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Brightburn - Filho das Trevas

(Brightburn, 2019)
5,6
Média
14 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Entretenimento de bravos

6,0

Uma semelhança óbvia une os monstros espaciais que Ridley Scott encontrou em 1979, o alienígena baixinho do Spielberg de 1982, as naves espaciais que invadiram o planeta em 1996 pelas mãos de Roland Emmerich e... um certo morador de Krypton que caiu na Terra pela primeira vez nas telas em 1977; quantas vezes nos demos conta de que torcemos por um extra-terrestre nos filmes da DC? Superman veio de outro planeta e adquiriu poderes extraordinários num mundo repleto de seres ordinários, que o exaltaram por isso. Mesmo sabendo do pacifismo do povo de Krypton, e se o Superman tivesse sua personalidade alterada ao ultrapassar nossa atmosfera e seus poderes fossem utilizados da forma inversa. É sobre isso que versa Brightburn, um curioso produto do verão americano, uma tentativa radical de alteração dos dados do que constitui, a princípio, um super-herói.

Essa produção da família Gunn (James é o produtor, Brian e Mark os roteiristas) é dirigida por David Yarovsky e tenciona debater acima de tudo essa característica primordialmente positiva que os super heróis apresentam; se pararmos pra analisar mais friamente, no entanto, o poderoso (e igualmente extraterreno) Thor tem como nemesis seu próprio irmão Loki, não é mesmo? Logo... a ideia dos Gunn é interessante, curiosa, amplia seu leque para um debate sobre o amadurecimento e a puberdade, mas original e/ou extraordinária, não necessariamente. A condução da grande brincadeira que é o filme segura suas intenções e a modéstia do filme vai surpreender quem espera grandiosidade em larga escala de qualquer blockbuster da temporada mais rentável do cinema gringo, e na verdade o filme se beneficia até dessa expectativa tradicionalmente agigantada ao entregar um produto modesto, ainda que com extrema competência em seus valores de produção.

O diretor consegue criar um passatempo tipicamente descompromissado ao apertar os botões certos na criação da tensão, dos laços que unem o trio de protagonistas, do desempenho desses atores e da segurança com que o filme sai da zona segura e humilde para alçar voos (literais) rumo a efeitos cada vez mais especiais, em escala gradativa. O escopo familiar empregado vai sendo ampliado durante sua diminuta duração, e o filme adquire em determinado momento o status de terror com toques de 'gore' que só enriquece seu material, lhe dando personalidade. Ainda que ecos de muitos filmes já vistos sejam ouvidos aqui (O Anjo Malvado, por exemplo), o molho conjunto preparado tem um sabor diferenciado, nesses tempos tão politicamente corretos. E sim, no cinema industrial que menos corre riscos do mundo, é salutar ver as grotescas cenas apresentadas aqui - algumas que farão os fãs do gênero matar saudades dos melhores momentos dos anos 80.

Ainda que o clichê não seja um problema sozinho na estrutura de um filme, ele exerce o poder de minar a confiança no projeto se outras deficiências forem detectadas. E um dos problemas narrativos do longa é a inconstância de sua continuidade, testada a todo momento. São sequências que parecem terminar na metade, informações que faltam serem dadas, atitudes absurdas de seus personagens sempre com o intuito de desembocar no ponto necessário para o roteiro, e uma falta de substância inerente a todos os personagens fora do núcleo familiar principal, que bloqueia a empatia do público quanto os mesmos se apresentam em situações de perigo; a modéstia de uma produção não é justificativa para falta de cuidado e pressa, que prendem o produto nesse círculo fechado do divertimento sem contra indicações, nunca apresentando verniz suficiente pra tentar ultrapassar essa barreira auto imposta.

Entendemos um problema coletivo nesse sentido que englobe produção, roteiro e direção, onde o trabalho de cada um acaba formando um efeito dominó para o do outro sem elevar o material promissor. Ainda que em cada especificidade técnica aja um empenho positivo e uma efetiva entrega de qualidade, a montagem sai prejudicada dessa equação ao engolir blocos de eventos e permitir comunicação entre situações disparatadas. O público acaba por absorver um longa metragem pela metade, cujos esforços embora estejam a vista, são insuficientes para esconder as deformidades que o olhar atento descobre. Os atores Elizabeth Banks, David Denman e o pequeno Jackson A. Dunn estão irmanados na tentativa do lado positivo em ofertar entretenimento de qualidade, a despeito das pontas mal aparadas que o lado negativo evidencia, uma batalha interna vencida de raspão por um produto em falta no mercado atual: a coragem. 

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