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Cats

(Cats, 2019)
2,5
Média
26 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A pergunta é: quem deixou?

1,0

Venhamos e convenhamos: nem mesmo nos palcos Cats era um espetáculo completamente funcional. Sim, a famosa obra de Andrew Lloyd Webber trouxe ao público da Broadway um quê de fantasia absurda dentro de uma interessante metáfora sobre a relação entre humanos e bichos que encantou olhos e ouvidos por mais de 20 anos, tempo em que o musical permaneceu em cartaz por lá. Parte desse efeito positivo e imersivo era o que compensava a trama sem pé nem cabeça de Webber, que narrava a história de uma tribo de gatos auto-batizada como Jellicles (?) que, a cada ano, escolhia um dos seus para ascender numa nova vida no Heaviside Layer. Sim, em termos de história, Cats é unicamente isso.

Mas é inegável o enorme potencial lúdico que o trabalho de Webber carrega, e se havia essa funcionalidade nos palcos (muito devido ao desafio instigante feito ao público em aceitar atores vestindo roupas de gato), imagine o que Cats poderia oferecer se levado ao cinema? Tarefa arriscadíssima, óbvio, e com fortes tendências ao fracasso completo. Tal projeto necessitava da seleção de nomes ideal para que a confusão do libreto de Webber não minasse a energia fantasiosa do espetáculo: o elenco certo, o coreógrafo certo, a edição certa (peças teatrais sempre exigem mais de uma boa montagem quando levada às telas), o diretor certo. Para a forma de pensar da indústria hollywoodiana, Tom Hooper realmente devia parecer o comandante ideal, vide não apenas a popularidade de seus filmes nas premiações, mas o alcance respeitável (ao menos entre o público consumidor de musicais) de sua versão para o clássico Os Miseráveis, que rendeu diversos prêmios para a estante do diretor.

O que Cats viria a ser, entretanto, era perceptível desde a liberação das primeiras prévias, que chocaram a internet com a caracterização antropomórfica dos personagens que aliava a anatomia felina com traços extremamente humanos como rostos, nariz, dedos e pés. Aquela altura, a produção ainda não havia sido finalizada, uma versão melhor acabada foi prometida para os cinemas, mas o que nos é apresentado é, basicamente, uma extensão do que vimos nos trailers, com a diferença de que, agora com quase duas horas de projeção, o filme não apenas deixa claro a ineficácia de seu diretor (e não falo somente para os musicais), mas expõe a sucessão de equívocos que transformou Cats nesse “espetáculo” musical difícil de definir.

Se a adaptação traz consigo o nonsense da trama original de Webber, o roteiro do próprio Hooper ao lado de Lee Hall (de Billy Elliott) torna ainda mais extensa a falta de noção da narrativa ao alçar Victoria (a bailarina Francesca Hayward, estreante na tela grande) à posição de protagonista somente para torná-la uma muleta de observação passiva para tudo que acontece ao seu redor, numa sucessão de números musicais tão despropositados e jogados ao vento (é ASSUSTADORA a falta de noção do filme com o próprio timing) que mais se assemelha a uma colagem mal pensada e de linearidade desconexa, que na crença de que estão desenvolvendo algo através de suas letras, apenas travam qualquer coisa a dizer que o roteiro (?!) possa ter. Não estranhe se, já pelos 60 minutos de duração, você ainda não tiver a mínima clareza sobre quem são os personagens ou sobre o que diabos o filme está falando.

Tal ausência de clareza lota o filme de questionamentos que transformam o script numa grande massa de buracos: qual o real significado de levar um gato por ano para fora das ruas de Londres? O que deu poder para Deuteronomy (Judi Dench, que passa relativamente bem no desafio de não sucumbir ao ridículo do todo) fazer essa escolha e quais são seus critérios? E por que raios a personagem usa um casaco… de pele de gato? Quem é Grizabella e por que devemos ter tanta empatia com seu sofrimento? Por que alguns gatos têm poderes como se teletransportar ou fazer mágicas com uma varinha e cartola? Algumas destas questões teriam sido facilmente respondidas se Cats tivesse uma fantasia convincente, mas Hooper destrói essa possibilidade com sua obsessão pelo ultrarrealismo que, ironicamente, é desfeito desde o primeiro instante com o descontrole visual, narrativo e sonoro do projeto.

E se nomes como Taylor Swift e Ian McKellen mantém certa dignidade dentro do que lhes é possível, James Corden e Rebel Wilson saem prejudicados pela falta de timing do filme até mesmo em suas tiradas (não que Wilson costume ser engraçada), Idris Elba não diz a que veio na pele do vilanesco Macavity (que só dá as caras quando é conveniente ao momento ter algum antagonismo, o que lhe tira qualquer motivação). Para piorar, Hooper nos arranca qualquer possibilidade de atestar a presumida eficácia de seu elenco nos números ao realizar diversos cortes descontrolados por segundo - lembram quando eu disse que adaptações teatrais EXIGEM uma boa montagem? A montadora Melanie Oliver não foi a melhor das escolhas pra isso - e enquadramentos fechados que desvalorizam completamente as coreografias do renomado Andy Blankenbuehler, que elabora rotinas graciosas, mas que terminam sabotadas pela mão amadora de Hooper em filmar números musicais.

Cats termina deixando uma pergunta no ar ainda maior que seus próprios furos: realmente foi possível que alguém tenha olhado pra esse projeto finalizado e pensado “acho que está bom, vamos lançar” e que tenha se sentido satisfeito com isso? Na verdade, devemos dizer “finalizados”, uma vez que Hooper encerrou a pós-produção somente 12 horas (!!!) antes da premiere mundial de seu filme, que voltou para os estúdios e ganhou novos acabamentos, mas não escapou do massacre promovido pela enorme estranheza, desconforto e constrangimento resultados de cada escolha da produção. Olho pra esse filme, imaginando alguém autorizando seu lançamento e só me pergunto: quem deixou?

Comentários (2)

Carlos Eduardo | sábado, 13 de Junho de 2020 - 10:52

Tendências masoquistas kkkk. Acho que um dia se estrear pelo streaming eu assisto.

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