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Annette

(Annette, 2021)
7,2
Média
32 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Estamos prontos, Carax.

8,0

Seguindo o caminho de outros cineastas, como o também francês – e lendário – Alain Resnais, Leos Carax escolhe o musical como gênero para apresentar uma simbiose de elementos que circulam sobre o que há de mais profundo no ser humano, suas relações e sentimentos a partir, claro, de sua forma de observar e fazer cinema.

Desde Boy meets girl (Boy meets girl, 1984) vemos um autor que estabelece um casal longe dos padrões mais comuns, mediando o seu ponto de partida para construir o caminho dos encontros e desencontros desses personagens. Este pêndulo permite aos filmes espaço para desenvolver psicologicamente cada um desses personagens, por meio de escolhas cinematográficas que pertencem apenas ao universo de Carax. Esta forma que parece simples e cristalizada, na verdade, não tem nada disto. Temos em seus trabalhos um cinema de entrega total, os atores vivem verdadeiros quebra-cabeças de situações aparentemente absurdas, mas que dizem muito (ou tudo) sobre o que é viver a vida de forma real.

A filmografia do realizador francês sempre seguia essa fórmula. A crítica se debruçava para encontrar significados escondidos, continuísmos, auto referências ou pequenas sobras de biografia em seu alter ego, Alex, sempre personificado pelo magistral Denis Lavant. Tudo ganha novos contornos com a chegada de Holy Motors (Holy Motors, 2012), o melhor filme da década segundo a Cahiers du Cinema. Espanta esse desejo de relacionar autor e obra como um só, e coloca-nos adentro do terreno do abstrato, e assim somos obrigados a ir muito além da proposição ao espectador, à reflexão, e temos de construir significado por meio de símbolos cedidos numa mise-en-scène dominada pelo fantástico, embarcando nos passeios, não mais de Alex, mas do multifacetado Mr. Oscar.

Em Annette (Annette, 2021) vemos a utilização deste mesmo abstrato registrado no existencialismo de diálogos surrealistas de sua última obra encontrar-se com o musical, somado a um flerte à fórmula romântica dos seus primeiros filmes. Um gênero que, historicamente, permite uma natural abertura à fantasia, que ganha camadas metalinguísticas onde só mesmo a criatividade, cinefilia e o domínio do oficio do realizador são capazes de encontrar. 

Numa divertida introdução, o próprio realizador com uma fissura na camada ficcional dentro apresentação da banda Sparks (compositores originais da trilha sonora), abre uma conversa com o espectador alertando-nos sobre a necessidade de atenção durante as próximas duas longas horas. Devemos estar sentados, em silêncio e, acima de tudo, preparados para o que há por vir.

Ironicamente tudo começa muito simples, e longe do usual no cinema de Carax, Henry McHenry (Adam Driver) é uma espécie de Rei da Comédia (King of Comedy, 1982) em pleno auge, ator cômico de enorme aceitação, ainda que absolutamente ácido, parece ser dono do palco, de si mesmo e do público; sua companheira, Ann (Marion Cotillard), por outro lado, cantora de grandes multidões, francesa como Edith Piaf, também ovacionada por todos e absolutamente bem-sucedida em todos os aspectos que o senso comum considera importante. Ambos formam juntos o dito casal perfeito e parecem completar um ao outro em todos os sentidos.  

Numa inspirada leitura dos melhores Minnelli, vemos o verde de Henry separado do azul de Ann e encontrando-se com outras cores numa dança metafórica do amor total fotografados pela brilhante Caroline Champetier, conduzida, evidentemente pela música, mas também por uma acertadíssima montagem da igualmente veterana Nelly Quettier. O encontro máximo de dois indivíduos especiais, a comédia e o drama, o homem e a mulher. Binômios apresentados como em Sinfonia de Paris (An American in Paris, 1951), mas aqui é um francês na América que direciona o ritmo dos números musicais.

Nestes minutos iniciais, Carax vai desenvolver a potencialidade dos sentimentos de seus dois personagens protagonistas, tanto em suas vidas cotidianas, quanto no ato de representação. Toma para si, portanto, a essência do gênero. Isto é poder estabelecer em atos musicais a informação narrativa sem qualquer limite ao absurdo para somar à camada diegética de forma absolutamente crível ao espectador.

A partir do princípio que quase não contamos com diálogos diretos, portanto está bastante evidente que o longa está construído dentro do absurdo, e despreocupado de qualquer limite. Conseguimos separar o que é representação no palco, o que é o cotidiano do casal, e as interferências metalinguísticas. E tudo isso está conectado pela montagem de uma forma tão delicada, que estas barreiras se encontram e desencontram-se na mesma medida que a vida dos dois protagonistas se desenrola tanto no aspecto laboral, como no pessoal.

O melhor exemplo para justificar esta análise é Annete, a filha do casal, nascida em forma de marionete. Carax faz questão de mostrar a cena de sexo, o parto, mas o fruto dos dois artistas é o pinóquio feminino, o máximo expoente entre o que é real, e representação. Um ser capaz de circular livremente entre os dois mundos.

Toda a aparente perfeição começa a desmoronar justamente depois do nascimento da bebê. A pequena Ann tinha tudo para potencializar o amor dos dois, mas o que era um romance musical típico hollywoodiano, toma contornos de Bob Fosse. O existencialismo sobre a relação, o fazer artístico, a paternidade, a recepção do público, a morte e outros tantos temas contorcem os personagens, e a própria narrativa. Perdemos o chão, somos jogados ao mar numa das cenas mais impactantes da carreira de Carax, mas está sempre posta essa linha que prende o espectador na poltrona, e obriga-o estabelecer significados por si só.

Annete (2021) é o abraço de tudo o que engloba o cinema de Leos Carax em todos esses anos, com a sua visão do que é, e acima de tudo do que pode ser, o musical. Difícil, e improdutivo arriscar sobre os próximos passos do cineasta. Se ele vai seguir os caminhos de seu conterrâneo Jacques Demy, e optar por adentrar-se ao gênero é um mistério que esperemos ser resolvido em menos de 10 anos, o que não se deixa dúvida é que esta obra marca com mãos vanguardistas o gênero, que é muitas vezes taxado de ultrapassado. Ledo engano, o musical pelo olhar de Carax prova-se eterno como a obra de um dos mais revolucionários artistas do nosso cinema.

Comentários (1)

Antonio Montana | quinta-feira, 20 de Janeiro de 2022 - 12:05

Que crítica linda. Faz muito jus ao filme. Vida longa a Carax

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