Saltar para o conteúdo

Críticas

Cineplayers

Cadê os sentimentos reais?

3,0

O curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho e consequentemente sua extensão em longa-metragem, o grande sucesso Eu Não Quero Voltar Sozinho, definitivamente fazem sentido para a época em que foram lançados. O cinema nacional queer voltado ao público mais jovem encontrava novos representantes naquele período como Os Famosos e os Duendes da Morte, e parecia nascer nesse recorte uma nova liberdade dentro da identidade comercial nas histórias voltadas a gays e lésbicas. Claro, passaram-se anos e as fragilidades, principalmente, do longa de Daniel Ribeiro se fazem evidentes, e ao menos era esperado que o diretor/roteirista demonstrasse um avanço após tantos anos escutando os apontamentos sobre a sua história de um jovem que se apaixonava por um garoto cego.

Bom, se essa maturidade esperada não surgiu na série da HBO Todx Nós, não é em 13 Sentimentos que ela finalmente se fará presente. Muito pelo contrário. Ribeiro abraça ainda mais o viés comercial do cinema queer contemporâneo, o que não seria um problema se todos os vícios descontrolados desse cinema pensado para ser palatável não contaminasse sua nova história ao ponto de diluir seus próprios objetivos - o de normalizar as relações homossexuais dentro desse pacote cinematográfico que mais lembra um comercial de margarina. Porque sim, pessoas queer também possuem seu direito ao entretenimento mais escapista possível. O incômodo surge a partir do momento que Ribeiro confunde o entretenimento açucarado e romântico tão comum nas romcons hollywoodianas, por exemplo, com essa tomada de decisões das mais questionáveis e equivocadas na hora de escolher o tom e a forma de sua história.

13 Sentimentos, inclusive, literalmente abre se afirmando como uma “história baseada em sentimentos reais”, mas o que há de realidade, afinal, no que Daniel Ribeiro conta? Existe, é claro, um mar de boas intenções nos próprios vieses comerciais do longa: a abordagem pra lá de sentimentalista do roteiro de Ribeiro ao lado de Rafael Gomes, as cores vivas e quase estouradas da fotografia de Pablo Escajedo, tudo contribui para uma experiência que busca a leveza como sua principal arma, mas isso leva o filme a cair numa representação pra lá de envelhecida não só sobre os conflitos de pessoas queer, mas sobre as representações desses mesmos corpos em cena.

Ora, 13 Sentimentos é, antes de tudo, um desfile vaidoso de corpos magros e sarados, naquilo que entende-se socialmente como perfeição estética. Seus corpos são filmados em planos abertos nas cenas sem camisa, mas sem qualquer paixão ou interesse pelos personagens em si. Artur Volpi e Michael Joseas, que nos guiam durante boa parte da narrativa, atuam como se estivessem diante de uma vitrine de loja exibindo seus corpos esculturais e sorriso absolutamente brancos, recitando (sim, recitando) seus diálogos que, textualmente, indicam um interesse sexual e/ou afetuoso que não se materializa na tela. Onde está a realidade que 13 Sentimentos afirmava ter?

A abordagem antiquada do filme de Ribeiro se torna ainda mais evidente quando viramos nossos holofotes aos personagens coadjuvantes - e virar o holofote para eles é algo que o filme não faz. Os dois melhores amigos do protagonista João, ambos negros, apenas existem por João e para João, e apesar do texto desenhar em off alguns conflitos que tomam a vida desses personagens, nada disso é mostrado em tela, jamais. Quando João faz alguma burrada, são eles que irão passar a mão em sua cabeça. Quando João é grosso com eles, são ELES que virão procurar João já o tendo perdoado.

Quase não são personagens, mas acessórios de um protagonista cujo maior conflito que se aproxima da realidade é a preocupação da mãe em saber se ele não esqueceu de fazer algumas compras (difícil apontar as reuniões com a editora do roteiro dele como um conflito palpável). O amigo negro, inclusive, é infelizmente lançado dentro do estereótipo do homem gay (e negro) predador, que fala bastante sobre o quanto faz sexo e como vê os outros como objetos sexuais enquanto renega qualquer aproximação pra além disso. Representações envelhecidas, é a colocação.

Pode-se questionar, claro, a suposta obrigação de um filme queer em se portar como um produto politizado, e não, nenhum filme carrega essa obrigação, ao mesmo tempo em que já existe um conflito nessa liberdade de abordagem: a existência de filmes gays, lésbicos ou o que for já se firma como uma existência política por si só, e nesse momento, as decisões de representação e construção do seu filme irão ser levadas em conta. No caso de 13 Sentimentos, reutilizando uma palavra, elas só parecem antiquadas. Curiosamente, quando o tema sexo se volta ao protagonista (branco, importante lembrar), o roteiro se reserva ao total direito de tratá-lo como alguém um tanto pueril, inocente e sem muito jogo de cintura para lidar com convites mais abertos. E quando esse sexo acontece, ele nunca é mostrado ou se concretiza. Aliás, estranhíssima a cena em que dois personagens terminam de transar em aparecem no sofá completamente livres de suor e o cabelo totalmente no lugar.

Então, mais do que antiquado, parece existir em 13 Sentimentos uma hesitação em “se sujar” mesmo em seus momentos mais carnais. De novo, Daniel Ribeiro, os sentimentos reais ficaram onde? É ao dar vida a esse filme explicitamente marcado, roteirizado, dirigido e atuado sem grandes espontaneidades que Daniel Ribeiro entrega um produto sufocado pelas necessidades comerciais de ser aprazível ao público em massa, o que, sinceramente, é algo bastante aprovado entre o público mais conservador com síndrome de “não sou preconceituoso, tenho até um amigo gay”. Os sentimentos reais ficaram pra depois, porque aqui tudo mais parece uma emulação deles.

Comentários (0)

Faça login para comentar.