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Críticas

Cineplayers

Dança amena.

5,0
Não há mais porquê tentar encaixar Gaspar Noé dentro de definições que tentem colocá-lo dentro de uma identidade específica, de alguma forma. Títulos como “provocador”, “polêmico” e até “misógino” já se tornaram comuns, quase banais para qualquer olhar sobre a filmografia do cineasta argentino, e de Sozinho Contra Todos até Love, é perfeitamente notável o olhar metafísico de Noé sob a inevitabilidade do ser humano em exprimir seu lado mais odioso, repugnante e condenável. Mesmo que isso signifique colocar em reflexo as próprias ideias politicamente incorretas do diretor.

Clímax não foge dessa regra, e por mais que esteja no panteão do que Noé realizou de mais ameno até agora, não deixa de ser uma experiência de lisergia horrorífica estimulante, porém equivocada na mesma (ou em maior) proporção. Elogiado desde sua estreia no Festival de Cannes e, inclusive, tendo saído da croisette com o prêmio da Quinzena dos Realizadores, Clímax é a maior busca de um filme de Noé pelo naturalismo e pela catarse na transmutação para um pesadelo descontrolado, sanguinolento, gritante e apocalíptico. Composto por um elenco de dançarinos, entre eles a também atriz Sofia Boutella (do remake fracassado de A Múmia), Clímax acompanha os membros de uma companhia de dança que experimentam sua própria descida ao inferno quando, durante um ensaio, a bebida é envenenada e os dançarinos começam a ter alucinações cada vez mais violentas e imprevisíveis.

Antes de se dar ao trabalho de dizer para o que realmente veio, entretanto, Noé ousa ao ancorar sua narrativa no movimento hipnotizante dos corpos dos dançarinos, descontrolados e ao mesmo tempo precisos na dança particular de cada um, e é nesse simbolismo do domínio sobre o corpo que Clímax deposita cerca de 40 minutos de projeção, com o elenco dançando quase que interminavelmente, entrecortados somente por alguns diálogos que dão uma pausa na excitante movimentação. A potência corporal é o verdadeiro narrador de Clímax, e Noé alcança uma organicidade quase inesperada com tal artifício, num primeiro momento surpreendentemente funcional.

Quando o roteiro descamba para o elemento desesperador da história, ou seja, o suposto envenenamento das bebidas, Noé perde boa parte do suporte que sustentava seu filme até então, personificando aí seu mar de referências (explicitadas na abertura, durante uma entrevista numa TV rodeada por fitas cassetes de filmes) que vão de Dario Argento até Pier Paolo Pasolini, passando por Andrzej Zulawski e finalizando em Luis Buñuel, mas cujo número de disparos muito mais atrapalha do que serve ao objetivo catártico de Clímax. Basicamente, a câmera se entrega a uma repetição incessante de recursos estéticos (ângulos, câmera subjetiva, distensão temporal, planos-sequências) sem muito frescor nessa busca desesperada pelo desconforto, pelo nauseante. Clímax, aliás, corre o sério risco de se assemelhar a uma extensão da sequência no bar gay de Irreversível com o efeito alucinógeno de Enter the Void, uma auto-referência que diminui a própria identidade de Clímax.

Dessa forma, Noé falha no estímulo das sensações visuais e sonoras quando não ultrapassa o que já lhe era esperado na proposta de bad trip: sexo, sangue, gritaria, inconsequência… um Noé mais ameno e prejudicado pelo senso de manter a ousadia que lhe é tão característica, e se em seu primeiro ato nos vemos diante de um cineasta dedicadissimo à força das imagens na captura dos movimentos, o segundo apenas demonstra que o responsável pela eternamente discutível cena do estupro de Irreversível, ao menos aqui, deixou a mão escorregar.

Comentários (1)

Antonio Montana | sábado, 09 de Fevereiro de 2019 - 01:14 | Responder

Eu ia escrever sobre o filme, mas depois dessa crítica não tenho mais nada pra falar. Perfeito, uma pena que Noé tenha perdido a mão por aqui...

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