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Críticas

Cineplayers

Desconstrução e exaltação.

6,5
Ingmar era um homem com desordem alimentar, terríveis dores estomacais e pernas inquietas. Era egocêntrico, esquecido, ciumento e infiel. Bergman, por sua vez, era um dos mais produtivos e premiados diretores do cinema, teatro e televisão, o diretor dos sonhos de todo ator, autor de algumas das obras mais revolucionárias da sétima arte. E, o que a diretora Jane Magnusson gostaria de lembrar, eram a mesma pessoa.

Esse é o ponto de partida do documentário Bergman - 100 Anos, celebração, como o nome já diz, do centenário de nascimento de uma figura tão ilustre. “Um ano na vida”, no título original, o filme tem como ponto de partida o ano de 1957, quando Ingmar Bergman se envolveu em nada menos que seis produções para cinema, teatro e televisão. Duas dessas obras foram O Sétimo Selo e Morangos Silvestres. Com o filme sobre uma Europa devastada pela Idade Média ganhando o prêmio especial do júri de Cannes e o road movie do professor idoso vencendo o Urso de Prata do Festival de Berlim, Bergman estava por assim dizer no topo do mundo - ao mesmo tempo em que dirigia uma peça de cinco horas e era internado em um hospital para tratar da úlcera devastadora. E, no meio tempo, sentava-se em seu quarto isolado para escrever alguns dos filmes mais desafiadores do cinema. 

Não é o primeiro filme de Magnusson sobre Bergman - a minissérie documental Bergman’s Video e Trespassing Bergman já traziam vários diretores comentando sua obra e visitando os locais onde morou em vida, como a Ilha de Färo. Bergman - 100 Anos, por sua vez, carrega em sua divulgação a epítome de ser “o filme definitivo sobre vida e obra de Ingmar Bergman”. Coisa que alcança, ao menos em parte. 

A diretora trabalha inteligentemente ao contrapor, ao mesmo tempo em que acompanha a ascensão de Bergman ao panteão dos mitos do cinema, o quanto sua vida pessoal era perturbada por doenças e condições que o atormentavam, ao mesmo tempo que também tinha de lidar com as crises conjugais. O ponto base serve para que os depoimentos, imagens de arquivo e narração façam idas e vindas no tempo, mostrando de onde Bergman veio, o que relatou sobre sua infância e juventude, no que foi desmentido por biógrafos e parentes e depois o que conquistou, o que realizou, quem influenciou e o que teve de encarar. 

O filme tem bons argumentos para reforçar a impressão geral que Bergman não era uma pessoa fácil de lidar, vaidosa com o seu trabalho e sua visão autoral, sujeito a ataques de fúria avassaladora e rompantes de gritaria. Ao mesmo tempo aponta, paradoxalmente, como encenava um filme para seus atores e diretores de fotografia de forma quase sensorial, gesticulando, indicando a movimentação dos atores com leves toques no ombro e no rosto, fazendo pantomimas e disparando comentários sardônicos. Pode ser tanto um homem angustiado e sombrio com momentos de leveza ou um homem ordinário e tradicional com um lado feio que por vezes vem à tona. Talvez seja os dois, e esse é o ponto forte do documentário.

Por outro lado, o documentário em si não tem exatamente defeitos; tem carências, além de escolhas esquisitas. Fica difícil compreender depoimentos como de Barbra Streisand ou dos diretores que admiravam o sueco, como Lars Von Trier e John Landis - só estão lá para fazer comentários elogiosos mesmo quando criticam seu comportamento pessoal. Muitos que participaram ativamente da carreira de Bergman tem espaço mínimo - como Liv Ullman, com aparições pingadas - ou só aparecem por meio de imagens, sem prestar depoimentos - como Max Von Sydow e Bibi Andersson, ambos ainda vivos e dois dos maiores colaboradores de Bergman.

Ainda que tenha coisas interessantes, como o flerte de Bergman com o nazismo, seu primeiro namoro terminado de forma intensa com a atriz e espiã Karin Lannby, ou a entrevista inédita proibida de ser veiculada na década de 70 com seu irmão Dag Bergman, o filme acaba deixando de lado o ano de 1957 ao longo de seu desenvolvimento e focando mais em um porto seguro dos clichês biográficos da carreira do artista - seu relacionamento com Liv Ullman, seu auto-exílio após ser denunciado por fraude fiscal, a vida reclusa na ilha de Färo, a premiação com a “Palma das Palmas” em Cannes, único a receber até hoje. Começa como uma interessante problematização, termina como uma exaltação bem pensada, bem editada, porém comum. 

De qualquer forma, o material apresentado em Bergman - 100 Anos é um prato cheio para os fãs de um artistas que mais se libertou de amarras e produziu um cinema radicalmente pessoal e quase artesanal, conhecendo grandes públicos, aclamação crítica e reconhecimento da vanguarda artística e nos deixou em 2007 como um dos nomes mais revolucionários e influentes do século 20. E, além de prato cheio, alguns passos a mais (tímidos, é verdade) dentro da intimidade do Ernst Ingmar por trás do grandioso Bergman.

Comentários (1)

Josiel Oliveira | segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 - 23:32 | Responder

Essa parte do nazismo foi foda!
Mas considerando a pessoa que ele parecia ser não é tão surpreendente.

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