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Boyhood: Da Infância à Juventude

(Boyhood, 2014)
8,2
Média
612 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

O filme de Linklater esfumaça as barreiras entre o cinema e a vida, utilizando o transcorrer do tempo dentro e fora do filme como grande aliado.

9,5

Boyhood, o novo filme de Richard Linklater, chama a atenção primeiramente pelo seu projeto, por sua forma de produção. Afinal, o filme foi filmado durante 12 anos, mantendo o seu núcleo de atores principais do início ao fim. Esse tipo de processo já foi utilizado em alguns documentários (que filmam e voltam aos seus personagens reais no espaço de alguns anos) e por ficções seriadas (que temporado após temporada mantém um elenco fixo).

No campo do documentário, talvez a experiência mais próxima seja Anna dos 6 aos 18 (1994), de Nikita Mikhalkov. No filme, o diretor russo repete uma série de perguntas a sua própria filha por 12 anos, entre 1979 e 1991. O filme acaba passando pelas questões sociais e políticas da derrocada da URSS, pelo olhar da menina. Para além da semelhança no tempo, os projetos se aproximam por Linklater também ter escalado sua filha Lorelei para viver a irmã de Manson Jr., Samantha. Os dois filmes de alguma forma partem de um microcosmo familiar (ficcional ou real) e esbarram no macrocosmo social e político – com a diferença que esse efeito é bastante mais nuançado na obra de Linklater.

No campo da ficção seriada os exemplos seriam múltiplos. Muitas séries utilizam o efeito do tempo nos corpos e ainda mais em um corpo em constante transformação (da infância ao início da vida adulta) como uma grande força. Talvez o caso mais significativo dentro dessa mesma proposta do crescimento de um garoto da infância ao início da vida adulta seja Os Anos Incríveis (The Wonder Years, 1988–1993) – em que acompanhamos a vida de Kevin Arnold dos 12 aos 18 anos, e consequentemente de sua família e amigos, entre o final dos anos 1960 e início dos 1970. Em comparação ao seriado, Linklater dobra a quantidade de anos e condensa em 3 horas – tornando o efeito do passar do tempo nos corpos ainda mais potente.

De qualquer forma, a utilização desse procedimento em um filme de ficção, se não inédita, é ao menos raríssima. E, apesar da ousadia e grandiosidade da empreitada original que poderiam levar o filme a ter um peso ou uma presunção, são necessários poucos minutos para que a narrativa flua naturalmente. Estamos em mais um filme de Linklater – e isso importa mais do que procedimentos ou ineditismos.

Nesse sentido, o cinema de Linklater vai cada vez mais na direção de um desarme dos arranjos convencionais do tempo das narrativas – como o diretor já havia experimentado nos 18 anos que separam a triologia Antes do Amanhecer (1995), Antes do Por do Sol (2004) e Antes da Meia Noite (2013). O curioso é que Boyhood começou a ser produzido antes da triologia com Ethan Hawke e Julie Delpy – depois do primeiro filme, mas antes da concretização dos dois segundos. Foi o início da empreitada de 12 anos sobre a infância e adolescência de um garoto que encorajou Hawke e Linklater a tocarem para frente a triologia do casal, realizando os dois últimos filmes.

Acompanhando a vida de Mason Jr. dos 6 aos 18 anos, Boyhood balanceia bem o nada acontece e também as grandes mudanças pelas quais uma família passa ao longo de uma década. No ponto de partida, Mason está com seis anos e sua irmã Samantha com nove, seus pais Olívia e Mason Sr. são separados – o pai é um músico um pouco irresponsável e ausente, mas que demonstra fortemente o afeto pelos filhos e a mãe tenta equilibrar o cuidado com os filhos, a vida amorosa e o projeto de continuar os estudos e ter uma carreira melhor. A partir daí, o filme vai seguindo o fluxo dos anos, sem nunca amarrar oficialmente as passagens – percebe-se que saltamos de ano pelas transformação fisíca dos atores e pelas elipses narrativas.

Durante os 12 anos que o filme foi filmado, os dias de gravação foram poucos, cerca 40 dias ao todo – isto porque as gravações eram feitas por 3 ou 4 dias ao ano, quando os atores e equipe conseguiam combinar as folgas. Mas o processo de preparação e escrita se desenrolava em uma colaboração constante entre o diretor e os atores. Assim, Linklater incorporou detalhes ou transformações da vida dos atores no roteiro, ainda que desde o início houvesse uma ideia geral de para onde a narrativa iria. Mais do que nunca, o diretor consegue em Boyhood diluir as barreiras entre vida e cinema, usando sobretudo a manipulação do tempo como aliada.

Visto no Festival do Rio 2014

Comentários (9)

Gustavo de Souza Silva | quarta-feira, 12 de Novembro de 2014 - 12:27

Eu quero muito ver esse filme, só falta chegar aos cinemas da minha cidade.

Ted Rafael Araujo Nogueira | terça-feira, 17 de Fevereiro de 2015 - 16:04

Respeito a opinião de muitos a respeito deste filme, mas ainda não consegui entender o excesso de apreço por ele. Cumpre o correto (minimamente) na passagem do tempo sem que soe pesado demais, mas tem uma estrutura ideológica rasa, superficial, estúpida, entupida de clichês moldados por coberturas bacaninhas nos mais fáceis lugares-comuns possíveis. Uma ode à problemas menores tratados como sintomas de desastres por uma classe média fresca. A banalidade da vida fora tratada aqui por um filme realmente ordinário e esquecível, lembrança apenas pelo seu método, que como fora dito na crítica, novo não é mas é raro. E é só isso.

Victor Henrique Schmidt Timm | domingo, 08 de Março de 2015 - 00:41

É um filme bem feito, e tem esse fator diferente, de ser filmado durante 12 anos. Mas nada demais. Eu não consegui ver o filme todo de uma vez, fiz várias pausas, pois não é um filme empolgante. Nota 6, 7 no máximo.

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