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Dama do Cine Shanghai, A

(Dama do Cine Shanghai, A, 1987)
6,5
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Críticas

Cineplayers

Não vá ao cinema

8,5

A Dama do Cine Shanghai (1987) é o filme mais reconhecido da carreira de Guilherme de Almeida Prado. A obra conta com um elenco estrelado de atores que fazem parte do senso comum de qualquer brasileiro. Um deles, o próprio protagonista, Antonio Fagundes, vive Lucas Cortázar, ex-boxeador, cafajeste, paulista e, claro, cinéfilo.

Sim, possivelmente quando se pensa sobre o cinema do Almeida Prado, a palavra “cinefilia” brilhe em algum comentário. Esse lugar-comum tão repetido é analisado pelo próprio realizador em entrevista ao crítico Lucas Reis (idealizador deste especial em homenagem à obra do diretor) de forma positiva e bem-humorada, afinal, diz gostar mais de ver filmes do que de fazê-los. Portanto, apesar da evidente e confirmada aproximação com A Dama de Shangai (The Lady From Shangai, 1947), de Orson Welles, entendê-la como referência nua e crua não basta.

Para desfrutar do “Jogo de Amarelinha” em que é colocado, o protagonista e narrador “falso onisciente” ao encontrar-se pela primeira vez no Cinema Shangai com Susana (vivida por Maitê Proença) — ou “Dama Brasileira” ou, ainda, aos leitores de Cortázar, “La Maga” —, um possível e interessante caminho é observá-lo como um exercício de fabulação da personagem com o seu amante narrativo e, evidentemente, literário.

Aventura capaz de ser vivida apenas por uma pessoa que passou boa parte de sua vida conectada com histórias, contos e fábulas dos mais variados cantos do globo, ou ao bom leitor simplesmente: uma sala de cinema. Não qualquer uma. Tinha de ser quase vazia, sem ar condicionado, no pulmão da cidade de São Paulo, dominada pelo coração melodramático da América Latina. A Dama de Guilherme de Almeida Prado é noir até o talo, como a Chinatown (1974) de Roman Polanski, e todas as outras referências no filme, mas é ainda mais brasileira que tudo isso.

A capital paulista do final dos anos 80, que explodia como uma cidade eminentemente urbana e cosmopolita no coração do continente dominado pela desigualdade, é conduzida pela fumaça do cigarro de Lucas que, a cada pensamento, enreda o tempo narrativo, e a si mesmo, numa trama motivada pela perseguição de um vilão chamado “Mickey”. A incansável investigação por sua inocência passa a ser acompanhada por noites de paixão arrebatadoras com Susana, a mulher fatal, tão intrigante quanto manipuladora.

O ritmo nebuloso desse narrador que se julga imbatível transforma-se ao encontrar com as cores de Suzana; o feitiço da Maga do Cine Shangai é tirá-lo da mediocridade da nova vida de corretor imobiliário para transformá-lo em narrador e protagonista de uma história excitante, mas que desde o princípio, sem nenhuma possibilidade de final feliz, faz Lucas levantar-se da poltrona e atirar-se de cabeça em confusões dignas de qualquer Humphrey Bogart.

Além da referencialidade e da metalinguagem, a bravura de um dos filhos mais aclamados da Boca do Lixo está em construir um protagonista capaz de viver além dos limites — não por aquela mulher, por aquele grande amor, mas pela história. Estória essa, como já vimos, dona de requintes de realismo fantástico por conseguir fabular um encontro num dos gêneros mais sofisticados do cinema, e vesti-lo de melodrama latino. A escola, na produtora cinematográfica que mais pensou num produto nacional, de qualidade, mas acima de tudo popular e para ser visto.

A Dama do Cine Shanghai é a válvula que o protagonista necessitava para abandonar o abafado terno e montar o seu próprio jogo de ir do céu ao inferno. O amor não basta, o cinema basta. Ainda que Lucas Cortázar comece sua história reafirmando os perigos de entrar numa sala vazia de cinema de rua, qualquer leitor atento deve saber que um bom narrador que se preze sempre está pronto para enganar.

Não vá ao cinema, nobre cinéfilo.

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