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Banquete Coutinho

(Banquete Coutinho, 2019)
6,2
Média
3 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Um gênio chamado Eduardo

5,0

Não precisa de mais que 10 minutos para que percebamos a admiração do diretor Josafá Veloso para com seu homenageado, um dos mais cineastas da nossa História, Eduardo Coutinho. Dono de uma filmografia invejável, o monumental documentarista foi filmado pelo diretor antes de morrer e concedeu uma entrevista/desabafo típico dele. Ainda que o carinho, o respeito e até a idolatria sejam material humano do qual não precisamos disfarçar, um cineasta corre o risco de parecer desnecessariamente raso ao escolher mostrar seu embevecimento explícito, e assim perder qualquer nuance ao seu próprio trabalho. Sendo um trabalho de estreia, essas características deveriam ser amortizadas"; infelizmente isso não acontece aqui, um produto refém do seu homenageado. Ao menos se trata de alguém como Coutinho, que não perde nenhuma oportunidade para extrapolar sua humanidade e sua simplicidade, que nele soa como qualidade em dobro. 

Há uma tentativa de Veloso em propor na entrevista uma dinâmica de autoanálise ao diretor, colocando em questão seus clássicos, sua vivência como realizador, seu envolvimento em cada projeto como profissional e como indivíduo, e desdobrar a personalidade marcante de Coutinho cena a cena na frente das câmeras, em despojadas colocações. Sua escolha é o grande acerto da produção, que lê todas as facetas do diretor, que vai da rabugice e impaciência a um desprendimento em relação a própria vida, a própria obra e a seu futuro, de maneira genuína. A forma como consegue instigar Coutinho a passear por aspectos recônditos de sua vida pessoal, a observar a unidade de sua obra e radiografar a postura do diretor com o material humano filmado denotam um potencial de concepção de ideias que possa ser explorado no futuro e o inicialmente músico pode ainda crescer nessa nova etapa profissional. No entanto o produto apresentado se salva graças ao talento de Coutinho, na frente e atrás das câmeras.

Veloso se prende a esse carisma e a essa eloquência pra cristalizar resultados que não são conseguidos exatamente graças às suas decisões. Banquete Coutinho não consegue ter a iluminação e a esperteza de nenhum dos filmes pensados pelo homangeado, e a produção se vê bancando soluções narrativas e montagem que corroborem a visão exclusiva do seu diretor. O filme trabalha com uma voz em off do realizador, que explana não apenas questões amplamente debatidas do cinema de Coutinho, como não abre a discussão para agregar o espectador. Tais questões são apresentadas como um achismo, para rapidamente ser solucionada pelo mesmo, cortando qualquer possibilidade de interagir com o espectador, além de apresentar uma capacidade auto indulgente que arranha a doçura que seu longa tenta construir.

A utilização da obra do diretor poderia complementar suas ideias, mas se as mesmas parecem deslumbradas consigo mesmas, esse material de arquivo só presta para o endeusamento do próprio Coutinho, que compreendia a própria filmografia e a construção dela. Ao criar paralelismos óbvios e já exibidos continuamente ao longo dos anos sem apresentar nenhuma ideia fresca, Veloso parece celebrar seu homenageado sem agregar nada a seu próprio trabalho, que não sua admiração. O diretor de Cabra Marcado para Morrer e Jogo de Cena decupa passagens de suas obras (inclusive essas duas), ao mesmo tempo que desfia comentários sobre sua vida, nem sempre felizes, quase sempre melancólicos, mas que faziam parte do homem que ele era. A câmera de Veloso focada exclusivamente no rosto de Coutinho é um exemplo do que precisa fazer para encontrar a relevância que falta a seu projeto, uma mola propulsora de homenagem sem particularidade.

Ao não conseguir criar personalidade a seu filme e dedicar-se a admirar a personalidade alheia, Veloso joga suas fichas no colo de Coutinho, que retribui dando humanidade a seu filme. Quanto a méritos próprios como realizador para além de argumentista, Josafá Veloso terá de começar a retrabalhar, em outra ocasião. 

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