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Críticas

Cineplayers

A primeira aventura de Indy e uma das maiores de todos os tempos.

8,0

Spielberg havia acabado de inventar os blockbusters de verão norte-americanos com Tubarão (1975) e feito uma obra-prima chamada Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) quando George Lucas, ocupado demais com uma certa trilogia nas estrelas, resolveu lhe apresentar a idéia de um arqueólogo, fanático por objetos de incalculáveis valores, que parte atrás da arca que contém os Dez Mandamentos. Nascia assim Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, previsto para ser apenas uma homenagem aos filmes de aventura da década de 30, 40, mas que ganhou enormes proporções e se tornou um dos ícones da história do cinema.

No filme, essa busca à arca durante a fase pré-Segunda Guerra é mero pano de fundo para que conheçamos mais detalhadamente o Doutor Henry Jones Junior, que prefere ser chamado de Indiana Jones (“Esse é o nome do cachorro”, Connery diria no terceiro filme, e realmente é; Indiana Jones é o nome do cachorro de Lucas). O respeitado professor de arqueologia, de cabelo engomado e óculos nerd, esconde uma faceta aventureira que parte atrás de qualquer preciosidade histórica ao menor indício de sua existência, não importando se sua vida estará em perigo ou não.

O mais interessante em todo o filme é que Indiana Jones, apesar de tratado como um herói, não é super: altamente vulnerável ao mundo a seu redor, ele a todo momento se machuca, toma decisões importantes certas e erradas, enfim, é uma pessoa completamente normal em meio à uma situação extrema, e age possivelmente como eu ou você faríamos em tais ocasiões, com o devido conhecimento histórico que o personagem tem a seu favor. Por mais que o filme seja cheio de ação - de boa qualidade -, a construção dos personagens é grande devido ao roteiro simples e direto. Eles que importam, não os rumos que a história toma.

Harrison Ford embarca no estilo atrapalhado, mas muito eficiente para dar vida ao doutor. Com características absolutamente marcantes, regadas a chapéu e chicote, inúmeras seqüências clássicas são criadas com seu personagem, desde o mini-filme que abre todo o longa (perceba a participação de Alfred Molina e a interessante montanha com o mesmo formato do logo da Paramount) até a cena que o encerra. Como é possível negar o charme da seqüência em que Jones corre da bola gigante, do mapa com trajetória em vermelho, do ruído do chicote, enfim, tudo remete a uma aventura inesquecível e marcante como poucas vezes vimos no cinema.

E mais do que apenas um filme de aventura, Os Caçadores da Arca Perdida tem uma ambientação importante ao estabelecer os nazistas como vilões imediatos e de fácil identificação: sabemos exatamente disso no primeiro momento em que aparecem na tela. Todo herói precisa de um vilão, e aqui não é exceção. E se Hitler se apossar da arca, o que ele poderia fazer? Perguntas como essa estabelecem o padrão básico de inimigos que Indy encontrará durante toda sua trilogia e criam automaticamente o tom amedrontador que seus personagens devem passar.

Sobre os outros atores, Karen Allen (que retornou à série em seu quarto e recente episódio, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal) faz o par romântico de Jones: construído a partir do conflito de uma menina amargurada pelo passado, a todo o momento vemos os dois protagonistas brigando, mas tendo a certeza de que tudo aquilo é romance consumado e esquecido. Ronald Lacey faz o nazista que quer tirar Jones da jogada e Paul Freeman o explorador que irá conflitar durante todo o filme com nosso aventureiro por status e algo mais. Há ainda a participação de John Rhys-Davies (o imortal Gimli, da franquia O Senhor dos Anéis) como um dos amigos de Indy, Sallah. O personagem é extremamente divertido e marca da série, mas ficou de fora do quarto filme por ter pedido demais por sua participação.

A parte criativa do longa conta com seqüências realizadas quase todas em efeitos de maquinaria, no próprio set, uma vez que essa era pré-CGs exigia demais da criatividade para dar dimensão às cenas em que necessitavam de efeitos especiais (algo que o quarto Indiana Jones parece ter esquecido). Por isso, quando vemos Harrison Ford correndo de uma bola gigante ou envolto por várias cobras, sabemos que o ator (ou dublê) está realmente passando por aquele momento, o que aumenta a tensão de tudo o que estamos vendo. Isso sem entrar nos méritos de realidade da questão, pois os efeitos feitos no set quase sempre são mais efetivos do que os feitos pelo computador.

Outra característica marcante e inconfundível da série é sua trilha sonora. Mais uma vez composta pelo lendário John Williams, que nessa época estava absurdamente inspirado em criar trilhas marcantes, é simplesmente impossível não reconhecer seu tema principal assim que os primeiros acordes são executados, mesmo que fora do filme ou em um arranjo diferente do original. E os efeitos sonoros acompanham totalmente a idéia de “filme de aventura dos anos 40”: exagerados, falsos, mas que funcionam maravilhosamente bem dentro do propósito atribuído a sua utilização.

Só que o filme não é perfeito. Apesar de extremamente divertido e com alguns exageros aceitáveis, fica difícil engolir algumas soluções do roteiro para resolver certos problemas criados durante as ações, como, por exemplo, o fato de que Indy saltar do navio e passar, sabe-se lá quanto tempo, grudado a um submarino; ou então o final, sombrio demais para a proposta adotada durante toda a duração do filme. Ainda que tenha defeitos, o roteiro é simples e inteligente o suficiente para inserir detalhes pequenos à trama, como por exemplo a parte em que os nazistas têm uma cópia do medalhão, que foi tirada da mão queimada do personagem de Ronald Lacey.

A comédia é um dos principais fatores que tornaram Indiana Jones um dos clássicos do cinema – quem nunca riu da luta mais rápida da história do cinema? Porém, ela não é o único motivo. Todo esse roteiro simples, mas altamente cativante e bem executado e as seqüências de ação muito bem feitas deram um chega para lá na incerteza sobre o sucesso que rondava a produção na época. E, convenhamos, apesar de Harrison Ford não ter sido a primeira opção dos produtores para o papel (Tom Selleck era o escolhido, mas preferiu participar da série Magnum), não dá para imaginar outro ator fazendo o papel. Como já falei isso diversas vezes em outras críticas, essa é a principal prova de que o trabalho foi perfeitamente realizado.

Dizer isso tudo hoje, anos após o lançamento, é fácil. O difícil é encontrar alguém que não concorde.

Comentários (1)

Cristian Oliveira Bruno | sábado, 23 de Novembro de 2013 - 15:58

Nunca goste do Harrison Ford, mes quem deu vida à Han Solo e Indiana Jones merece respeito, né?

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