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Cilada para Roger Rabbit, Uma

(Who Framed Roger Rabbit, 1988)
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Críticas

Cineplayers

Zemeckis e o cinema de homenagens

8,0

Muitos filmes se propõem a contar uma história usando e abusando de fan-services meramente acessórios à narrativa, que estão ali para o apelo fácil, imediato. Em 88, quando estreara Uma Cilada para Roger Rabbitt, também retornava a dupla que trabalhara junta no clássico De Volta Para o Futuro. Christopher Lloyd, no papel do vilão, e Robert Zemeckis, no intento de usar muito da nostalgia, ao contrário daquela inserida sem propósito. O cineasta conseguira fazer um inusitado crossover de personagens ilustres. Duas caixas de icônicos cartoons fundiam-se. Uma Cilada para Roger Rabbitt propiciou um encontro pulsante entre a turma do Pernalonga e a de Walt Disney. Nem preciso falar de Mickey Mouse. A associação é imediata.

Zemeckis abre com os bastidores de um episódio animado. Baby Herman e Roger Rabbitt contracenam num tresloucado confronto. O grito de “corta!” irrompe dando fim ao, até então, filme 2D. A partir daí, o traço chapado divide espaço com humanos em matéria. As cores do personagem desenhado à mão contrastam com as do plano da realidade. Zemeckis concebe um universo onde Patolinos interagem com humanos ocasionalmente. Isso porque apenas um muro separa a cidade, aquela ambientada na Hollywood da década de 40 – muitíssimo bem recriada – de Toontown, a cidade dos desenhos.

Hoje, com a profusão dos mesmos moldes cinematográficos dos quais Roger se utiliza, muito tem se criticado a mescla do bi com o tridimensional. Entretanto, há de se pensar que a forma não define um filme, muito embora possa comprometê-lo, caso seja carregada em um sentido negativo. O preconceito deve se deixar em suspenso, para que se acredite na possibilidade de algo inventivo e autêntico como Roger Rabbitt fora. A sua trama enriquece o seu formato. Seus personagens idem. Partimos do ponto em que Eddie Valiant é contratado para investigar a esposa de Roger, a marcante femme fatale Jéssica Rabbitt. Estaria ela traindo-o? Com o decorrer de minutos e a transição entre atos – nenhum deles demonstra oscilação de ritmo significativa – vemos algo mais intrincado. Nada muito complexo, porém nada propriamente infantilóide.

Uma trama com sustância é conduzida por Zemeckis, que filma de maneira muito inteligente e aproveita do que a tecnologia à época oferecia como guarnição. Ele usa cenas, ainda no primeiro bloco, para situar Marvin Acme e outros personagens importantes para o desenrolar de seu filme homenagioso, num universo onde humanos não estranham seus vizinhos crias de desenhistas. E essa relação entre espécies humanas e não-humanas se dá fortemente pelo desenho que o filme traz delas e também pelo que se evidencia daquilo que está amalgamado na memória de Eddie. Seu irmão fora morto. Justo por quem? Por um desenho. Não é muito afeto a estes, mas Eddie tem de lidar com a cilada para nosso coelho protagonista.

E nessa toada de um cinema que se ambienta na Hollywood dourada, mostrando o fictício estúdio Maroon, notamos como Zemeckis se apropria bem da metalinguagem e de suas possibilidades. É por esse quesito que consegue um resultado final tão aprazível, ainda que no primeiro ato as apresentações de personagem e a condução narrativa deslizem um pouco. É um diretor que aceitara o projeto que Terry Gilliam não topara. O diretor de Os 12 Macacos até esteve interessado, por um momento, em rodar Uma Cilada Para Roger Rabbitt, mas acabou por considerar que seria muito difícil tal feito. Robert consegue, e através de uma miscelânea.

Seu filme é investigativo, arranhando o noir, de ação, com suas perseguições insanas e um drama ao mesmo tempo. Tudo bem encenado e incorporado, principalmente quando analisamos toda a performance de Bob Hoskins, que viria a retomar a parceria com Zemeckis muitos anos depois em Fantasmas de Scrooge. Bob faz um tipo durão e sisudo, de comportamento pouco resiliente, mas entrega nuances quando o roteiro assinado à duas mãos, por Jeffrey Price e Peter S. Seaman, o coloca defronte situações enrascadas. Tem de salvar a própria pele e a daqueles a quem protege, como Roger, por não ter a mesma capacidade do coelho de morrer e voltar à vida num passe de mágica.

Três elementos merecem destaque: a trilha de Alan Silvestri, Jessica Rabbitt e as participações especiais. A trilha de Alan é tão sutil quanto brilhante por conferir a tônica de cada segmento, fazendo com que cada um deles se torne único no casamento de som e imagem – a articulação entre esses dois componentes é muito bem feita aqui. Jéssica, por que não, firma-se como uma das fêmeas fatais inesquecíveis do cinema, podendo dividir espaço num top contendo pesos pesados como uma Evelyn Mulray, de Chinatown, ou uma Lynn Bracken, de Los Angeles – Cidade Proibida. Só para citar dois nomes, que agora me vieram, de muitos possíveis na história do cinema.

Por fim, na análise de uma obra, a meu ver, tão resistente a revisões, cabe reafirmar o quanto Uma Cilada Para Roger Rabitt funciona dentro de suas várias faces e que uma delas, a do tributo, soe tão orgânica. Muitos personagens pouco conhecidos aparecem, lá pro final, quando conhecemos Toontown. Easter eggs brotam na tela. Mas a trama nunca é deixada de lado, não subestima a inteligência do espectador e consegue uma complexidade na medida certa – sem que se tenha uma narrativa poluída, tampouco rasa demais. Referências são feitas no momento certo e as surpresas nunca cessam, como a aparição até mesmo do Pica Pau, tão famoso personagem criado por Walter Lantz, e de Bety Boop. Dito isso, Uma Cilada não é um filme para crianças, é até mesmo errático num bom sentido. É politicamente incorreto de maneira sutil. Algumas passagens sugerem algo inapropriado para os menores. E é nessa ousadia de forma e conteúdo que Zemeckis se notabilizou em um campo desacreditado por Terry Gilliam.

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