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Críticas

Cineplayers

Béla Tarr encontra em uma passagem da vida de Nietzsche uma maneira de projetar seu estilo único de fazer cinema.

8,0

O cinema do húngaro Béla Tarr é daqueles que podem ser classificados como difícil de digerir. Focado em inserir personagens realistas em situações arrasadoras e cenários devastados, Tarr é adepto aos famosos planos-sequência longuíssimos e ao preto e branco – uma mise-en-scène poética inigualável. Se para alguns isso é um verdadeiro exercício de paciência, para outros é pura arte. De certa forma, podemos classificá-lo como um filósofo, antes mesmo do que um cineasta propriamente dito. Isso porque seu cinema é quase que inteiramente voltado para os elementos mais crus e primitivos da alma humana, de modo que cada detalhe da composição do universo de seus trabalhos é  incisivo e profundo, levando-nos a questionar todas as razões de nossa existência e refletir sobre como somos influenciados pelo ambiente que nos rodeia. Levando essas informações em consideração, até que demorou para os caminhos de Béla e do célebre filósofo alemão Friedrich Nietzsche  se cruzarem. O Cavalo de Turim (A torinói ló, 2011), vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim deste ano, marca o encontro desses dois grandes nomes em um trabalho complicado, porém recompensador, que visa retratar um acontecimento que mudou os rumos da vida do filósofo alemão.

Podemos dizer que O Cavalo de Turim se trata de um filme sobre o silêncio, principalmente. Pobre em diálogos e rico em expor a rotina enfadonha de seus personagens, é o silêncio que reina durante toda a sua longa duração. Por conta disso, Béla Tarr aproveita com maestria o poder dos efeitos sonoros e das imagens. Cada movimento feito dentro da casa, cada ação e respiração potencializam-se em meio à quietude, nos fazendo imergir na tela com uma facilidade inacreditável. A fotografia esfumaçada e a opção em não usar uma trilha sonora marcante terminam por fim em contribuir para a composição dessa atmosfera soturna e depressiva.

É nesse ambiente insólito que se desenrolará os acontecimentos na vida de uma família rural da cidade de Turim, na Itália. Ao contrário do que possa parecer, Nietzsche não é o personagem mais importante da trama. Tarr apenas se vale de um acontecimento real na vida do alemão para dar o pontapé inicial em sua narrativa. Logo no início, é narrado que Nietzsche, no ano de 1889, presencia por acaso uma situação em que um condutor de carruagem perde a paciência com seu cavalo desobediente, que não quer sair do lugar, e o chicoteia. Em prantos diante desse fato, Nietzsche irrompe na multidão e abraça o animal. Depois disso é levado de volta para casa e fica deitado por dois dias no sofá sem dizer uma única palavra. Depois de finalmente quebrar o silêncio, pronuncia a frase “mãe, eu sou um idiota”, voltando a se isolar em uma quietude demente que durará mais de dez anos, até o fim de sua vida.

Depois de esses acontecimentos serem narrados, logo no início da projeção, é frisado que não se sabe que fim levou o cavalo. Inicia então a trama, agora fictícia, da vida daquele homem que castigou o cavalo, ao lado de sua filha. Esse personagem, o pai, será acometido por similar silêncio depois de presenciar o ataque de loucura de Nietzsche. Agora em casa, a figura do animal castigado começará a pesar sobre todos, e seu sofrimento será contagioso. A ferida, que de início se encontra apenas na pele do animal, se espalhará como que com o vento para o pai e a filha, que absorverão esse sofrimento através de um tipo de dor emocional. À medida que o cavalo – o único meio de sustento de uma família isolada da civilização – adoece por conta também de sua velhice, o silêncio e a dor vão se tornando cada vez mais pesados na vida de seus donos e, por conseguinte, o próprio público começa a se sentir incomodado com tamanha agonia. Tempestades infindáveis (marcadas por rajadas de vento constantes, que parecem ser o efeito sonoro mais presente e importante na trama, para o cineasta), a perda dos recursos de sobrevivência e a total falta de perspectiva terminam por arrasar de vez a vida de todos ali.

Pode parecer estranha a condução que Tarr decide dar à sua história, mas na verdade se trata de uma forma de unir o seu cinema aos mais complexos estudos da alma humana feitos por Nietzsche. A rotina do pai e da filha deixa de se tornar algo banal para se transformar em algo mortífero, como se a cada dia ficasse cada vez mais claro o fato de estarem morrendo aos poucos. Assim como o cavalo velho e maltratado, os dois estão em um estado constante de degeneração e nada ali parece dar sentido às suas vidas. Volta então o silêncio, que gradualmente vai ficando cada vez mais incômodo, mais presente e mais enlouquecedor, expondo a solidão e o ressecamento de qualquer manifestação de vida ali existentes – um belo paralelo à obra de Nietzsche, que quase que inteiramente se focou em desencantar as ilusões humanas e deixar exposto apenas o cru de nossa essência.

O próprio ato de o homem ferir o cavalo retrata uma das maiores revoltas do filósofo – a eterna necessidade do homem em dominar seu inferior. O rico que domina o pobre, o forte que domina o fraco, a aristocracia e a classe escrava, etc. Através dessa simples passagem podemos entender a fundo não só o foco da vida de Nietzsche, mas também a forma como o cinema de Béla Tarr se casa perfeitamente com essa visão. Também sempre decidido a desmascarar as falsidades da sociedade e deixar apenas o que há de mais primitivo no homem, Tarr usa a selvageria da natureza animal em contraste com a do ser humano. Nesse balanço, sempre acaba pesando mais a brutalidade existente naqueles homens que sentem que podem dominar tudo aquilo que lhes parece indefeso.

Sobra então, no meio de tanta brutalidade, o silêncio. Novamente o silêncio nos absorve e nos diz muito mais do que palavras. Basta olhar o estado catatônico que homens e animais se encontram nesse filme para entender tudo o que aquele incômodo silêncio deseja passar. Mas para isso, claro, é preciso ter muita paciência e saber mergulhar de cabeça nos longos planos-sequência e nas muitas repetições que permeiam a trama de O Cavalo de Turim. Só assim para, por fim, experimentar em plenitude os estímulos sensoriais presentes nesse novo trabalho de Béla Tarr (talvez o derradeiro de sua carreira, segundo o próprio cineasta). Experiência única, O Cavalo de Turim é também um encontro mágico entre os ideais de um dos maiores filósofos de todos os tempos com a forma única de Béla Tarr em fazer cinema. Talvez exija um pouco de atenção e paciência redobradas, mas ainda assim vale muito a pena poder conferir esse encontro de dois gênios. Arte e filosofia se encontrando, se estranhando, se contradizendo, por fim se entendendo e, por último, se completando.

Comentários (6)

Heitor Romero | segunda-feira, 03 de Outubro de 2011 - 21:59 | Responder

Bom, queria agradecer a colaboração de Pedro Ruback, que conhece mto de Béla Tarr e de Nietzsche, e foi meu consultor de texto hehehehe.Obrigado demais, Pedro! E queria tbm deixar essa critica de presente ao Luca Dourado. 😁

Daniel Borges | quarta-feira, 12 de Outubro de 2011 - 10:57 | Responder

Linda crítica, perfeita construção de sua análise Tor.

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