dos violinos, sempre eles, de Hans Zimmer). Mas o filme de Steve McQueen não é sentimental, como aliás também não é a Philomena (Idem, 2013), do também inglês Steven Frears. Curioso ver dois filmes tão anti-sentimentais, com dois abnegados nos papéis principais, numa espécie de cruzada anti-cinismo entre os filmes premiáveis desse ano. 12 Anos de Escravidão foi independentemente produzido por Brad Pitt (que faz uma ponta no filme) e distribuído pela 20th Century Fox. É daquelas raras obras médias que conseguem furar o bloqueio e chegar ao grande público sem as habituais concessões e reducionismos. Organismo estranho, provoca tosses nervosas, mas é melhor escutar o pessoal tossindo insistentemente porque incomodados com cenas difíceis do que o confortável silêncio dos violinos melodramáticos.

Comentários (26)

Rodrigo Torres | quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014 - 05:03

Enfim li a crítica. E que cacete de texto!

Até me abstive de ler essa discussão tola sobre realismo no cinema. Faça-me o favor...

Ted Rafael Araujo Nogueira | sábado, 22 de Fevereiro de 2014 - 02:29

Citar Lumiére matou a discussão.
Porra o Vertov já falava de cinema verdade como conceito há mais de 70 anos. Isso teria sido mais gente boa...

Vou só citar o Jean Rouch: \"Cinema verdade é o realismo do cinema e não no cinema.\"
E não vou ficar muito de rabo explicando citações.
Discutir realismo é frescura muita. Como exercício da falta do que fazer quando a discussão está quase por encerrada (Lumiére) comento aqui.

Fodam-se as frescuras.

Alexandre Marcello de Figueiredo | sábado, 26 de Julho de 2014 - 18:29

A escravidão e toda à sua perversidade e crueldade abordada num filmaço. O Oscar de melhor filme foi entregue de forma merecida.

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