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Críticas

Cineplayers

Entre destinos e escolhas.

9,0
Filmando desde 1995, quando estreou com A Luz da Ilusão, Hirokazu Koreeda fez seu nome com um cinema profundamente humanista e de uma estética meticulosa, consagrando-se como um dos novos mestres do cinema japonês. Cinco anos depois de ganhar o Prêmio do Júri de Cannes por Pais e Filhos (2013), Koreeda tem sua consagração máxima com Assunto de Família (2018), um de seus trabalhos recentes mais celebrados. 

A trama do novo filme gira ao redor da família Shibata, que vive de subempregos, da pensão da matriarca Hatse e de frequentes furtos de lojas e supermercados perpetrados por Osamu e seu filho Shota. Tudo muda quando, ao voltar de uma habitual ida ao supermercado, encontram a pequena Yuri, do lado de fora casa, com fome, frio e marcas de agressão no corpo. Após alimentar a menina, Osamu tenta devolvê-la segundo a orientação da família. Mas sua esposa Nobuyo acaba desistindo quando vê que o pai da menina é violento e abusivo.

A partir da incorporação da criança à rotina da família, Koreeda entra fundo com suas lentes no dia-a-dia daquelas pessoas. Necessariamente, o espaço apertado obriga a câmera a estar ali o tempo todo na casa. E se estende conceitualmente para quando saem nas ruas: o enquadramento é sempre claro e próximo e, quando vários personagens repartem a tela, o desenho é compreensível, o posicionamento tem uma arquitetura significativa para o desenrolar dramático de cada sequência.

Quando é dito que o cinema de Koreeda é humanista, é porque de fato a lógica impressa é primordialmente apaixonada, mas nem por isso deixa de ser objetiva. O diretor jamais é desonesto para com seu espectador; seus personagens cometem erros o tempo todo: furtam, enganam, mentem e fogem. Nenhum arquétipo é mais ambíguo, talvez, que Aki, que protagoniza shows eróticos privados sempre para o mesmo em uma casa voyeurista e acaba se atraindo pelo cliente e querendo conhecer seu rosto. 

De várias maneiras e significações diferentes, Koreeda consegue nos comunicar que o afeto transcende tudo: julgamentos de valor, relações de poder, ausência de um laço sanguíneo. Planos subjetivos silenciosos também funcionam como um grande trunfo da obra, como o momento que Shota observa Yuri ser integrada ao cotidiano da família organicamente observando a partir de sua cama e, na mesma linha, quando Hatsue a família na praia e apenas comenta que aquilo irá durar pouco. Mas naquele momento de afeto dentro do qual participamos, parece suficiente, suspenso no tempo.

A grande reviravolta que o filme guarda em seu final surge como ponto diametralmente oposto ao carinho e afeto de maior parte da obra. Todo humor e drama agridoce convergem para um momento mais sério e comovente da obra. Koreeda enquadra de maneira diferente aqui, isolando os personagens em quadro, explorando uma solidão de maneira literalmente frontal, onde, julgados, miram a tela em súplica, em momento de absoluta empatia entre o diretor e seus personagens.

Com toda a sua aproximação delicada, a cena inicial e a final não parecem contrapontos, mas desdobramentos naturais jamais desconectados. Antes que percebamos, já fomos arrebatados pelo cotidiano e suas perturbações. Por isso mesmo, Assunto de Família é uma obra-prima da sutileza e um testamento do cinema social, jamais panfletário e humanista por vocação. 

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