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Críticas

Cineplayers

O cinema das recordações.

9,0

Analisar os filmes da fase surrealista de Federico Fellini é uma tarefa um tanto injusta com o próprio cineasta. Isso se dá pelo excesso de referências pessoais que o diretor inseriu nessas obras – incontáveis lembranças, sonhos, opiniões, traumas, desejos e tudo o mais que compõe sua mente nem sempre bem compreendida. Tentar comentar esses trabalhos é o mesmo que invadir a vida pessoal de Fellini, criticá-lo de acordo com os padrões de análise fílmica, enquadrá-lo em um molde em que não se encaixa. Ou seja, escrever a respeito de filmes como Amarcord (idem, 1973) deve consistir apenas em um ato de homenagem, nada mais que isso. Afinal, quem somos nós para adentrar nas memórias da adolescência dele na cidadezinha de Rimini e querer em cima disso opinar e palpitar a respeito delas? Limito-me então a apenas descrever o encanto deste filme.

Pensemos em Amarcord como um tipo de pintura abstrata. A arte abstrata tem essa característica de causar impactos diferentes em cada pessoa, de modo que ninguém poderia defini-la em uma única palavra ou classificação, já que cada um a interpreta de uma maneira particular. O mesmo se dá com o cinema de Fellini nessa fase. Se tratando de um amontoado de recordações de uma época já não tão clara em sua memória, Amarcord é para a grande maioria algo indefinível. Alguns amam, outros detestam, ainda outros tentam desvendar, enquanto alguns se limitam apenas em apreciar essa avalanche de cenas desconexas e donas de uma linearidade ínfima. A única afirmação concreta nesse meio todo é que se trata da história de um rapaz que vive na cidade de Rimini na época da ascensão do fascismo italiano, onde convive com as mais diversas e excêntricas personalidades de sua vizinhança.

O significado da expressão Amarcord seria, em uma tradução livre, algo em torno de “eu me recordo” ou simplesmente “recordações”, embora o próprio Fellini afirme ter escolhido como título apenas pela sua sonoridade curiosa, e que nada ali se assemelha com suas recordações pessoais. Fica difícil acreditar nessa afirmação e deixar de encarar este filme como um tipo de diário antigo de seu realizador, mas o que de fato importa é a complexidade que essa simples palavra atribui ao conjunto da obra. Amarcord é uma palavra que reúne em si tudo o que Fellini sempre procurou expor em seus filmes surrealistas que sucederam A Doce Vida (La Dolce Vita, 1960): seus sonhos, a Itália fascista, sua conturbada ligação com a Igreja Católica, a infância, a adolescência, as pessoas que o rodeavam, a descoberta do sexo, sua família, a pobreza, a simplicidade interiorana, e como tudo aquilo virava arte em movimento aos seus olhos.

Nascido e criado nesse lugar afastado do mundo, Fellini cresceu um tanto inocente aos acontecimentos que o rodeavam, de modo que a seu ver tudo aquilo era confuso demais, porém igualmente interessante. Desvendar os lugares, as pessoas, as instituições, as autoridades e a política era sua grande aventura, e quando cresceu procurou sempre conquistar seu público reproduzindo em cinema o fascínio que ele mesmo sentiu diante de tal turbilhão de informações. Por isso que reina uma sensação de perdição e confusão na mente do espectador ao se ver diante dos filmes do diretor, em especial Amarcord – o ápice da inquietude em sua filmografia.

Nesse ponto se encontra a grande magia do cinema presente em Amarcord. Fellini consegue fazer com que nós, meros espectadores distantes de sua realidade, presenciemos as mesmas situações que ele presenciou durante sua vida, e com o mesmo olhar de inocência e confusão. Somos como crianças ali, achando tudo muito difícil de entender, mas ao mesmo tempo sedentos em descobrir mais e mais a respeito de tal universo encantador. É um retrocesso até mesmo em nossas próprias lembranças – a hora em que descobrimos o real significado do funcionamento do mundo e tudo então passa a fazer sentido em nossa cabeça (indo embora assim a deliciosa abstração de uma mente outrora inocente).

Através dessa obra, podemos entender o motivo de o cinema de Fellini ser tão mais próximo do público, por mais confuso que seja. Em Amarcord, não há atores conhecidos, nem um enredo familiar, não há protagonistas ou antagonistas, nem mesmo estrutura narrativa já vista antes. Pelo contrário, tudo é extremamente diferente do cinema tradicional americano – e até mesmo europeu – conseguindo, misteriosamente, aproximar-se ainda mais de nós. É tão extravagante, instigante e emocionante que estabelece rapidamente uma sucessão de pontos em comum com seu público, nos afastando das ilusões do estilo mais tradicional do cinema fantasioso do estilo americano, mas ao mesmo tempo nos mergulhando em novas fantasias e sonhos, só que dessa vez muito mais palpáveis e de fácil identificação.

Entre tamanhas situações absurdas que são colocadas em tela com certa frequência, emergem signos cinematográficos infindáveis e personagens extremamente bizarros: uma freira anã, uma comerciante com seios gigantescos, um músico cego, um narrador improvisado que aparece e desaparece o tempo todo, um exército fascista dançante, um grupo de esquerdistas amáveis, um(a) mendigo(a) de sexo indefinido que parece não perceber estar sendo filmado, a tradicional bonitona da cidade, uma pavão colorido que caminha e voa pela neve, um padre desinteressado pelos seus fiéis, um tio maluco que sobe em árvores, etc. Tudo isso caminha em direção a uma catarse belíssima, quando um transatlântico imponente e iluminado passa pela cidadezinha, atraindo os olhares fascinados de todos esses personagens. Nesse meio todo, encontramos o alter-ego de Fellini no personagem Titta (Bruno Zanin), um adolescente que está apenas no início do processo de desvendar toda essa loucura – assim como nós.

Por fim, podemos dizer que, assim como Titta, nós somos apenas adolescentes nesse universo felliniano repleto de oportunidades. Enxergar Amarcord exige um ponto de vista único, uma maneira própria de sentir o cinema baseado em recordações. Não apenas as recordações, mas também parar e se deixar levar pelos estímulos sensoriais que jorram da tela a cada novo minuto de projeção. A trilha sonora de Nino Rota entra como nossa aliada, ao envolver todas as sensações proporcionadas por Amarcord em uma única atmosfera.

Dentro do cinema italiano da década de 1970, tão pobre em comparação com os de outras nações, podemos dizer que Amarcord é um caso raro. Além de ter levado o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, ele ganhou um destaque e fez história ao levantar temas de importância primária, como a política, a religião, o sexo e os sonhos. Conseguir administrar temas tão fortes em um único trabalho prova que Fellini sempre esteve acima da média, e nunca gostou de ser igual a ninguém, nem mesmo seus colegas de trabalho da época (todos grandes, por sinal). Se alguns desses assuntos parecem ter ficado no ar, sem um aprofundamento maior, em especial o tal navio, uma sugestão é analisar outra obra também de muito apelo sensorial que viria na década seguinte, E La Nave Va (idem, 1983), um tipo de continuidade no desenvolvimento de alguns tópicos abertos pelo cineasta em Amarcord.

Seja como um cinema que evoca a importância e a beleza das recordações, seja como uma arte abstrata que merece eternas revisões (cada qual nos fazendo enxergar sempre um detalhe a mais), Amarcord é sempre uma experiência única, por mais que você o veja cem vezes seguidas. O tempo não foi capaz de apagar ou amenizar a magia que está presente em sua essência, e tal conteúdo é um grande tesouro a ser descoberto e desvendado pelos espectadores que procuram no cinema algo além da casual diversão. Talvez não seja tão fiel às lembranças de Fellini em Rimini, assim como Roma (idem, 1972) não é um fiel retrato de sua cidade-título, mas com certeza se transformará em uma lembrança para nós e, de repente, a curiosa expressão “Amarcord” começa a fazer sentido em meio ao complexo universo de lembranças que compõe as nossas próprias recordações.

Comentários (8)

Thiago Borges | domingo, 08 de Janeiro de 2012 - 13:41 | Responder

Amarcord não é nem de perto um dos melhores filmes de Fellini

Nena Noschese | sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012 - 19:34 | Responder

Bom. muito bom. Fellini é sempre HOJE mesmo nas suas "amacord".Os 'amacod s" são sempre truncados e exagerados em alguns aspectos e isso o Fellini foi mestre em nos ensinar.

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