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12 Anos de Escravidão

(12 Years a Slave, 2013)
8,0
Média
701 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A valorização da liberdade.

8,5

12 Anos de Escravidão. 2013. De Steve McQueen. Baseado em fatos reais que, provavelmente, chegaria pra ser um dos divisores de águas norte-americano dos filmes sobre o tema.

Trata-se da história do ex-escravo Solomon Northup (autor do livro no qual a obra baseou sua própria estória) que é sequestrado, vendido e posto de volta a labutar como escravo, no que viria a passar, novamente (pois já era alforriado), pelas mais diversas provações e humilhações sempre buscando – quando vê alguma oportunidade de provar – que, de fato, és livre.

Filme competente ao que se propõe. Roteiro direto, conciso e seco, baseado em autobiografia de Northup, onde aqui as liberdades criativas do roteirista John Ridley e do próprio Steve McQueen não interferem no absoluto poder desta significativa obra/denúncia. Aqui a proposição é buscar um caráter de abordagem realística positiva (apesar das liberdades de Michael Fassbender em seu overacting enriquecedor) sobre o que significou a escravidão tendo a situação vivida por Northup funcionando como uma espécie de microcosmo do mosaico escravagista. Neste quesito o filme impressiona pela busca por um realismo seco, onde o horror da escravidão é mostrado de forma crua. Desnudada.

Para uma fluência acertada, a direção de McQueen teria de se comportar da mesma forma compactuando das já citadas secura e crueza. Assemelhando-se a um formato grosseiro de escolhas decisivas que enalteçam o choque aproximado do real brutal sem firulas. Com escolhas frontais do que gerara a escravidão num país tão devastado por ela e ainda com uma herança maldita encontrada no racismo diário de vilipendio aos pretos e pretas.

O que achei clara foi a intenção de McQueen em criar uma atmosfera quase que insustentável, mais passível a concatenações e falhas humanas, e não tão somente vivida de carrascos mecanicistas – não os desumanizando, mas mostrando que o humano escroto que é, faz o que faz por condicionamento de escolha social, moral e política. Uma busca pelo real que vise não chocar o espectador somente. A violência está lá como elemento pertencente a um determinado período e a sua ambiência (e que não nega eco, que fique claro). A opção aqui, em relação a este período, é sim afrontá-lo, trazê-lo ao debate, a prover argumentações. Promover força de sentidos, trazer o sangue e discutir a preponderância do poder da libertação humana e sua importância de existir.

Elenco. Atuações soberbas em sua maioria, começando por Chiwetel Ejiofor, no difícil papel principal, onde o ele nos traz uma intensa força ao papel fugindo dos clichês de vitimação inoportuna, e sem nenhum tipo de caráter triunfalista. Todas as camadas, desde o desespero ao escape final, são perpassadas por Chiwetel de forma categoricamente natural e segura. Sem firulas como o filme já o é. Fassbender mostra o já habitual talento, neste caso até para o overacting citado, que aqui funcionou bem, apesar do clima do filme parecer não permitir tais intentos, mas o sujeito não nos traz somente a caricatura em si, e sim, uma proximidade da mesma (por mais paradoxal que isso possa ser) com exageros humanos ao limite do aceitável (o branco escroto como negociante excruciante da vida negra com um brinquedo vil). O seu Edwin Epps, o explorador com seu caráter de força ao preço de qualquer situação, principalmente sexual. E isto é demonstrado com muita garra e pavor. Excelente composição. Porém creio que a grande atuação do filme seja da queniana Lupita Nyong'o, em papel de escrava sexual extremamente difícil onde não se deixa em momento algum que transpareça um situacionismo farsesco por demais. Assustadora a sua cena rápida de tortura. E assim como em Solomon (bem mais que ele até) não há nenhum tipo de triunfalismo inútil. Excelente opção do diretor no trabalho com esta surpreendente atriz à época (hoje uma monstra). Faz representar alguns dos maiores valores escrotos do escravagismo.

Fotografia perfeita casando com o clima cru do longa, e propõe-se a mostrar a saga de Northup sem triunfá-lo, mas mostrando-o como mais um que lutara pra sobreviver diante de tantas adversidades. Correta edição e excelente trabalho sonoro. Completam o serviço uma contida trilha sonora de Hans Zimmer, ao contrário de alguns temas seus mais ribombantes anteriores e posteriores.

Filme que gera uma gama de discussões acerca do tema e onde, por exemplo aqui no Brasil fomenta-se a discussão da situação da exploração sexual por sobre os escravos que chegara a ser amenizada por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, onde o próprio tratava a situação de maneira bastante condescendente, onde é explicitado que as escravas simplesmente seduziriam o senhor em vários casos por exemplo. E mesmo que existam fatores de exploração sexual não seriam citados com espaço suficiente nesta obra. Cabe a discussão, sem destroçar anacronicamente a obra de Freyre, mas, sim, problematizá-la e compará-la ao que analisamos em 12 anos de Escravidão em sua exposição clara destes fatos e, comparadamente a obras anteriores como o próprio casa grande, refém de sua época. Não esqueçamos disso. Uma obra é fruto de sua temporalidade sim, mas mesmo como tal, não pode escapar do escrutínio do que seu discurso enseja, principalmente quando existem autores outros a já criticá-la em sua época.

Em um país como o nosso em que outras discussões do tema transformam-se e constituem-se em outros braços das anteriores, como acerca de cotas raciais nas universidades que enchem bares e botecos pelo Brasil afora, este filme teria vindo em boa hora para alimentar e enriquecer os mais diversos debates. Esta última frase minha contempla o que eu acreditava em 2013, quando escrevi este texto que editei agora. O filme é bom, mas aqui no Brasil não gerou o debate que o Ted mais novo acreditou, mas pelo menos o racismo está sendo mais combatido de 9 anos pra cá, mas ainda assim muito longe de ter seu fim decretado. Não é a função do filme isto, mas é uma desgraça lembrar disso a todo momento. Mesmo eu sendo um branco ocidental de classe média, nada me impede de ter alguma empatia.

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