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À Espreita do Mal

(I See You, 2019)
7,1
Média
35 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Pontos de vista

5,0

O que me chamou mais a atenção inicialmente ao olhar para o cartaz de À Espreita do Mal – por sinal, um título bem mal traduzido – foi o nome de Helen Hunt. Andava meio sumida a atriz do clássico Twister, filme de Jan de Bont tantas vezes reprisado na telinha. Lembro de uma atriz desenvolta e carismática no filme-catástrofe de 1996, dando vida a uma coadjuvante memorável ao lado do tornado, verdadeiro protagonista. O tempo parece não ter feito lá tão bem à atriz, que pareceu desde então viver numa nuvem do automatismo. E é justamente nesse automático que Hunt parece performar aqui no filme de Adam Randall.

O roteiro de Davon Graye, por sua vez, se encarrega de nos transmitir uma história com supostos contornos tétricos. No entanto, para chegar ao cerne de sua premissa, o longa começa versando sobre uma família em crise. Os arquétipos e situações clichês revelam a esposa infiel, o marido desconfiado, o filho atribulado. Por óbvio, também, uma casa que começa com uma sintomatologia do horror. Aquelas movimentações e barulhos típicos, estranhos a ponto de chamarem a atenção dos personagens ali presentes e começarem a despertar uma incômoda suspeita, tanto no espectador quanto naquelas “marionetes” do universo fílmico.

Randall estabelece bem, através de alguns truques na direção, essa presumida força maligna no primeiro ato. No entanto, falha ao corporificar uma atmosfera mais genuína e sentida. Se coloca a câmera, propositalmente, em pontos que simulam a visão de um terceiro misterioso nos cenários, observando como um onipresente escondido, falha ao compor a extra-diegese com sons martelantes demais, às vezes sem propósito específico. Dá uma impressão de gratuidade quando repetidas vezes filma cômodos vazios, cortando de uma para o outro, com uma trilha permeada numa mescla barulhenta de graves sintéticos e notas mais instrumentais.

Ao final, acaba não entregando nada na sequência, mostrando que tais segmentos estão ali para sinalizar ao que assiste que este está diante de um filme de terror. Conforme avança em seu projeto, Randall vai jogando revelações ao espectador, seguindo a lógica “isca” das reviravoltas, tão sedutoras. Mas esquece de coisas como verossimilhança, coerência e desenvolvimento.

É até possível que se faça vista grossa aqui e ali, mas o longa é um pouco carregado nessa lógica absurdista das inúmeras coincidências e motivações estapafúrdias. Interessante é essa virada de chave no segundo ato, que nos coloca do outro lado da engrenagem de suspense, fazendo com que o filme assuma um outro caráter lá pra depois dos 40 minutos, mas seria ainda mais estimulante se conjurassem melhor os elementos daquela incitante e possibilitadora dualidade habitante-invasor. A inversão dos pontos de vista operada por Randall, pra não rotulá-la como de inteira precariedade em ideia e execução, é de início até algo bem instigante.

Tem ali seus ecos de Os Estranhos, de 2008, de Bryan Bertino, mas fica realmente difícil entender a personalidade de alguns personagens, como Alec (Owen Teague). Ele toma a decisão de perturbar e chamar a atenção da família Harper, quando o plano original era apenas se aventurar ao lado de sua parceira Mindy numa inusitada prática conhecida como phrogging, uma espécie de modalidade com fins de diversão e adrenalina (?) que consiste em se esconder dentro de propriedades alheias, gastando o tempo com a perigosa observação à espreita dos moradores.

São viradas esquisitas e injustificadas, algumas até implausíveis, que vão se acumulando ao lado de outro pontos que são bem batidos no gênero, já desgastados de tão explorados. No entanto, ainda que atabalhoado, é um filme com razoável direção e senso estético mínimo dentro de uma escola mais supercine. Randall coloca a câmera em posição de zênite, simulando uma visão de um ponto bem alto direcionada para baixo, como se algo ou alguém vigiasse até mesmo do céu aquela típica família média americana, além de movimentos panorâmicos; dentre outros bem estudados numa composição harmônica com a cinematografia, que, ao passo que correta, são igualmente burocráticos.

Encerram-se como pontos negativos mais proeminentes mesmo a trilha pouco criativa e o roteiro pouco consistente, que embora bem decupado eventualmente com bom uso da linguagem na narrativa, empobrece e mitiga o potencial da trama e de seu efeito. Há pouco tempo para se ter medo de fato com essa produção, uma vez que a história se divide entre uma investigação policial (desenvolvida de maneira duvidosa) de um menino que desaparecera no parque e a trama do home invasion, sem que se desenvolva satisfatoriamente nem uma nem outra.

Em suma, I See You consegue divertir aquele que não propõe um olhar crítico sobre as obras cinematográficas. O espectador mais leigo nessa proposição de uma ideia reflexiva sobre filmes em geral. Mas deixa a desejar com suas fragilidades visíveis se observadas com um mínimo de critério. Esse jogo de perspectiva que o filme promove, ora situando o espectador na visão dos residentes ora na dos infiltrados, é algo que deve até promover o filme num boca a boca encorpado e que de fato é bacana, engajando por certo tempo. Mas mostra-se uma opção, narrativamente falando, de mais redundância do que qualquer outra coisa.

É um dispositivo que o filme incorpora sem dar o mínimo de profundidade à dupla invasora, que de repente passa a ter uma motivação advinda do além e executa o que executa apenas por motivos de “precisamos encher linguiça na trama”. É mais do que claro, portanto, que as intenções de Randall aqui foram nobres e o desenrolar, bem, este fora deveras exíguo.

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