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Céu da Meia Noite, O

(The Midnight Sky, 2020)
5,6
Média
44 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Um céu de pouco brilho

4,5

George Clooney debutou no ofício por trás das câmeras com o bom Confissões de uma Mente Perigosa (2002). Logo na sequência, emplacou o aclamado Boa Noite e Boa Sorte (2005). Depois deste, só foi acertar mesmo é com Tudo Pelo Poder (2011). No meio do caminho foram só deslizes, com os fraquíssimos O Amor Não Tem Regras (2008) e Caçadores de Obras-Primas (2014). Em suma, mostrou-se ao longo dessa sua curta carreira como diretor um cineasta bastante irregular. E mesmo os seus filmes mais elogiados continham defeitos de um autor ainda pouco maduro.

Eis que, em 2020, o astro tem seu mais novo filme lançado no streaming. Vale ressaltar que, além de rodar o longa, Clooney também atua em O Céu da Meia Noite como Augustine, cientista isolado no Ártico, enquanto a Terra sofre os efeitos de uma catástrofe mundial. É apresentando o seu próprio personagem que Clooney, numa atuação        “ok”, abre o filme, com enquadramentos em espaços da estação onde trabalha. As primeiras cenas são silenciosas e sugerem um terço inicial mais contemplativo. Logo essa hipótese é deixada de lado quando problemas surgem pra Augustine e, paralelamente, para astronautas que, em missão espacial, não sabem da situação da Terra e pretendem voltar pra casa. Ainda no primeiro ato percebe-se um cuidado, pelo menos nas cenas terrestres, com o visual. A fotografia é digna, ainda que não encha os olhos, e a trilha de Alexandre Desplat desponta.

Passam-se os minutos iniciais de filme e ocorre um estranhamento. Nenhum background é apresentado, sequer em flashbacks (estes são utilizados da pior maneira aqui), explicando a origem do tal apocalipse. Sabemos que, de alguma forma, ele ocorreu. Outro questionamento fica por conta do personagem central, o cientista, que parece nunca sair do arquétipo do homem “ado”. Ilhado, complexado, viciado. Você acompanha o personagem interpretado por Clooney andando pra lá e pra cá com um copo de bebida na mão. O álcool é presente em sua vida. Mas o que mais diz respeito a ele? É difícil definir ao longo do filme uma personalidade com nuances para Augustine, que mais parece um esboço de personagem do que, de fato, um protagonista. 

Parece um personagem sem camadas. O filme também não propicia nada para que elas aflorem. Visualmente, Augustine ostenta uma barba volumosa. Batemos o olho e julgamos pelo visual que se trata de um homem já acostumado a situações extremas. Um quase selvagem. Nada muito além disso. Até que o roteiro de Mark L. Smith tenta extrair de Augustine confissões de sua personalidade ao inserir a garotinha na história. Ocorre que a relação entre os dois é pouquíssimo explorada, limitando-se a momentos fofinhos ou a aqueles que despertam um sorriso de canto de boca.

Mas sabe-se que The Midnight Sky não versa apenas sobre o núcleo do cientista. E mora aí um problema estrutural e de montagem arraigado no filme. Quando vai para o espaço, com os astronautas tentando estabelecer contato com o nosso planeta, o filme não consegue, assim como ocorre com Augustine, tornar mais do que unidimensionais os enviados da agência semelhante à NASA. Clooney não consegue, através de sua condução, aproximar do espectador nenhum dos dois arcos.

Onde habita, afinal, o problema em termos de estrutura? Justamente nessa alternância monotônica. Ora estamos na Terra, ora próximos de outros planetas da Via Láctea. Mas sempre cansados nesse bate e volta que um simples corte no filme é capaz de realizar. O Céu da Meia Noite tem uma trama enfadonha. Clooney passa boa parte da trama num cenário gelado sem grandes tensões. Pra não dizer que elas não ocorrem, há uma sequência mais “tensa” quando ele vai junto da garota em busca de um centro para transmitir sinal à nave dos astronautas. Mas a potencial tensão dessa cena acaba diluída pela falta de um requisito mínimo conhecido como atmosfera.

Como é um filme cheio de cortes, imageticamente apenas competente (o CGI não é lá essas coisas), e que, de certa forma, também é apressado, acaba por não criar uma redoma de expectativa quando uma situação mais grave se abate sobre seus personagens. Nem lá, nem cá. Nem na Terra e nem no Céu. Quando está no espaço, o filme lembra e tem ecos de Gravidade (2013). Quando está na Terra, especialmente lá para os finalmentes (perto de seu final), lembra muito o divisivo Interestelar, de Christopher Nolan. Mas não consegue ter a identidade de nenhum desses dois. Tenta emular, apenas. Para piorar, ainda dá uma de esperto quando apresenta uma “reviravolta” na trama, com uma revelação envolvendo questões temporais da Física, do jeito que Nolan gosta, com a diferença de que aqui o negócio consegue ser pior do que nas piras do diretor de A Origem (2010). Sem contar o fato de que tal surpresa vem de maneira bastante abrupta, sem que sintamos e tenhamos tempo de absorvê-la.

O Céu da Meia Noite decepciona porque sua premissa tinha potencial para mais. Também desaponta quando comparado a Suburbicon: Bem-vindos ao Paraíso (2017) que, embora passe longe de alcunha de grande filme, bebia numa fonte conhecida e o fazia muito bem. Sabíamos que a inspiração ali era nos irmãos Coen. Clooney neles mirou e parcialmente acertou. Aqui, o dardo passou bem longe do alvo. Clooney tentou fazer do seu filme um sci-fi oscarizável, mas ficou perdido num caminho bifurcado entre a ficção científica e o drama pessoal bastante profundo. Ao invés de optar apenas por um caminho, passeou pelos dois, sem se aprofundar em nenhum. O resultado? Um híbrido blasé de elementos. Desse jeito, nem Felicity Jones com sua doçura e sotaque britânico salvaram. Mais um grande desperdício de orçamento e elenco nesse 2020, ainda mais para uma produtora que almejava ver este Céu brilhar nas premiações vindouras.

Comentários (1)

Herbert Engels | domingo, 27 de Dezembro de 2020 - 04:57

O título desse filme deveria ser A Burocracia da Meia Noite. Nem Clint Eastwood iria fazer um filme tão convencionalmente padronizado como Clooney fez aqui.

E o Cineplayers comentou tanto da influência de Estrada da Fúria no último Podcast, mas a textura e fotografia de Emmanuel Lubezski em Gravidade parece não ter poupado NENHUM filme de ficção científica espacial.

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