Saltar para o conteúdo

Bela Vingança

(Promising Young Woman, 2020)
7,2
Média
101 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Uma nova ótica de uma velha história

9,0

Em Bela Vingança (2020), uma jovem, traumatizada por um trágico acontecimento passado, busca vingança contra aqueles que cruzam seu caminho. A sinopse e a versão do título em português dizem pouco sobre as diversas sensações, por vezes paradoxais, que se atravessam nesta singular mescla de comédia dramática com terror e suspense. Indicado a cinco Oscar em 2021, incluindo Melhor Filme e Direção, este é um longa-metragem forte e necessário, capaz de levar a uma reflexão crítica refinada acerca da misoginia socialmente ainda bastante naturalizada e enraizada.

Indo muito além de uma representação na superfície do machismo estrutural, a diretora e roteirista Emerald Fennell nos convida, com muita firmeza, a uma viagem envolvente pela trajetória da protagonista interpretada por Carey Muligan. Durante o percurso, experienciamos desde a calmaria estranha e momentos que passam uma falsa sensação de conforto e segurança até uma pretensa esperança, passando pela raiva em suas diversas manifestações, as quais vão da energia extrema à impotência frustrante. Em uma narrativa que é muito mais sobre resistência do que empoderamento, a cineasta revela os intensos desafios de ser mulher em uma sociedade como a que vivemos.

Por mais privilegiados socialmente que sejam os padrões em que algumas das figuras femininas caras à trama possam estar inseridas, como o de uma jovem loira estudante de medicina, elas não estão livres do apagamento simbólico que traz consequências concretas e violentas. Nesse sentido, o título original (Promising Young Women, ou “Jovens Promissoras”, em tradução livre), revela-se muito mais coerente com o cerne da obra ao evocar sutilmente esse silenciamento.

Emerald Fennell, até então mais conhecida por seus papéis como atriz em dramas de época (caso da série de TV The Crown) e por ser showrunner de Killing Eve, é o grande trunfo do longa-metragem. A diretora e roteirista extrai tensão e humor de situações aparentemente pouco verossímeis, que soam um tanto quanto pesadas ou absurdas em um primeiro momento, mas tocam por possuírem ligação forte com a realidade cotidiana. Ao mesmo tempo em que a acidez dos diálogos revela nas entrelinhas a misoginia difundida, às vezes por meio da cumplicidade e do medo de exposição partilhados pelos homens, a cineasta não precisa apelar para a violência gráfica para impressionar o espectador, porque a construção narrativa é, por si só, impactante.

O elenco também é presença marcante. Carey Mulligan, sempre uma atriz interessante, vive aqui um de seus melhores trabalhos, conferindo nuances e paradoxos à construção de uma personagem tridimensional, indo da força à impotência e passeando de uma aparente indiferença a um turbilhão de emoções. E se atrizes como Laverne Cox e Alison Brie brilham sempre que estão em cena, o elenco masculino tem como destaque Bo Burnham como o interesse romântico da protagonista, uma figura que trabalha com a ideia de estabilidade e do “porto seguro” masculino na relação. A escalação de Jennifer Coolidge, eficiente como a mãe conservadora após tantos papéis em comédias besteirol à la A Nova Cinderela e American Pie, é uma curiosidade interessante..

Enquanto a trilha sonora oscila entre músicas tristes e alegres, mas sempre emblemáticas e muito bem afinadas às reflexões e sensações que a obra evoca, a montagem de Fréderic Thoraval é brilhante ao manter envolventes as chamas da curiosidade e da surpresa, sem cair nas armadilhas que poderiam tornar a narrativa confusa.

Destaca-se o uso do vermelho e de tonalidades do rosa que remetem ao imaginário popular acerca do feminino, mas de maneira arrepiante e que chama a atenção para o quão ultrapassados são esses e outros estereótipos visuais. Toca, inclusive, porque o vermelho também é capaz de transmitir perigo, ao passo que os cenários conferem um tom conservador e aparentemente pacífico em meio a acontecimentos fortes. Toda essa simbologia visual faz pensar sobre a ameaça que mulheres podem representar em um sistema patriarcal.

Portanto, é importante destacar a indicação de Emerald Fennell ao Oscar de melhor direção ao lado de Chloe Zhao (Nomadland), marcando a primeira vez em que mais de uma mulher está na disputa de um dos prêmios mais importantes da academia. Essa categoria teve ao todo apenas sete nomeações para pessoas do gênero feminino em 93 anos de cerimônia. Ao contrário do que se possa imaginar, o enredo de Bela Vingança não é uma história pertinente apenas aos tempos atuais, mas só agora começa a ter chance de ser contada e, mais ainda, só agora tem a possibilidade de ser narrada pela ótica que sublinha o feminino.

*Sophia Silva de Mendonça é jornalista, escritora, apresentadora, cineasta e mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG). Foi diagnosticada autista aos 11 anos, em 2008. Mantém o site “O Mundo Autista” no Portal UAI. É autora de sete livros e diretora do documentário "AutWork - Autistas no Mercado de Trabalho". Em 2016, recebeu o Grande Colar do Mérito Legislativo de Belo Horizonte, a maior honraria do legislativo municipal, tornando-se a pessoa mais jovem a receber essa homenagem.

Comentários (1)

Faça login para comentar.