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Aurora

(Sunrise: A Song of Two Humans, 1927)
8,7
Média
282 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Uma mistura de gêneros que utiliza a estética do Expressionismo Alemão. Se sai melhor quando funciona como terror ou suspense.

7,0

Como um dos principais nomes do Expressionismo Alemão, Murnau foi convidado pelos estúdios da Fox nos Estados Unidos a realizar um filme desse estilo em Hollywood. O resultado acabou sendo Aurora, uma mistura curiosa – e boa – de drama, comédia, romance e suspense. Hoje, 80 anos depois de seu lançamento, o filme é reconhecido como um dos grandes de sua década. Embora não seja uma autêntica obra expressionista, ela possui muitos elementos que fizeram deste um dos movimentos mais interessantes da época muda do cinema, como cenários escuros, formas irregulares e expressões e maquiagem exageradas por parte dos atores.

A história, simples, possui uma linha de desenvolvimento bastante irregular. Enquanto somos presenteados com uma cena incrivelmente tensa no ato inicial, quando o marido tenta matar sua esposa, afogando-a, a pedido de sua amante (o suspense é simplesmente perfeito), minutos depois estaremos presenciando uma cena do mesmo marido correndo atrás de um porco em um parque de diversões, no melhor estilo de Chaplin. Dessa forma, vale destacar que o filme possui capítulos bem destacados, cada um representando um dos gêneros citados anteriormente. Mas nenhum deles acabaria sendo melhor que o primeiro ato.

Aurora adquire traços totalmente inocentes quando o casal chega à cidade. Cenas singelas criam um contraste vibrante com as cenas de terror presenciadas até então. O casal se reencontrando, se apaixonando novamente, com diversões banais como uma foto romântica e um passeio no parque de diversões são exemplos dessas cenas. Murnau criou uma boa diferenciação com o conflito campo versus cidade, e os dois lugares são tratados como mundos totalmente opostos. A cidade é tratada como uma vilã (a amante do marido mora lá), enquanto o campo é um lugar apaziguador, com pessoas colaborativas. A diversão que o casal encontra na cidade parece sempre artificial, conquistada somente com o dinheiro, basta reparar na quantidade de cenas que mostram o marido pagando pelo entretenimento às outras pessoas.
 
Os cenários são densos, escuros, aterradores, como o Expressionismo declarava que deviam ser. Em todo o filme há sombras, e mesmo o parque de diversões possui aspecto que lembra um lugar aterrador, ainda que de forma quase subliminar. Ao mesmo tempo em que temos essa parte do filme situada para a comédia e para o romance, o clima nunca é leve, o que traz uma sensação de estranhamento única, porém previsível para um filme do estilo e do diretor Murnau. Não é algo necessariamente bom, as cenas cômicas parecem ter sido feitas sob encomenda pela Fox para o diretor, somente para agradar ao público. Elas não se encaixam na estética de forma alguma, e alguns trechos como um porco ficando bêbado são absolutamente gratuitos.

Aurora foi o primeiro filme da Fox que teve uma trilha sonora previamente gravada. Além disso, há outros aspectos técnicos interessantes a serem destacados. Apesar de ser lançado no ano de surgimento do cinema falado – 1927 – o filme ainda é da era muda, mas contém caracteres de falas bem dinâmicos, tratados com efeitos especiais, como a palavra “afogada”, que aparece escorrendo na tela. Algumas superposições de imagens, principalmente na introdução do filme, são bastante interessantes e inteligentes para a época, trazendo um ritmo veloz e divertido aos primeiros minutos do longa-metragem.

Embora não seja este o filme correto para conhecer a filmografia do diretor Murnau, e muito menos para conhecer melhor o movimento do Expressionismo Alemão, Aurora é uma mistura de gêneros interessante e no mínimo diferente. Nesse caso, o conteúdo não encaixou perfeitamente com a estética, mas pelo menos isso resultou em um trabalho intrigante que vale a pena ser conferido por quem gosta de cinema. A primeira parte do filme é simplesmente sensacional, com uma seqüência tensa e assustadora. Daí para frente, cabe a você julgar se gosta da combinação que o diretor alemão criou a pedido de um estúdio norte-americano.

Comentários (1)

Paulo Junior Soares dos Santos | quinta-feira, 16 de Junho de 2016 - 00:23

Aconselho leitura desta profunda análise do professor Olavo de Carvalho sobre o filme Aurora: http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/aurora.htm

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