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Darkman - Vingança Sem Rosto

(Darkman, 1990)
6,5
Média
103 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A vertiginosa vingança sem rosto

8,5

Notório filme acerca do mito do herói quadrinístico no combate entre a aceitação e o isolacionismo de um ser mediante um espectro trágico. Aqui há uma figura desastrosa que não se encontra mais encaixada em sociedade por culpabilidade de figuras execráveis em esquema de conjuntura adentrado na especulação imobiliária com uso escuso de limpeza social via empreendedorismo. Um comentário aos yuppies escrotos da era Reagan.

Sam Raimi vinha do sucesso de fitas de horror tais quais A Morte do Demônio (Evil Dead, 1981) e Uma Noite Alucinante 2 (Evil Dead II, 1987), que se unem entre si para a montagem e remontagem de uma estória horrorificamente prática e criadora de escola. Em Darkman ele teve a oportunidade de levar não só as trucagens de câmera que já lhe eram características nos filmes citados, mas também a climatização acelerada, exagerada e cínica que este tipo de fita já propunha. Somando isto ao caráter de filme de gângster em tom de revista em quadrinhos, com seus abusos invocados, não esquecendo dos elementos de horror que também perambulam a fita – vide a caracterização do pavoroso personagem principal. O encaixe deste descomedimento é plenamente útil na fita quando temos o estabelecimento óbvio dos personagens em seus primeiros minutos, assim como o conflito de seu protagonista em como resolver sua situação dramática ao agir em prol de uma vingança frontal. Ademais, o sujeito – que é um cientista em vias de uma grande descoberta – teve seu corpo queimado por figuras que necessitavam do espaço do seu laboratório e, a partir disso, ele vai atrás de se vingar dessa turma.

Obviamente as conveniências do roteiro saltam a vista, como o fato da vultosa invenção do sujeito ser a criação de máscaras de pele artificial, já que ele perde a cara em seguida (algo que acaba por se tornar uma arma útil e inescapável), ou que um dos grandes vilões da obra seja um capitalista psicopata que é chefe da namorada do cientista. Aquela escapada de roteiro marota. Tudo oportunamente malandroso, mas funcional à trama, que preza bem mais pelo clima e ação que propriamente pelo seu roteiro, inclusive este último acaba por ser uma amálgama de várias características de personagens calamitosos em busca de expiação que perpassam da literatura ao cinema, onde invocam-se desde O Corcunda de Notre Dame, Fantasma da Ópera e até ao Hulk. Com características dos clássicos párias sociais que comutam da introspecção e sofrimento à expiação oportunizada por vontades e poderes adquiridos pelos mesmos – aqui o Darkman para aguentar a vida de dores por conta de seus ferimentos, teve o sistema nervoso cortado para perder a sensibilidade, o que acarretou ao seu sistema um surto de adrenalina pelo corpo deixando-o mais forte e psicótico. Esta busca por salvação é citada a todo momento como mote narrativo de oportunidade perdida e transfiguração própria que mantém o Darkman como um pária social, que estaria relegado às sombras que sua horrenda aparência permita. Isto serve para por em perspectiva o desejo de vingança que transformar-se-á em heroísmo via justiçamento na conclusão da jornada.

O personagem fatídico existe para causar uma comoção no expectador que a partir dos traumas a olhos vistos, é manipulado a sentir empatia por aquela figura horrorosa. Inclusive por seus desejos iniciais serem mundanos pela questão do amor perdido e por buscar vencer em sua jornada profissional. Uma figura eminentemente humana que metamorfosear-se-á numa espécie de criatura munida de poderes contra a vilania apontada. É jogar na segurança – Raimi sabe –, e para isto der manobrado na fita precisar-se-ia invocadamente de um protagonista forte e bem defendido para que a questão desta empatia viesse a calhar. Por isso a escolha do Liam Neeson foi ninja. Ele consegue convencer como um cientista a beira de uma grande descoberta em meio a um relacionamento amoroso que cambaleia aqui e acolá, mas que mantém o público interessado, até virar monstro entupido de uma maquiagem (esta sendo espetacularmente memorável) que o deixa irreconhecível, e Liam sabe usar bem sua envergadura e seus trejeitos para manter-se ameaçador. Monstruosamente ameaçador e trágico ao mesmo tempo.

O estabelecimento do universo é escrito funcionalmente e assim causa interesse. O protagonista tem camadas suficientes pra sustentar o negócio todo. Mas e o diabo das escolhas de direção? A escolha deste projeto nas mãos do seu diretor o permitira investir nas suas citadas trucagens – unidas à outras – com o uso de um orçamento mais parrudo, o que deixa o filme com cara de cinema B com grife. Algo que se mantém com um divertido frescor de estar-se deleitando diante duma obra frenética que tem ritmo de montanha russa onde, ou busca o drama de sua figura monstra, ou apela nas cenas de ação inspiradas de Raimi que nos propõem uma tensão justificada pela crescente insanidade de seu protagonista no caminho percorrido. A aceleração das imagens através da diminuição dos frames funciona no código de tensão (algo que o mestre George Miller também o fizera na sua saga Mad Max), além do colorido tétrico que é proposto de maneira franca em apontar aqueles lugares especificamente com suas formas e cores distintas. Desde o laboratório do começo, ou nas cenas em meios as ruas, ou no seu final em prédio em construção. Com escolhas de cenário e arquitetura bem delineadas com uma cara óbvia de marcação de personalidades via cenários e cores, como é usualmente feito em revistas em quadrinhos. O que deixa clara a motivação para a escolha de Raimi para o que se seguiria em filmes sobre personagens de banda desenhada dali em diante tendo nas mãos alguns filmes responsáveis pela base da enxurrada de material do subgênero dos anos 2000.

Raimi não se furta de seu estilo, o imprime com a força que assim ache necessário, mantendo um material de personalidade e impacto visual que acerta ao manter o espectador proeminentemente atento dentro daquela viagem sem freio proposta. Autorismo sempre é necessário. Foda pra cacete.

 

Comentários (1)

Carlos Henrique | segunda-feira, 04 de Julho de 2022 - 14:44

Ótima crítica para um dos melhores filmes de super-herói (e talvez o melhor Raimi). Obs: a crítica não tá aparecendo na página principal do site.

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