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Críticas

Cineplayers

O mais novo candidato a cult do cinema americano.

8,0

De Volta ao Jogo (John Wick, 2013) é um espécime raro de ser encontrado no atualmente árido cinema comercial norte-americano. Trata-se, afinal, de um filme de ação adulto, que não tem medo de mostrar sangue e violência brutal, preferindo ser verdadeiro a si mesmo do que ceder aos seus princípios para alcançar uma classificação juvenil. Mais do que isso, De Volta ao Jogo se destaca por não trazer crises existenciais ao protagonista ou buscar a seriedade que tem se tornado comum em grandes produções do gênero; é, pura e simplesmente, ação e pancadaria (quase) do início ao fim, em um filme realizado com estilo e extrema competência por dois cineastas novatos.

Chad Stahelski e David Leitch (este segundo não creditado, em função das regras do DGA) sabem o material que têm em mãos, e trabalham com absoluta certeza do filme que pretendem realizar. Os primeiros minutos de John Wick já deixam claro o que o espectador terá pela frente: poucas palavras, economia narrativa e uma abordagem direta ao ponto. Este início, aliás, já demonstra a eficiência do trabalho dos diretores e do roteirista Derek Kolstad: mesmo sem perder tempo, eles constroem ali a base que irá sustentar o filme, tornando crível a relação do protagonista com sua esposa e, obviamente, com o cachorro.

É interessante também a forma como, na construção dessa identificação da plateia com o personagem, os cineastas apresentam seu protagonista. O primeiro ato jamais mostra John Wick em ação; no entanto, as conversas entre os demais personagens e o medo (ou respeito) que possuem dele deixam claro para o espectador que aquele não é um homem com o qual se deve brincar. Assim, antes mesmo de Wick partir em sua jornada de vingança, antes mesmo de dar o primeiro tiro, a plateia sabe que está ao lado de alguém lendário naquele submundo, com uma aura quase sobre-humana e extremamente eficiente naquilo que faz.

E eficiência é a palavra que melhor descreve John Wick. Stahelski, Leitch e Keanu Reeves fazem do personagem alguém que não gosta de perder tempo, partindo direto ao que interessa – e nada deixa esse ponto mais claro do que o fato de eliminar praticamente todas as suas vítimas com um tiro na cabeça, encerrando ali qualquer possibilidade de recuperação dos inimigos. Nesse sentido, Reeves revela-se uma escolha acertadíssima para o personagem: se alcance dramático nunca foi seu forte, o ator sempre se deu bem em papéis que exigiam apenas forte presença em cena, como é o caso de John Wick, com suas poucas palavras.

Entretanto, o show é mesmo de Stahelski e Leitch. Com longa carreira em Hollywood como dublês, os cineastas exibem total senso de ritmo e mostram-se incrivelmente à vontade na realização das cenas de ação – e, ainda mais importante, revelam saber filmar estes momentos melhor do que muitos diretores “experientes” por aí. O grande acerto da dupla é não cair na armadilha do excesso de cortes, tornando as sequências de luta e tiroteios facilmente inteligíveis para o espectador – além de serem incrivelmente divertidas, como toda a cena na boate. Como se não bastasse, De Volta ao Jogo é um filme que transborda estilo: Stahelski e Leitch fazem de tudo para dotar o seu trabalho de uma aura cool, desde o fato de Wick usar terno para partir em sua vingança, passando pelos planos bem compostos e chegando até à paleta cinzenta, que evita as cores quentes.

Como se pode imaginar, o roteiro não é o forte de De Volta ao Jogo – e nem é essa a intenção. O texto de Kolstad é, sim, extremamente eficiente na construção de um universo particular, com seus códigos próprios (não me incomodaria nem um pouco se decidissem fazer um filme baseado no personagem de Ian McShane e seu intrigante Hotel Continental), além de acertar em suas tentativas de humor (a cena do policial que bate à porta de Wick é impagável), mas, de resto, o filme segue uma narrativa bastante simples, sem surpresas, inclusive resvalando em clichês do gênero, como o filho imbecil do chefão e o sempre inexplicável momento no qual o vilão decide falar mais do que deveria ao mocinho, ao invés de matá-lo logo. Nada disso, porém, chega a incomodar; na verdade, é algo esperado, apenas mostrando como é possível se fazer um ótimo filme a partir de uma premissa tão básica. De Volta ao Jogo tem personalidade própria, ao contrário de produção genéricas e pouco inspiradas como Os Mercenários, por exemplo.

Adotando ainda uma empolgante trilha rock n’ roll, que se encaixa perfeitamente ao filme, De Volta ao Jogo é o típico macho movie: poucas palavras, quase zero conteúdo, carros poderosos e muita violência. Mas, acima de tudo, é um filme extremamente eficiente e absurdamente bem realizado, alcançando sem dificuldades todos os objetivos aos quais se propõe. Um indiscutível candidato a cult e justo concorrente à posição de melhor filme de ação do ano.

Que venha logo a inevitável continuação.

Comentários (31)

Victor Ramos | terça-feira, 03 de Fevereiro de 2015 - 23:51

Mas Busca Implacável até aqui não fez feio. :(

Caio Henrique | terça-feira, 03 de Fevereiro de 2015 - 23:56

Meu velho, achei o segundo muito aquém comparado ao primeiro e o terceiro então, nem se fala...
Pra mim, ele acabou perdendo a identidade montada no primeiro filme que, acredito eu, nasceu para ser somente um e não uma franquia.

Victor Ramos | terça-feira, 03 de Fevereiro de 2015 - 23:59

Tinha pensado o mesmo até assistir ao segundo. Acredito que as sequências conseguiram se segurar bem de forma independente (claro que mantendo os laços de uma série comum, mas ainda assim cada filme adquiriu um valor próprio), acho isso muito válido.

Diego Henrique Rezende | sexta-feira, 03 de Abril de 2015 - 11:44

Concordo com os pontos de vista expostos pelo Pilau. Não espero esmero no roteiro nem muitas firulas. O que empolga é a violência e o jeitão cult - vide Drive, com Ryan Gosling. Valeu a pena.

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