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Aventureiros do Bairro Proibido, Os

(Big Trouble in Little China, 1986)
7,4
Média
360 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Proibidos marginais no bairro da galhofagem

8,0

John Carpenter parte aqui pra completa farofada com fitas de ação e aventura. Alopra por sobre os vícios do mesmo pela sua ótica do cinema fantástico. Sem deixar de respirar puramente os anos 80. A trama visa tratar da eterna luta do bem contra o mal, com o salvacionismo do mundo na pista, com heróis burlescos e vilões absurdamente caricatos propositalmente. Uma delícia.

Kurt Russel como o canastrão piadista que vende brios avulsamente, e ignorância estratosférica no quilo – tem ele bancando o infiltrado otário de óculos num momento, e noutros tantos uma miscelânea de frases feitas maravilhosas. A figura maluca certa pra fita numa década esquizofrênica. Exala um misto genuíno de carisma e canastrice. A defesa do malandro metido a valentão, e o sarro de si mesmo no processo. Tudo dentro do escopo do exagero e do nonsense. Obra que se mantém escapando sempre pela diversão proposta e por seus personagens carismáticos. Farrista em seu nascedouro.

Se existe um trabalho a ser definido com uma gama de adjetivos vultuosos acerca de sua existência é este material. O retrato duma década que tudo permitia em termos de possibilidades excessivas – conquanto se enxergue algumas travas econômicas de mercado por parte dos estúdios, como ocorrera nesse. Olha o gancho gaiato meu. Houveram cortes orçamentários pesados aqui, além dum adiantar do lançamento (isso avacalhou a finalização), além do que o Carpenter indagou a respeito da 20th Century Fox ter escolhido dar mais atenção em sua distribuição para Aliens – O Resgate (Aliens, 1986), do James Cameron. Há a versão de que o Carpenter estava passando do ponto nos custos e a Fox não estava afim de arriscar, visto que seus últimos filmes teriam dado prejuízo de bilheteria. Todo este pandemônio por sobre este projeto tanto atrapalhou o término e distribuição do mesmo, como azedou o Carpenter, que a partir dali partiria para produções independentes com menores cifras.

Nisso apercebe-se que a montagem corrobora numa coleção de set pieces de ação e farra, utilizando-se da criação do universo pra existir e se vender como tal. O universo em si interessaria mais do que a construção já problemática da fita devido às vicissitudes de produção encontradas. Por vezes tem-se a impressão dum pré-simulacro em jogo de videogame perpassando fases e desafios. Um caráter episódico a funcionar pelo carisma de seus personagens (e intérpretes) e por uma narrativa que se leva na putaria. O clima absurdo, a música alta e grudenta, a magia colorida e brega, e o todo altamente esquisito – desajambrado numa primeira impressão – dão ao filme um tom de canalhice irresistível.

Existia um direcionamento de se criar um universo místico entre culturas. Por isso o cuidado cenográfico cria um clima instigante e mantém o interesse. O misticismo oriental antigo a assustar o ceticismo do ocidente novato. A representar a idiotia ocidental está lá o Jack Burton (Russel), que embarca na desordem para ajudar um amigo e, a posteriori, recuperar seu caminhão roubado sem ter a menor noção de onde está se enfiando, e nem quais forças ocultas teria de enfrentar. O maniqueísmo clássico embalsamado dum misticismo colorido terceirizado pela mente do chefe que ansiava fazer um filme de porradaria.

O Carpenter possuía um senso descritivo de realidades que visava imprimir dentro do escopo cultural onde ele mergulha a obra numa iconoclastia de sarro que custou a ser aceita tanto por público quanto por crítica e menos ainda pela indústria. Outros autores foram relegados a um esquecimento quando abusaram desta fórmula, entre eles outra figura do horror como Tobe Hooper, que tal com Força Sinistra (Lifeforce, 1985) como no Massacre da Serra Elétrica 2 (The Texas Chainsaw Massacre 2, 1986), flertara (no primeiro) e escancarara (no segundo) com esta força motriz de fina fuleiragem autoparódica, o que lhe serviria subsequentemente para um ostracismo também experimentado por Carpenter, com este último em menor escala.

Não que este revés tenha parado Carpenter. Aventureiros do Bairro Proibido fora apenas um de seus materiais a servir de microcosmo do seu pensamento a respeito não só do cinema e da cultura, mas da política, moral, e costumes por ele objetivados na sociedade estadunidense. Este trato com estas temáticas acabou por torna-lo um autor mais apartado do mainstream ao fim dos anos 80, algo que se sucedeu nos anos 90 e 2000, porém mantendo a qualidade dos trabalhos. Este em questão tem a importância dum real movimento de ruptura do comandante, que saíra do horror intencionado como construção do medo e do nojo, para uma versão avacalhada do produzido até então. Aventureiros seria a epítome da quebra paradigmática de seu autor. Tanto pela questão citada da galhofagem, como pelo seu rasgamento com grandes estúdios. Os problemas envoltos na obra estão na tela, assim como a posição do diretor dali em diante.

Aqui entra a fenomenologia do cinema Carpenter em crescer com os anos. O cinema, em parte, é feito de operacionalizações momentâneas que lidam com o avanço das narrativas e tecnologias, porém as releituras são amplamente tensionadas, principalmente quando determinado modismo é qualificado na indústria. Isto somado ao crescimento duma base de fãs que caçaram o trabalho do mestre em videolocadoras, assíduos por leituras escrotas de sua realidade. Nisso o material dele manteve-se vivo e pulsante. No mofo do VHS e na revisitação eterna. O esquema do crescimento do vídeo trouxe oportunização a autores que não tinham condições financeiras de gravarem seus filmes.  Onde tínhamos o DIRECT TO VIDEO (que já pressupunha filmes menores exibidos nas tvs e feitos com menos grana) e os mais bagaceiros SOV - SHOT ON VIDEO (filmados diretamente com câmera de vídeo pebas pelas raias mais lascadas e criativas do marginalismo cinematográfico), que perpassaram os oitenta como um tornado underground nas mentes sujas que se deliciavam com aquelas fitas delinquentes. Carpenter foi um grande monstro no qual seus filmes corroboraram com o sedimentar destas fitas ocultas.

A importância dum autor mede-se pela consistência de sua produção e pela sua afinidade de influências, e as do cara sedimentaram a existência dos mais variados tipos de psicopatas a decidirem entrar no meio compondo suas ideias e realizando-as com o prazer de vê-las minimamente divulgadas. A oportunidade da existência. Nisso a obra aqui destroçada fora elemento de culto duma turma que ansiava ser vista, e o posicionamento independente do diretor dali em diante deixara claro que existiam vários caminhos a serem seguidos para o horror. O Carpenter não almejou inventar isso, nem eu estou colocando-o de tal forma, mas ele servira de coluna para aqueles que do horror independente queriam viver e, principalmente, meter um chute na bunda do mainstream. Ele não inventou isto, mas que meteu seu nome nessa porra toda, ah com toda certeza.

Texto integrante do Especial John Carpenter

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