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Ameaça vem do Polo, A

(The Giant Claw, 1957)
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Críticas

Cineplayers

Um pássaro do tamanho de uma nave de batalha. Repetidamente.

5,0

Bagaceira das mais pilantras e deliciosamente vagabunda. Filme que sempre é posto entre os piores filmes já feitos por vários órgãos que se prestam a tal lista de esculhambo. Porém o mesmo diverte não somente por sua narrativa avulsa com ares de estudo científico, mas por seus famosos efeitos mambembes na criação dum frango assado voador.

A estória aqui é simples – como assim era nalguns filmes B de monstros dos anos 50 –, uma ave gigante e esquisita vem para a Terra chocar seus ovos e mete o louco a destruir todas as cidades e pontos turísticos nos quais perambula. Tudo encarado na seriedade. O narrador enaltece os personagens na mais alta importância de suas funções patrióticas. Um tom pomposo que vendido como tal acaba por tornar-se tragicômico. A narração em off funciona como novela de rádio. Lendo as imagens pela tensão proposta. O que mais parece uma soma a um problema de montagem e roteiro onde usaram esta narração pra encobrir falhas e faltas, mesmo que o esquema fosse usual para a época aqui fica tudo bem mais óbvio, onde por longos minutos não há diálogos diegéticos apesar da atuação do elenco indicar o contrário. É um truque esperto, pilantra e funcional. Como não poderia faltar, há o esforço em carregar um ar de ciência que explique a força do frangão quanto a maneira na qual ele possa ser derrotado. Algo que envolva velocidade da luz e partículas antimatéria. Explicações para encher linguiça dando o este ar científico sensacional das obras Sci-fi cinquentistas. Um troço esquema MIT e NASA de garagem. Uma beleza. Além de se mencionar uma comparação exaustiva para causar impressão de gigantismo do animal onde o pássaro é do tamanho de uma nave de batalha (no caso, é encouraçado, mas nave de batalha fica mais trash pra piada) – “a bird as big as a battleship”. Referência repetida 12 vezes na fita, que até é levada na putaria pela personagem Sally Caldwell (Mara Corday). O filme coleciona estas marmotas para se encaixar como longa-metragem na seara dos filmes de monstro até chegarmos no seu diferencial sensacional: Os efeitos especiais absolutamente escabrosos do tal frangão.

Para adentrar nesse subtema é bom entender os personagens envolvidos na marmota. Temos o diretor Fred F. Sears – e também ator e conhecido por conseguir trabalhar bem com orçamentos baixo apresentando resultados minimamente satisfatórios. E foi isso que atraiu o produtor Sam Katzman. A capacidade de carpintaria barata e rápida de Sears, que fazia material de todo e qualquer gênero. Nisso houve o investimento de Katzman com a Columbia para a feitura de mais um filme de monstro. Visto o filão que estava sendo construído tanto em terras norte-americanas com King Kong (1933), O Monstro do Mar (Beast from 20,000 Fathoms, The, 1953), O Monstro do Mar Revolto (It Came from Beneath the Sea, 1955), entre outros tantos noutros países a posteriori com materiais até da Dinamarca tal qual Reptilicus (1961), ou parcerias entre EUA e Reino Unido como em Monstro Submarino (The Giant Behemoth, 1959), mas com a recente inspiração no estrondoso sucesso deste tipo de fita em terras orientais tais quais Rodan, O Monstro dos Céus (空の大怪獣 ラドン, Sora no Daikaijû Radon, 1956) e, principalmente, Godzilla (ゴジラ,Gojira, 1954). As minhas citações a estes filmes servem exatamente para exemplificar que tipo de material era feito no que tange não só ao filão existente citado, mas no modus operandi na construção específica dos monstros. Godzilla e Rodan eram feitos através do suitmotion (fantasias com atores dentro) e algumas marionetes, onde os mesmos conseguiam se vender com este tipo de trabalho. O Godzilla inclusive, fazia da sua iluminação como forma de escamotear alguma falha do visual, e para enaltecer o tamanho e poder do bicho, com ótimos resultados. Outra maneira, mais famosa (e muito mais cara), era o stop-motion, famoso no King Kong, visto em filmes como O Monstro do Mar, O Monstro do Mar Revolto e Monstro Submarino, onde os dois primeiros teriam efeitos capitaneados pelo mestre Ray Harryhausen, que era um fera nesse tipo de construção visual. Informação dada. Porém por uma questão de corte orçamentário, na mais pura pilantragem, o produtor Sam Katzman decidiu fazer o seu frangão através de marionetes e fantoches (pra não dizer que citei o Reptilicus avulsamente, já que foi exatamente assim que o filme dinamarquês fora feito). Isto porque o nome de Harryhausen fora prometido para a construção do monstro, e o cara era sinônimo de qualidade (e preço), algo que era o carro chefe dos filmes de monstro até então. Mas ao optar por um barateamento escuso usando de uma marionete tosca feita na Cidade do México, o produtor filmou estas cenas sem parte da produção saber (o diretor Fred F. Sears e elenco inclusos) e deixou para montar uma surpresa pavorosa na noite de estreia.

Nisso temos um monstrengo absolutamente marmotoso e risível não somente aos olhos calibrados do século XXI, mas já no ano de seu lançamento, haja visto o tamanho da mediocridade da criatura. Não que tudo isso não seja deliciosamente divertido para o expectador que vos fala, mas causou um puta desconforto, por exemplo, no protagonista Jeff Morrow que foi pra casa encher a cara de bebida após a fatídica noite de estreia. Não que tomar um porre seja ruim, mas pela vergonha acrescida, é uma maravilha. Não que ele também não tenha feito filmes igualmente absurdos como Guerra dos Planetas (This Island Earth, 1955). Bom deixar isso claro. Tudo isso embalsamado por uma trilha sonora tocada nas alturas em filme defendido com força e seriedade por um elenco que mantem o tom proposto, afinal, eles nem tinham visto como diabos pareceria o tal monstro.

Então, por fim temos um fantoche com bico e dentes tortos com um puta cabelo punk aterrorizando tudo por onde passa. O que deixa tudo ainda mais interessante, porque este filme é objeto de culto tanto pela história daquilo que o cerca quanto a própria feitura do bagaceiro monstro. Aliás o objeto de culto é o monstro. Deixando a criatura famosa exatamente pelo impacto negativo causado, hoje visto com simpatia e saudosismo pela desgraça da coisa e pela curtição que obviamente causa.

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