Saltar para o conteúdo

Críticas

Cineplayers

Uma cinebiografia burocrática. Mais uma.

5,0
Surgida na década de 70, a banda Queen foi um dos maiores fenômenos musicais do século XX. Em pouco mais de duas décadas, a fusão de gêneros resultou em uma carreira cheia de clássicos cravados, como “We Will Rock You” e “We Are The Champions”. A figura mais conhecida da banda era o vocalista Freddie Mercury, um dos homens de frente mais carismáticos do Rock e com uma vida tão intensa quanto suas performances.

Um filme sobre o Queen não é uma ideia nova. Em 2010, Brian May havia anunciado o projeto com Sacha Baron Cohen como Mercury. Divergências acabaram por adiar o projeto por anos, até que no início 2017 Bryan Singer (Os Suspeitos) foi anunciado como diretor e o ator Rami Malek (Mr.Robot) escolhido para viver o protagonista. Após uma filmagem conturbada, que fez Singer sair após ter filmado dois terços do filme e ser substituído por Dexter Fletcher (Voando Alto), que entrou como diretor não-creditado. E após muitas idas e vindas, o resultado é Bohemian Rhapsody, que estreia dia 1 de novembro no Brasil. 

Já nos dez primeiros minutos, a obra não engana ninguém: é uma formulaica demonstração de saudosismo puro e simples, junto com a previsível história de superação das cinebiografias musicais. Bohemian Rhapsody é uma cópia carbono que saiu da mesma matriz de filmes como Ray, Johnny e June ou Get On Up - A História de James Brown. 

A escalada de Farrokh Bulsara, filho de indianos parsis criado na Inglaterra começa no mesmo esquema do projeto de estrela trabalhando em um emprego ingrato, encontrando o caminho para a fama, tornando-se uma lenda e enfrentando dificuldades pelo caminho. Como o vício em heroína em Ray, as complicações com a polícia em Johnny e June, o ponto baixo da carreira de Mercury é Paul Prenter, assistente, empresário e amante que alimentou seu ego com drogas, festas e orgias, o distanciou do resto da banda e influenciou consideravelmente alguns discos do Queen ao tentar modernizá-los para sonoridades do momento.

É claro que Mercury passará por isso - como é comum nesse tipo de história, o início é contado através da técnica narrativa in media res, partindo de um ponto avançado da história (no caso, o show histórico do Live Aid) para então voltar no tempo e entender como o personagem chegou até lá. Durante isso, o filme é picotado e episódico, de maneira que da intimidade de Freddie ou do processo criativo do Queen temos apenas vislumbres.

Os trailers do filme já haviam suscitado polêmica por, segundo críticos, “invisibilizar” a homossexualidade de Freddie e priorizar seu relacionamento com Mary Austin, a única mulher da sua vida e musa inspiradora de “Love of My Life”. Vendo o filme, essa questão está presente mas também não é explorada a fundo. Em um primeiro momento, levamos a crer que Freddie é heterossexual, com sua preferência por homens surgindo após o relacionamento com Austin, enquanto o mesmo admitiu que suas primeiras experiências com o mesmo sexo foi com 14 anos de idade. De resto, alguns beijos e cenas rápidas de visitas a bares gays, longe do período “homérico” que foi a primeira década de fama do Queen.

Musicalmente, vemos inicialmente até a intenção de roteiro e de Singer de mostrar por que o Queen era tão inovador - lançando músicas de seis minutos, usando sintetizadores, incluindo elementos operísticos - e sua batalha por lançar as suas músicas, mas depois tudo volta a ser quase que exclusivamente episódico, com as músicas surgindo ao passo de uma elipse. 

Singer e Malek até tentam, mas o filme não faz muito para ir além da superfície. Filmes como Os Suspeitos e X-Men mostram o quanto Singer, de dentro da indústria, consegue compor filmes com conceitos e imagens poderosas, mas aqui dá para sentir o quanto estava virtualmente tolhidos. Em alguns closes, movimentos de câmera e transições dá até um sinal do que pode fazer, mas tudo é rigorosamente morno, a mesma composição de cena básica, praticamente sem ousadia estética. Malek, como faz um filme mais sobre uma estrela dando a volta por cima que alguém que venceu a xenofobia e a homofobia para se tornar uma das lendas do século passado. Ou seja, com a maquiagem, o sotaque, os tiques e trejeitos, está à beira da caricatura. 

Do resto do elenco nem tem o que comentar - apesar de bem caracterizados, Brian May, Roger Taylor, John Deacon, Mary Austin e outras figuras são unidimensionais demais. São escadas para um drama de superação e mal personagens por si mesmos. Tendo assinado os roteiros das biografias A Teoria de Tudo e O Destino de Uma Nação, o roteirista Anthony McCarten mostra um exímio piloto automático, com gente radicalmente diferente vivendo vidas rigorosamente parecidas em todos esses filmes. Ou, com uma leitura mais ácida, sendo apenas uma cama para prêmios de atuação; quando Mercury descobre que contraiu o vírus da AIDS, Malek se esforça para mostrar a preocupação e a angústia, mas é tudo tão rápido e ele logo volta à crista da onda. 

Bohemian Rhapsody, o filme, é o contrário do que era Bohemian Rhapsody, a música. O single da banda dos rapazes desajustados e excêntricos era uma música pop que ninguém tinha visto até então, partindo de uma balada de piano intensa que desembocava em um esquisitíssimo segmento de ópera e explodia em rock pesado, que até hoje é cantada em toda sua duração por integrais seis minutos. Já o filme é uma marca da burocracia popular, de evitar os riscos a qualquer custo, e que serve mais para descobrir algumas curiosidades e cantar os clássicos juntos. Se bem que, frente à isso, é muito mais preferível ouvir os discos e testemunhar a revolução nota por nota. Porque com o filme, só temos um grande mais do mesmo, e o pior: uma celebração que falha em demonstrar o gigantismo do celebrado.

Comentários (2)

Faça login para comentar.