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Críticas

Cineplayers

Mitologia sem perder a diversão.

7,5
Ao término do filme, os nomes de Robert Rodriguez e James Cameron aparecem neles, dando a certeza do que acabamos de ver, um híbrido entre os mundos de dois autores do cinema espetáculo. Aos poucos o cérebro vai apreendendo que sim, no produto que acabou de ser apresentado há elementos caros aos dois e que constituem uma certa mítica em cima de seus nomes. De um lado, a criação de um universo que possa ser expandido e aproveitado para uma saga de duração ampla e a observação da fábula/fantasia dentro desse escopo típicos do roteirista e produtor Cameron; do outro, o flerte com a violência, com uma abordagem suja do universo apresentado, e a suspensão da segurança naquele ambiente, tão próximos ao diretor Rodríguez. O ato de condensar essas duas visões é o um dos principais acertos de Alita: Anjo em Combate.

Baseado no mangá homônimo de Yukito Kishiro, o projeto é uma obsessão de Cameron há anos, que guarda elementos reconhecíveis do que o próprio conceberia em matéria de mitologia. Uma heroína que precisa se entender como tal vivendo num mundo que as abre aos poucos pra sua compreensão, de elementos pós-apocalípticos e mensagem de liderança e revanchismo contra os opressores da sociedade, são elementos que o cineasta conhece bem e desenvolve dentro de seu campo de interesses. Aqui ele tem a chance de mais uma vez revisitar essa 'jornada do heroi' sem o envolvimento absoluto que a cadeira de direção pede, mas ainda que homenageie os traços pré-existentes do mangá, ainda conta com sua imaginação para transpor aquela grandiosidade e as texturas futuristicas pro material filmico - e as inspirações para a Cidade de Ferro é assumidamente das comunidades brasileiras, no qual percebemos com alguma facilidade.

De posse dessa grandiloquência que o roteirista desenvolveu e o produtor abraçou, as pinceladas propostas pelo diretor Rodríguez tambem se percebem com facilidade, acrescentando à visão de Cameron um caráter dúbio e perigoso. Mesmo nos breves momentos de idilio parece haver uma hostilidade na atmosfera do filme, e isso é uma clara contribuição do maestro. Além disso, Rodríguez é afeito a composições de plano arriscados para trazer relevo a suas contribuições de inspiração fantástica. Por todo o longa eclodem aqui e ali novos elementos e figuras construídos nas raias do espetáculo, como a lutadora que se 'transforma' numa espécie de aranha estilizada, e o vilão do filme ser uma espécie de entidade incorporea, trazendo elementos de cinema de gênero para dentro de um blockbuster.

O veterano fotógrafo da trilogia Matrix Bill Pope tem a agilidade necessária para filmar o esporte praticado no filme, uma espécie de recauchutagem do 'rollerball' do clássico homônimo; de inegável agilidade, Pope cria camadas de luz para situar a personagem-título, e integrando a experiência visual a narrativa apresentada, indo da luz branca e aberta do início até o gradual escurecimento da sua paleta, como se indo do nascimento a maturidade da protagonista. O montador Stephen Rivkin (indicado ao Oscar por Avatar) vem da equipe do produtor e estabelece com competência essa mesma pegada que o roteiro concebe, indo além de um mero passatempo de fim de semana e estabelecendo visualmente uma coesão estética que tira o filme de um lugar raso do entretenimento.

Ainda que saibam fazê-lo como poucos e que esse seja o principal interesse, a equipe por trás de Alita não tem seu olhar em critérios descartáveis. Povoado pelos oscarizados Christoph Waltz, Mahershala Ali e Jennifer Connelly, o filme se pensa de maneira superior e está aí seu pecado. Apesar de sua trama não ter nada necessariamente de original e/ou inovadora (e seria ótimo perceber como a produção aceita isso e tenta tirar proveito dessa simplicidade com mais frequência do que aparenta), seus criadores não precisavam tentar criar um produto com pretensões tão elaboradas assim. Com pitadas de filosofia e um encaminhamento pendendo para o operístico, o filme poderia ser mais simples e acertaria seu alvo com igual precisão. Mas Alita ainda se encerra como um bem-vindo capítulo inicial de uma saga que nunca deixa de interessar.

Comentários (6)

Bernardo D.I. Brum | segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019 - 17:31 | Responder

Sou desconfiado de adaptações ocidentais de mangá, mas vamos ver qual é desse

Caique Nogueira | terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019 - 22:46 | Responder

O filme é interessante no quesito de transitar a ingenuidade inicial da protagonista em um universo que se mostra sombrio,feio,sujo e selvagem.Alguns personagens são dispensáveis,ou simplistas demais(inclusive os antagonistas),mas o filme é legal mesmo.

Carlos Eduardo | quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2019 - 00:18 | Responder

Não conheço a obra original (e pra mim nunca importa isso, o filme deve valer pelo filme) mas Alita é o melhor trabalho de Robert Rodriguez em muito tempo. Cinema de gênero perfeitamente fundido ao cinema arrasa quarteirão de Cameron. Pena que Cameron se meteu no roteiro, que é de onde vêm as maiores escorregadas, mas nada tira o brilho deste que é um ótimo exemplar de ação futurística distópica. Deixou Jogador N° 1 no chinelo.

Robson Oliveira | terça-feira, 26 de Fevereiro de 2019 - 23:13 | Responder

Acabei de assistir, que filme foda! Divertido até o talo, desenvolvimento bem entregue, não cansa em nenhum momento a trama futurista. Curti ainda mais que Jogador Nº 1, que aliás também gostei bastante.

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