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Críticas

Cineplayers

Alegoria e destruição.

7,0
Um dos ciclos mais admirados por uma parte dentre os cinéfilos foi o de ficção cientifica da década de cinquenta em Hollywood, de evidente inspiração mccarthista. Os filmes como parábolas da sociedade norte-americana contaminada ou sofrendo uma espécie de invasão alienígena, o que simbolizaria os ideais comunistas infiltrados no ocidente. Como todo bom cinema, entretanto, esses exemplares apresentam uma encarnação de um mal sem nome, que em verdade simbolizaria qualquer espécie de totalitarismo, independentemente de ideologias ou bandeiras, mais ou menos igual à de certos romances distópicos, como alguns dos mais famosos de George Orwell e Aldous Huxley (guardadas as devidas proporções, e os romances numa outra chave que não a do horror assumido). 

E um tanto próximas de algumas melhores obras de ficção cientifica dos anos oitenta, um outro período marcado pelo conservadorismo ferrenho e lutas sociais e políticas na América (algo que parece retornar de trinta em trinta anos, considerando também a inclusão da nossa presente década). Filmes como Amanhecer Violento (Red Dawl, 1984), de John Millius, e Eles Vivem (They Lives, 1988), de John Carpenter, nos quais pode-se relativizar que os vilões tenham uma aparência mais definida. Especialmente no primeiro, com os invasores soviéticos e cubanos, ao se imaginar uma hipotética III Guerra Mundial, em sua hábil mistura de gêneros, dentre os quais o filme de guerra, e aproximando-se por vezes de um tom de paródia, sobretudo nos soldados inimigos apresentados como caricaturas. Um quê de western com homens a cavalo e armas na mão dispostos a morrer para defender seu território e sua paz, e também momentos que lembram sfi-fi posteriores e bem sarcásticas: um Marte Ataca! (Mars Attacks!, 1996) e notadamente Tropas Estelares (Starship Troopers, 1997) – ainda que Amanhecer Violento seja num tom bem mais sério que o filme de Burton e ideologicamente mais claro e assumido que o de Verhoeven. E uma inversão intrigante na troca dos papéis aos quais fomos habituados a acreditar (notadamente a de os americanos como invasores de terras estrangeiras). Já em Eles Vivem, o monstro a ser combatido é a própria sociedade capitalista desenfreada e yuppie da época, ainda que há poucos anos Carpenter tenha precisado desmentir interpretações equivocadas de extremistas de uma parte da direita norte-americana sobre quem seriam os vilões de filme. Em um e outro filme, o que os agentes da resistência combatem é alguma forma de totalitarismo que pretende se impor ou que já domina o mundo há muito tempo. Alguns anos depois, Carpenter realizaria em A Cidade dos Amaldiçoados (Village of the Damned, 1995) um remake mais perto da releitura de outro clássico de invasão alienígena do período 50/60, A Aldeia dos Amaldiçoados (Village of the Damned, 1995). 

Um dos filmes de metáfora mais escancarada em torno da paranoia anticomunista é A Bolha, lançado em 1958, e disponível até mesmo em Blu-Ray pela Criterion Colection (existe uma refilmagem dos anos oitenta). Não dos principais, e certamente não o melhor do ciclo a que pertence, posto ocupado por Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956), de Don Siegel, em que os habitantes de uma cidadezinha são substituídos por cópias perfeitas de si mesmo e desprovidas de sentimento, geradas a partir de enormes vagens de ervilha. Uma alegoria que parece óbvia demais e que funciona maravilhosamente bem na tela. O simbolismo também é muito eficiente em A Bolha, igualmente numa cidadezinha, com lastros rurais, e um casal de protagonistas formado por uma mocinha e um jovem cowboy em trajes contemporâneos (Steve McQueen, em seu primeiro papel de destaque, dois anos antes de ser um dos Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960). 

Aqui, a invasão alienígena é corporificada no que sugeriria ser uma estrela cadente, mas em verdade um meteorito que traz consigo uma gosma vermelha que vai se expandindo e fazendo vítimas pelo caminho querendo tomar conta de tudo e todos. Fosse no Brasil de 2018 poderia ser uma gosma em verde e amarelo, ainda que a bolha vermelha possa muito bem representar um movimento esquerdista bastante alucinado. Aliás, é curioso que nesses vinte anos de crítica brasileira na internet a reabilitação de um cineasta antes menosprezado como Carpenter tenha servido para posteriormente justificar todo um aparato de horror que seria transposto numa inversão do melhor do gênero em que a política vem depois da alegoria, do terror, da ação, ao contrário dos filmes nacionais um tanto panfletários que recorrem a esse preceito. 

O filme de Irvin Yeaworth (também autor do argumento) funciona como uma abstração e algo igualmente concreto, com a bolha resistindo a tiros e fogos, e a qual se poderia dizer que quanto mais se bate, mais ela cresce. Um elo entre algum episódio de séries de TV como a antiga Além da Imaginação com um romance típico de Stephen King ambientado em pequena comunidade, ainda que o filme careça de pinceladas mais acentuadas nos personagens. Alguns deles são representantes comuns dos filmes de delinquência juvenil da época, mas que hoje parecem jovens ingênuos em excesso (como costuma ocorrer quando se enxerga a adolescência no passado). Ou então simples representantes da lei, e ainda, o doutor responsável por investigar a estranha substância, e que será um dos primeiros a morrer. 

Com seus enxutos 83 minutos, A Bolha é uma obra que não pede para ser superestimada e acontece como uma preparação para o seu longo clímax em que a comunidade precisa juntar forças para conter o invasor que avança a sua frente, incluindo a sala do projetor de um cinema que exibe um velho filme de terror com Karloff e Bela Lugosi. E cujas imagens na tela assistida pelo público parecem de uma obra obsoleta quando comparada com uma ameaça mais voraz e presente como a da gosma invadindo terreno. Nesse sentido, antecipa em dez anos uma obra ainda mais genial, o longa-metragem de estreia de Peter Bogdanovich, Na Mira da Morte (Targets, 1968), não por acaso protagonizado pelo próprio Karloff. O horror em qualquer contexto antecipa um nível mais elevado do que o conhecido anteriormente. O mal sempre evolui, se atualiza, se refaz. Hoje em dia, os invasores não surgem de outro planeta, mas parecem se propagar semelhante a virais atuando como hackers que infectam todo um sistema, influenciam e moldam comportamentos e atitudes, sequestram e violam consciências, e criam bolhas que contaminam um universo e provocam certa forma de estrago ou destruição à partir de percepções brutalizadas ou em vítimas do obscurecimento. A bolha do filme de 1958 já nos parece simples em excesso, levando em conta os parcos efeitos especiais da época. Mas em termos de alegoria política, permanece com elementos bastante fortes que costumam ser encontrados em parte considerável no gênero de ficção cientifica. 

Comentários (4)

Júlio César Filho | domingo, 13 de Janeiro de 2019 - 11:55 | Responder

Bela crítica. Particularmente, o bolha mais assustadora e poderosa que vivemos hj chama-se capitalismo. Sistema que conseguiu se impor pelo mundo com tanta força a ponto de criar um novo período geológico na história: o Antropoceno (o Aquecimento Global é seu aspecto mais conhecido).

Walter Prado | sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019 - 16:24 | Responder

"Esse é clássico trash do cinema em casa!"

Filme de 1958 no cinema em casa? Não peguei esta fase não...

Seja Lá Quem Tiver Sido | sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019 - 18:14 | Responder

O Matheus deve ter se confundido com o remake A Bolha Assassina, que inclusive é bem melhor que esse de 58.

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