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Críticas

Cineplayers

Uma revanche morna.

6,0
Vencedor do Oscar de Melhor Filme, a obra Rocky - Um Lutador brilhou ao apresentar a história de Rocky Balboa, um homem que vivia em condições difíceis e que supera os percalços ao enfrentar de igual para igual um campeão do boxe, Apollo Creed. Através dos anos, Stallone estaria envolvido em mais seis continuações da saga de Balboa, uma delas sendo Rocky IV (1985), típico filme da Era Reagan que resolveu o conflito Estados Unidos x União Soviética na base da troca de socos e introduziu o icônico vilão russo Ivan Drago, responsável por um dos momentos mais dramáticos da série: todos que assistiram lembram da luta covarde que Apollo caía desfalecido no chão, segurado por Rocky, e o gigante soviético apenas encarava friamente e decretava: “Se morrer, morreu”. 

Mais de trinta anos depois, com Rocky tendo vencido Drago e feito justiça, os eventos serem fundamentais para a criação da sequência espiritual Creed - Nascido Para Lutar. O filme foi talvez o mais bem-criticado da franquia desde o primeiro, conseguindo uma indicação de Sylvester Stallone ao Oscar de Melhor Ator coadjuvante e lançando seu time para o estrelato: todos os novatos, o diretor Ryan Coogler, o ator Michael B. Jordan e a atriz Thessa Thompson carimbaram passagem para os blockbusters, os dois primeiros colaborando em Pantera Negra e Thompson interpretando a Valquíria em Thor: Ragnarok

Agora, em 2019, chega aos cinemas brasileiros Creed II, que tem sua importância primeiramente por conta de Stallone afirmar que essa é a sua última aparição como Balboa, que no filme anterior sobreviveu à batalha contra o câncer e agora acompanha seu pupilo, o atual protagonista Adonis Creed, conquistar o título de peso-pesado do boxe e ser então desafiado por Viktor Drago, o calado filho de Ivan, que perdeu família, prestígio e emprego após a derrota para o Garanhão Italiano.

Dessa vez, o espetáculo pugilista é comandado por Steven Caple Jr. (The Land), que foi colega de faculdade de Coogler e que faz um filme que começa promissor, introduzindo os amargurados antagonistas antes mesmo de situar os triunfantes protagonistas na história, mas que não consegue alcançar o mesmo impacto dramático de Creed - Nascido Para Lutar.

O diretor não é desprovido de potencial: apesar da falta de um cuidado mais polido na edição do filme (há câmeras estáticas cortando bruscamente para panorâmicas durante diálogos), sabe compor belos enquadramentos e, nas vezes que aposta nisso, nos personagens “perdidos” em meio ao ambiente e sem saber resolver, extrai uma força dramática sem precisar que o roteiro diga muito. Também sabe administrar as cenas de luta com certa tensão, lembrando através do enquadramento o investimento que Rocky e Ivan também tem no embate, aqui talvez só perdendo a mão em um abuso de super slow motion que serve mais como adorno.

Porém, o mesmo roteiro também falha para guiar seu próprio conflito ao espelhar a vida do clã Balboa/Creed e Drago: após a introdução dos russos na história, suas participações vão à míngua e o foco narrativo se volta de maneira requentada para a história de superação de um pugilista que nem arranha a força anterior. Viktor Drago só deve dizer sua primeira fala após à primeira fala do filme, mas acionado até que não faz feio. Ivan Drago talvez tivesse sua chance de mostrar um pouco de humanidade e um material dramático para Dolph Lundgren exercer seu potencial como Stallone já o fez, mas é uma participação tão pequena que qualquer simpatia com os vilões é praticamente impossível: no todo, só parecem ressentidos, gananciosos e sem muitos escrúpulos, como boa parte dos vilões de filmes que envolvam torneios de artes marciais.

Lá pelas tantas, é fato que Creed II vai perdendo bastante do seu fôlego em narrar a ascensão e queda de Adonis em deixar de lutar por orgulho e começar a lutar por si, pela família, por amor ao esporte e mesmo que as sequências-sumários que abordam os treinamentos de Creed e Drago tenham funções diferentes na trama (apresentar a força do antagonista e apresentar a garra do protagonista) acabam sendo um tanto repetitivas, pois são puramente fragmentados acompanhados de música épica envolvendo exercícios físicos variados e até absurdos, em aceno ao intenso treinamento da geração crossfit atual. 

Ao menos, o estofo dramático do filme é competente, introduzindo elementos como a gravidez de Bianca e o noivado do casal principal servindo como fonte de preocupação mas também porto seguro para o protagonista, bem como a dificuldade de Balboa em reestabelecer contato com o filho. Ainda assim, o real embate final dos dois é menos interessante do que os tropeços que tem que encarar na vida, o que é irônico em um filme de boxe. Com um aprofundamento sugerido, os Drago só servem como obstáculo ou saco de pancadas que sintetizam as verdadeiras lutas de seus protagonistas.

Com isso, a luta final tem sentimentos mistos: é muito bem sucedida em equacionar os combatentes, o passado que os acompanha, acerta ao esticar ao máximo a demora para o resultado final. Mas também é previsível, introduzindo o tema antes da hora, dando a certeza da vitória e fechando um tom muito mais forçadamente motivacional que fora o anterior, que realmente “trabalhou” a conquista de Creed. 

Dessa forma, ao menos em matéria de força dramática, a “luta do século” dos filhos Creed X Drago ainda é um empate técnico. Com bons momentos, com certeza - a graça de Rocky sempre foi mais o drama urbano que propriamente a pancadaria. Mas fica a sensação de que faltou um algo a mais.

Comentários (2)

Phillipe César Mendes Lemos | segunda-feira, 28 de Janeiro de 2019 - 08:41 | Responder

Infelizmente um potencial perdido.
Os primeiros minutos com a família Drago me encheram de esperanças para uma sequência ainda melhor do que o primeiro filme, no entanto, o material final não justificou a minha aflição em aguardar um intervalo de quase 2 meses entre o lançamento norte americano e o brasileiro.

Perfeita as observações de Bernardo Brum, concordo com todas.

Matheus Gomes | terça-feira, 29 de Janeiro de 2019 - 23:28 | Responder

Bem, vamos lá. O fator nostalgia e carinho pela franquia fazem a diferença na hora de avaliar esse filme. Reconheço que: a) é inferior ao primeiro Creed; b) a carga dramática tinha potencial de ser MUITO maior. Ivan Drago soou caricato, como afirmado pelo Bernardo; inescrupuloso e ganancioso; uma abordagem pueril. As cenas de luta continuam um show a parte - embora o excesso de slow motion atrapalhe aqui e acolá, mas nada comprometedor. EM SUMA... Há defeitos, mas tem seu valor; principalmente para os fãs da franquia (como eu).

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