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Compasso de Espera

(Compasso de Espera, 1973)
8,1
Média
6 votos
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Críticas

Cineplayers

O Herói Nu

9,5

Compasso de Espera (1973) é um filme indispensável. Mas se você chegou até aqui e não tem ideia da sua existência, não se assuste! O único longa metragem de Antunes Filho foi rodado entre 1969 e 1970 e, graças à censura, foi apenas lançado em 1973 com circulação reduzida. Para entender as razões do cancelamento do filme não são necessários muitos minutos, a obra traz o espectador direto à primeira fila do ninho negro teatral de umas das mentes artísticas mais invocadas da historia da arte brasileira.

Jorge é poeta e publicitário, apadrinhado por um velho ricaço, ex-patrão de sua mãe. O personagem magistralmente interpretado por Zózimo Bulbul, enquanto desfila como bon vivant da alta sociedade paulista, veste, na verdade, uma máscara que esconde o escravo alforriado às custas de uma relação não mais de servidão forçada, como a sua mãe vivera, mas agora como um cachorro de raça bem treinado para a sua madame.

Antunes Filho, possivelmente dominado pela leitura de Condenados da Terra, de Frantz Fannon, lançado em 1968 - autor fundamental para uma boa parte da intelectualidade da esquerda brasileira daquela época, incluindo Glauber Rocha, que há alguns anos antes havia sido parceiro de Bulbul em Terra em Transe (1967) - junta-se a este, que já se destacava pelos seus posicionamentos antirracistas tanto no cinema como na televisão, e lançam mão de um personagem que podia ter sido capa de qualquer edição de Pele Negra, máscaras brancas do autor martinicano.

Jorge vende-se a uma pretensa e vazia sensação do Ébano com juros permanentes a serem pagos aos moradores dos luxuosos condomínios construídos com o adubo das sobras do Navio Negreiro de Castro Alves, entretanto, o que torna o protagonista um personagem ainda mais interessante é a sua capacidade intelectual de conhecer o seu lugar e optar pelo o que ele mesmo define como “engolir sapos”.

Os caminhos da narrativa colocam-no num movimento constante pela linda e escura cidade de São Paulo e a falsa premissa de liberdade enjaula-o dentro de seu próprio circo. Apesar do filme estar sempre num movimento contínuo, o seu protagonista sempre está relacionado com uma situação que o mantêm, ainda que silenciado, abraçado com os significados que gritam de sua pele. Antunes, portanto, posiciona sua encenação cinematográfica transformando a Dolce Vita, de Marcelo Rubini vivida por Mastroianni num dos maiores clássicos de Federico Fellini, num palco negro da sociedade brasileira.

O roteiro leva o espectador a diversas situações de racismos dos mais variados tipos de enojos possíveis. Jorge em todas é impassível, enverga consigo além da máscara destacada, a capa de uma pretensa estratégia de estar no epicentro do capitalismo como publicitário em prol de conseguir fundos suficientes para produzir a sua arte subversiva na poesia.

A tentativa vazia de construir um castelo com os escombros da senzala é ovacionada pelos brancos, mas sempre problematizada pelos amigos negros. Numa das sequências de maior impacto do filme, o protagonista encontra-se numa discoteca com os amigos negros, que discutem sobre o movimento e as demandas do negro na sociedade. Quando questionado sobre o seu papel pelos companheiros, o plano aberto desmonta-se, transformando-se num primeiro plano que se move diante do apelo de Jorge não mais ao coletivo, e sim às suas pretensões individuais como homem negro e de classe média. A tensão, em câmera lenta, explode na tela. Jorge finalmente faz a sua escolha, rompe com o coletivo negro e segue o seu rumo ao lado da jovem Cristina (vivida por Renée de Vielmond). Desce pelo elevador da boate, decidido a fugir para o seu próprio quilombo, vestido de terno com a sua própria Sylvia, ou Escrava Isaura.

A escapada do casal que podia ser um momento de ode ao amor impossível e clandestino no litoral paulista vai muito além do que um homem negro pode sonhar. Sempre a pedir permissões, Jorge resolve atuar pelo seu próprio desejo em nome do amor. Percebe na pele que, mesmo escondido por trás da sua prepotência intelectual e econômica, vive numa sociedade racista, que não nutre qualquer apreço pela negritude, seja ela trajada com a roupa que for.

O ato romântico do poeta negro incompreendido transforma-se num horror visceral. Na já celebrada sequência da praia, o espectador congela ao ver toda a fúria da sociedade sobre o corpo daquele que era o herói, mas resolvera superar os limites da sua própria fantasia. O quilombo inter-racial desfalece-se nu ao ser violentado por um grupo de homens que não suportam ver os dois corpos estranhos e ao mesmo tempo íntimos na areia.

Depois de haver negado o quiabo servido pela mãe no subúrbio paulista para comer o banquete aos sorrisos na Casa Grande, Jorge confronta-se com as próprias ilusões, escorraçado, vê o privilégio do amor negado, depara-se, finamente, com a realidade de terminar a sua aventura heroica ébrio da sua hipocrisia.

Em o Compasso de Espera (1973), Antunes Filho mira tanto a Nouvelle Vague como o Neo Realismo Italiano para entregar ao espectador a depressão do homem negro que, mesmo com o pioneirismo da classe média e a orientação intelectual, está enterrado dentro de uma sociedade que emergiu de um barco racista, como já revelara Fannon. Mas, mesmo assim, constrói-se ainda na esperança de uma criança negra que vê o seu herói representativo fantasiado com o mesmo olhar da menina cega ao Vagabundo em Luzes da Cidade (1931), de Charles Chaplin.  

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