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Críticas

Cineplayers

Um clássico do cinema que conjuga o presente, o passado, a imaginação e o sonho, abolindo as divisões entre o real e o onírico.

8,0

O italiano Federico Fellini geralmente costuma ser um dos primeiros cineastas que os cinéfilos tomam conhecimento, e atraídos pelo prestígio de seu nome, correm atrás e devoram grande parte de sua filmografia, além de ler centenas de comentários escritos sobre a sua obra. Funciona como uma janela, para depois então se descobrir outros diretores essenciais, e não tão consagrados.

A primeira fase de Fellini nos anos cinqüenta surge como um sopro de ar no neo-realismo italiano, e culmina no grande painel social de A Doce Vida, mais ousado, transgressor e surrealista, quando então sua carreira sofre uma guinada que o levaria à autobiografia total em , um filme de transição que definitivamente rompe as fronteiras entre o plano real e o onírico. O que pode se tornar tortuoso ou confuso ao espectador desavisado, uma vez que o filme nem sempre se interessa em ser claro ou explicar suas intenções e fantasias; e toda essa loucura visual se faz presente desde o pesadelo encenado no começo da narrativa.

8½ é um filme sobre os tormentos da criação artística, em volta da crise pessoal e da consciência dilacerada de Guido Anselmi (Marcello Mastroianni). A angústia de um diretor que precisa filmar, de um artista com a necessidade e a dificuldade de se expressar. Suas idéias pareciam tão claras, achava que tinha algo simples a dizer e desejava fazer um filme honesto, sem nenhuma mentira. Um filme que pudesse ser útil para todos e ajudasse a enterrar o que de morto carregamos. Mas compreendia ser o primeiro a não ter coragem de enterrar nada, com a cabeça confusa e se perguntando em que momento da vida ele errou. Um artista que, por fim, assume não ter nada a dizer, mas com o desejo de dizê-lo assim mesmo e seguir em frente o seu caminho. E que então questiona os seus fantasmas, que respondem que o cineasta é livre, mas precisa saber escolher e agir logo. E avisam que já não lhe resta muito tempo.

É incontestável que 8½ consegue transcender a condição de uma simples egotrip de seu diretor para se tornar uma obra de arte em torno do processo criativo da mente de um cineasta. Mas a maneira como Fellini concebe o seu universo tão particular pode não atrair e até afastar a atenção de quem o vê. Ainda que o filme não tenha o caos narrativo de algumas das obras posteriores do italiano, em 8½ se misturam o presente, o passado, o devaneio e o sonho, quase sempre sem aviso prévio e com o vôo livre da imaginação sem limites do cineasta, em cenas em meio às sombras ou envoltas em névoas. O que é bastante sedutor à primeira vista, corre também o grande risco de, cedo ou tarde, sucessivamente e a qualquer momento, se perder (e podendo, quem sabe, mais adiante reencontrar) o fio da meada, o que para muitos pode se converter em uma experiência fatigante.

É também um filme cheio de simbolismos e metáforas visuais, muitas das quais difíceis de discernir e acompanhar. Um exemplo é a breve imagem do seu ideal de amor puro, genuíno, encarnado pela personagem de Claudia Cardinale aparecendo sorridente, linda e luminosa, entregando-lhe um belo e transbordante copo de água, o que seria a representação de um amor cristalino, puro e diáfano, algo que o homem perdeu muito cedo ou com o qual jamais se deparou. Na maioria das vezes, cabe ao espectador conferir ou encontrar sentido para grande parte das seqüências enigmáticas que formam o todo bastante inusitado e fascinante que forma 8½, ou talvez o mais aconselhável seja deixar-se levar pela sua narrativa lúdica e sensorial e encarregar o nosso inconsciente de atribuir significado ao que testemunhamos na tela, mais ou menos à maneira de outro mestre do cinema, o espanhol Luis Buñuel.

Os conflitos com a religião católica e a relação com as mulheres ocupam um dos pontos centrais dentro da obra. Em um dos seus delírios, o personagem imagina unir na mesma dança a esposa Luisa (Anouk Aimée, que está bastante parecida com a verdadeira mulher de Fellini, a atriz Giuletta Masina) e a amante Carla (Sandra Milo, que mantinha mesmo um caso com o diretor italiano). A própria esposa, por sinal, em uma das discussões do casal o define como um curioso, dono de uma curiosidade quase infantil. Mas o ápice de 8½ é com Marcello Mastroianni de chapéu e chicote em uma sauna, acompanhado de todas as mulheres de sua vida fantasiadas nas mais diversas formas, como que numa espécie de harém, e que em determinado momento se rebelam contra o realizador. A cena transcorre ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Richard Wagner, e com certeza está incluída entre as imagens mais desvairadas e míticas da história da sétima arte, uma das tantas visões inventivas e situações perturbadoras que compõem o universo felliniano.

Barroco e cheio de extravagâncias, 8½ é um filme que toma novas formas e se delineia de maneiras inesperadas a cada revisão. É também o ponto de partida com o qual a obra de Fellini tomaria um novo rumo, com suas películas posteriores tornando-se mais auto-centradas em seus devaneios e fantasias − ou nos da sua esposa, Giuletta Masina (como no filme seguinte do diretor, Julieta dos Espíritos). Até quando fala da Roma antiga, como em Satyricon e Roma, concebe uma Roma que só existiu em sua imaginação. Uma das razões que fez com que seu cinema daí pra frente desagradasse muitos críticos e cinéfilos. Particularmente, Fellini e seu 8½ nunca estiveram entre os meus deuses cinematográficos. Admiro os seus melhores filmes, mas com uma admiração contida, fria, distante e não-apaixonada. São obras que não me arrebatam. Mas é um marco do cinema do século XX.

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