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Cemitério Maldito

(Pet Sematary, 2019)
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Críticas

Cineplayers

Parque de diversões sem trilho

4,5

A construção dramática proposta em um livro costuma diferir bastante daquela encontrada no cinema. No que concerne as soluções temporais, essas diferenças praticamente apartam as duas artes. Uma narrativa literária se desenvolve de maneira mais dilatada e gradual, enquanto o cinema ainda é refém da rapidez da imagem, por mais que a condução obedeça a preceitos menos reativos, como ao 'slow cinema'; a natureza de uma condução privilegia a construção e a imaginação, enquanto a outra tem foco na ação. Essa observação é necessária ao abordar a criação do universo da nova adaptação da obra de Stephen King, Cemitério Maldito, que reinventa os eventos já filmados há exatos 30 anos por Mary Lambert - no sentido de subverter algumas situações. Ambos no entanto esbarram nessa contradição temporal, entre o que é pretendido e o que é aplicado.

A história da família que foge para uma comunidade rural assolada pelo estresse das grandes cidades e encontra o sobrenatural literalmente encrustado em seu terreno poucas vezes consegue alcançar a abrangência emocional que só o tempo seria capaz de abarcar em seu desenvolvimento. Cada personagem adulto do longa tem seus particulares dilemas com o passado, e somente com uma duração maior o casal protagonista e seu vizinho teriam suas tramas desenvolvidas a contento, tanto a inserir humanidade a eles quanto a envolver o espectador na atmosfera crescente de terror que a própria realidade fornece; o terror nada mais é do que reflexos de traumas e questões não resolvidas que estão entre nós, como as melhores produções do gênero sempre deixaram claro, e Stephen King se tornou um mestre do gênero também por estabelecer suas alegorias com exatidão. Essas metáforas precisam de composição delicada para formar sua colcha de envolvimento, e a produção dos diretores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer tem pressa.

Com isso, o filme acaba se prestando a um material mais ralo, o do entretenimento ligeiro e sem compromisso, abrindo mão das nuances que realçariam o sombrio mergulho dos personagens. Da forma como chega na tela, as duas versões se encontram nos problemas, ainda que o material no produto recente ressalve dois temas ainda que timidamente: a necessidade da crença e o poder da reconciliação com o passado. Em uma cena, o casal protagonista discute os dogmas religiosos que acreditam e o 'backhround' de cada um nos faz compreender o escopo geral da análise. Mais adiante, Louis precisará se dobrar e adquirir uma fé que não lhe pertence, mas a essa altura tudo se esvaiu e o filme não consegue traçar um círculo de pensamento. Assim como os traumas de cada um de suas figuras centrais não lhes serve de nada, a não ser para desencadear o gênero de maneira mecanizada, ainda que aja eficiência na máquina hollywoodiana por excelência.

Só que nem esse lado é tratado de maneira exemplar, como tantos títulos da atualidade alcançaram. King voltou a ser um autor celebrado, e mesmo a Netflix se viu colocando produtos baseados em suas histórias em resultados bastante satisfatórios. Ao contrário do autor, essa é apenas a quarta experiência cinematográfica de Kölsch e Widmyer, e a primeira de distribuição vultosa, logo a inexperiência com ritmo e com edição fica evidente. O filme acelera os acontecimentos, o roteiro empilha apenas os eventos de maior impacto e a vazia sensação de andar numa montanha russa é alcançada, na sucessão de cenas trepidantes. Mas o filme não empolga na maioria dos 'jump scares' (mais uma vez provando a ineficácia da prática quando descontrolada), e como o roteiro - da autoria do veterano Matt Greenberg e do mais jovem Jeff Buhler - não vestiu o conteúdo do produto, e em determinado momento nenhum daqueles personagens nos é caro; eles são titeres em um parque de diversões.

A despeito do entusiasmo inicial, da construção imagética eficiente (ainda que alicerçada em clichês de neblina excessiva e trovões no céu, entre outras coisas), a produção tem seu grau de empolgação restrito ao público afeito a emoções baratas, e é uma pena que o material tão rico que King fornece não consiga ultrapassar essa barreira - ou escolha abrir mão de uma "profundidade" que só agregaria uma diversão mais encorpada. Não adianta muito termos Jason Clarke e John Lithgow na linha de frente do elenco, ambos muito bem em seus esforços, e a menina Jeté Laurence com carisma e segurança, se eles estão todos a serviço de um produto de consumo em massa que descartou as possibilidades de costurar a mecânica dos passados e relações intrínsecas ao horror daqueles tipos, arquétipos de um gênero que tem entregue material superior ao apresentado aqui. 

Comentários (3)

Rodrigo Cunha | sábado, 11 de Maio de 2019 - 21:58 | Responder

Ainda estamos ajeitando a casa antes de abrir cadastros novamente.

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