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Beckett

(Beckett, 2021)
6,0
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Críticas

Cineplayers

Estado de Bolha

6,0

A Netflix causou alvoroço nas redes sociais quando anunciou no ano passado que estrearia no seu catálogo, um thriller protagonizado por John David Washington numa produção colaborativa entre o brasileiro Rodrigo Teixeira e o italiano Luca Guadagnino – efusivamente abraçados por crítica e público graças a Me chame pelo seu Nome (Call me by your name, 2017).

Beckett (2021) finalmente é lançado na plataforma, e leva o espectador aos braços de dois jovens americanos, numa viagem romântica pela Grécia. A direção de Ferdinando Cito Filomarino consegue construir uma bela química entre o protagonista e sua namorada, April (vivida por Alicia Vikander). Com diálogos naturais e planos bem próximos dos dois personagens, proporcionam com perfeição a sensação de bolha. Tudo que está ao redor dos dois amantes parece não ser importante e algumas vezes até zombado pela boa energia e sintonia dos dois.

O estouro se dá, da pior forma possível, Beckett dorme no volante numa localização desconhecida, perde o controle do carro, e protagoniza um acidente terrível, que termina com o veículo destruindo uma casa abandonada. Ao acordar, o jovem está num pequeno hospital e não há pessoas que falam inglês, nem qualquer rastro de sua companheira. A culpa começa a dominar o seu ser. É preciso lidar com a morte de April, com as famílias e com todos os desentendimentos que o cercam.

Tudo que parecia próximo e controlado pelo protagonista, transforma-se em estranhamento total. Os planos passam a ser mais distantes, os diálogos ríspidos e difíceis. A sensação de relaxamento do espectador desmorona-se. A narratividade construída com precisão por Filarmino, que priorizava o intimismo nas ações do casal, descontrói-se completamente. Aquilo que se apresentava como um romance intelectual, salta a um thriller de perseguição clássico americano tão intenso, que chega a flertar com o filme puramente de caçada à la Jerzy Skolimowski.

A mistura de gêneros, que é sempre benvinda em qualquer texto, a tensão bem-criada no espectador, uma premissa interessante e atores em excelente forma, infelizmente, aqui não se encontram. Beckett, que te remetia ao intelectual irlandês de mesmo nome, passa a vestir-se de Truck Turner nas ilhas gregas, mete-se em conspirações infindáveis, saídas sempre intensas, mas cobertas de clichês fracassados.

Fica evidente que a produção propunha chamar a atenção aos acontecimentos políticos na Europa, nesse caso específico, na Grécia. Diante de um mundo que vive cego as suas próprias aspirações, dominado por um senso comum de ignorância, é sim importante pensar politicamente. Inevitável não imaginar que houve um olhar ao cinema de Costa-Gravas, mas que não reflete, nem em sombra no que vemos por aqui. Essa sede de querer contar muitas coisas, revela uma mão leve na hora de fazer escolhas, e isso é fundamental para um grande realizador.

O filme que passeia por um forte referencial cinéfilo, uma produção de altíssimo nível e coberto de elementos políticos e culturais interessantes, mostra-se, finalmente, vazio. Tudo o que o tinha para leva-lo a um grande filme perde-se na escapada interminável, e não muito bem explicada, de um protagonista insistente, determinado, e, acima de tudo, invencível.

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