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Brinquedo Assassino

(Child's Play, 1988)
6,5
Média
433 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Um brinquedo de personalidade.

6,0

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"YOU STUPID BITCH, YOU FILTHY SLUT! I'LL TEACH YOU TO FUCK WITH ME!"

De uma forma bastante rebelde, e acredito eu, sem ter exatamente a noção do estava nascendo à partir dali, Don Mancini promoveu uma nova ruptura num valioso pilar do horror para suas narrativas daquele momento, adentrando no terreno da fragmentação da inocência infantil não exatamente através de uma criança, mas por meio de algo muito mais simbólico: um brinquedo. Mais especificamente, um boneco. Se Regan McNeil e Damien Thorn emulavam características demoníacas através de seus corpos em O Exorcista (The Exorcist, 1973) e A Profecia (The Omen, 1976), respectivamente, o nascimento do canônico Chucky elaborava um novo olhar sobre as portas que o lúdico abria para o gênero quando destroçado através do olhar infantil.

Nisto, colocar uma faca na mão de um boneco vivo que, na verdade, é um assassino estrangulador que transferiu sua consciência para o brinquedo através de um ritual de vodu, talvez seja uma das imagens mais aterradoras dentro de vários campos do terror, seja do slasher, dos filmes de magia e rituais, ou até mesmo dentro de tudo que Brinquedo Assassino (Child's Play, 1988) estabeleceu. Afinal, sabemos hoje o quanto bonecos tomados por forças desconhecidas estão entre as imagens contemporâneas mais atraentes - Annabelle, o próprio Chucky, ou até mesmo uma vertente mais humana como a de Jigsaw estão aí pra não me deixar mentir.

E, como parte dessa história, um dos grandes testes sobre filmes como Brinquedo Assassino é na ação do tempo sobre o próprio. Nem mesmo este que vos escreve irá negar o quanto cair nesse terreno é chover no molhado, o que não significa que estes efeitos não possam fazer parte da discussão. Podem e deverm. Afinal, foi o tempo que também tratou de cimentar Chucky no imaginário popular, mas estamos falando aqui dos efeitos do tempo na história geral. Vamos falar dele através de uma ótica mais singular.

Talvez sendo o único da franquia que não tenha se pensando, à princípio, como um misto de terror e comédia, Brinquedo Assassino se tornou datado o suficiente pra que as risadas involuntárias surjam entre uma cena e outra da construção de Chucky. E se o design do boneco (aprimorado nos capítulos seguintes) permanece tão assustador ao ponto de não tirarmos os olhos de Chucky quando está em ação, os movimentos pouco convincentes do animatrônico causam aquele estranhamento que quebra a ilusão do que está sendo contado, o que só piora nas cenas em que também enxergamos anões caracterizados como o boneco. E é aqui que falamos sobre o teste do tempo. Brinquedo Assassino não envelheceu bem, ainda mais ao lado dos avaços tecnológicos que imediatamente surgiram a partir dos anos 90. A ameçada de Chucky funciona muito mais quando o diretor Tom Holland pouco mostra o boneco na primeira metade, valorizando uma construção de tensão um tanto derrubada quando tudo se torna obrigatoriamente mais direto (a cena com o cara do vodu é de doer).

Ao mesmo tempo, alguns conceitos elaborados por Mancini parecem estar à frente de seu tempo, e não digo somente isto pelo já mencionado simbolismo de transformar um brinquedo infantil num assassino incontrolável, mas pela elaboração de personagens que, ao menos ali, fugiam um pouco das regras estabelecidas do slasher (alguém vai dizer que Brinquedo Assassino não é um?): o garoto Andy carrega óbvias identificações com o roteirista Don Mancini, um dos poucos gays assumidos em meio ao gênero. E sua mãe, Karen (Catherine Hicks), foge da identidade das final girls adolescentes e é elaborada como uma personagem consistente em seus esforços na criação do filho (mesmo que não esteja em pauta nos diálogos, ela ser mãe solteira não é um mero detalhe) e a preocupação em não saber como lidar com o suposto imaginário de Andy sobre o brinquedo.

São elementos visivelmente fortes e que denotam uma consciência do que Mancini concebeu, mas a direção de Holland novamente tropeça numa atenção excessiva ao lado policial da trama que culmina em cenas não muito atraentes entre Karen e o detetive Mike Norris (Chris Sarandon). E por mais que o gore seja de muito bom gosto, eu não entendo pra quê investir numa barulhenta cena de explosão quando a graça está justamente na forma mais direta e sanguinolenta de Chucky lidar com suas vítimas.

Com um desfecho que foge bastante do controle (e aqui esse é um comentário positivo), as ações do tempo sobre Brinquedo Assassinio são notórias, ao mesmo tempo em que todo estes anos evidenciam a força aterradora da imagem de Chucky, um brinquedo de MUITA personalidade. E, convenhamos, na maior parte do tempo, a franquia sobreviveu disso, não foi?

Comentários (1)

Ted Rafael Araujo Nogueira | quarta-feira, 24 de Novembro de 2021 - 01:08

Eis aqui o principal brinquedo do cinema. O mais canalha e ardiloso de todos. É a dimensão do imaginário infantil em se ter uma companhia - no caso a porra do boneco -, conurbando-se com a psicopatia do tampinha assassino vivo via vodu. Um conceito ao mesmo tempo criativo, brega e exagerado. Uma criatura com um escopo de matar objetivado pela vontade de continuar a matar, mal sabia ele que ficaria preso nessa marmota por mais de 30 anos.

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