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Crônica Francesa, A

(The French Dispatch, 2021)
7,0
Média
51 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Cidade em revista

10,0

O trabalho de Wes Anderson em torno da nostalgia marcou esteticamente os filmes que dirigiu principalmente pelo reconhecido esforço na construção de visualidades referentes a épocas anteriores. Assim, A Vida Marinha com Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, 2004) e Moonrise Kingdom (2012), mesmo sendo filmes ambientados em períodos históricos diferentes, ambos se dirigem a seus objetos de cena com um desejo pela recuperação do detalhe perdido. Esse desejo tem sido há muito tempo lido como um traço ou capricho autoral de Anderson e associado especificamente ao trabalho de direção de arte dos filmes (realizada por Adam Stockhausen há uma década). Se, felizmente, sua filmografia até Moonrise Kingdom já teve críticos que foram além da constatação dessa encenação reiterada, seus últimos filmes, em especial O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014) e A Crônica Francesa (The French Dispatch, 2021), demandam já em princípio um olhar que compreenda a dimensão maior desse desejo pelo objeto e detalhe perdidos em seu cinema.

A Crônica Francesa se apresenta em torno de uma revista ficcional marcadamente inspirada na história da ainda existente The New Yorker. O filme se divide em capítulos segundo os ensaios e artigos de um dado número da revista. Com múltiplos narradores, cada capítulo se elabora a partir dos pontos de vista, estilos e interesses desses jornalistas imaginados. O formato é um encontro feliz com a tendência de Anderson de escrever filmes com múltiplos personagens em mosaico, mas A Crônica Francesa não deve ser entendido como um conjunto de histórias curtas distintas reunidas em um longa-metragem.

Para considerar o que faz deste filme completamente coeso mesmo partindo de uma estrutura de múltiplas vozes é preciso pensar a principal transição feita pelo filme em relação à revista que serviu de inspiração. De Nova York para a Paris, A Crônica Francesa assume uma postura de contemplação da história cultural parisiense, incluindo referências audiovisuais bem diretas a obras do cinema francês, como Meu Tio (Mon Oncle, 1958) e Bando à Parte (Bande à Part, 1964). Desse modo, o escopo do filme toma lugar, encontra um chão em que todas as suas histórias podem colocar os pés. Isso não significa que a aparição de Paris seja exatamente realista ou fidedigna à história da cidade. É uma Paris de cenários fabricados, em que se fala inglês e em que os fatos históricos que são referidos são vastamente reinventados, mas a maneira como o filme elabora essa cidade fantasiosa ainda permite que as narrativas sempre se voltem de volta para ela, para a construção desse lugar artificial por uma revista de mentira.

Quando inventa Paris, o que A Crônica Francesa faz é reconhecer que a Nova York da The New Yorker é também inventada, uma elaboração criativa de escritores, ensaístas, críticos e jornalistas que amam a cidade, mas que a relatam não pelo cinema (com seu compromisso quase inerente de realismo), e sim pela escrita. Assim, o artificialismo típico da encenação de Anderson ressoa como um modo de recuperar as fabulações dessa outra mídia, que tem aos poucos desaparecido do imaginário coletivo. Textos e imagens de função enfaticamente ilustrativas se tornam a principal maneira de o filme nos comunicar a sua Paris em revista.

Anderson, no entanto, não pode jamais ser um diretor relacionado a qualquer vertente de cinismo. E se os artigos ficcionais que ele apresenta falsificam algo, há sempre ali também, na sua superfície (um lugar tão importante para o cinema de Anderson), algo de uma verdade afetiva expressa de forma muito direta, sem nenhum rodeio ou necessidade de olhar mais a fundo. É interessante como, em A Crônica Francesa, os momentos em que isso se expressa se dão pela revelação das rasuras no texto, as histórias dentro das histórias, as folhas descartadas, a inserção de outro no texto de uma dada autora.

O desejo pelo objeto perdido de Wes Anderson toma aqui, para além da sua já bem identificável imagem, forma nesses processos fragmentários, vagos, pouco confiáveis com que se escrevem histórias. O jornalista interpretado por Jeffrey Wright garante que lembra de todos os seus artigos palavra por palavra. E é ele justamente quem nos apresenta uma narrativa cheia de desvios e digressões diversas. Não é fácil acompanhar a sua história com atenção. Na minha experiência, achei quase impossível. Na tentativa, devolvo a Anderson como espectador o desejo de apreender algo que me escapa e que, embora esteja contido na imagem, na superfície, no campo mais raso do visível, continuará nos escapando a cada nova aparição. Sigamos com a busca.

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