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Desejo e Obsessão

(Trouble Every Day, 2001)
7,9
Média
80 votos
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Críticas

Cineplayers

As obsessões de Claire Denis ou a simples razões para amar

9,0

É impossível sair de uma sessão com um filme da Claire Denis sem que a experiência não se mantenha viva nos pensamentos. Não afirmo isso somente pela sequência do famoso orgasmo galáctico de Juliette Binoche em High Life (2018). Não estamos falando apenas sobre registrar o absurdo - mesmo dentro da superficial tranquilidade que vemos em algumas cenas de 35 doses de Rum (2008) –, trata-se primeiro da meticulosidade para chegar até ele, depois de como mostrá-lo, e principalmente, como esses dois pontos devem alcançar o público.

Em Desejo e Obsessão (2001), somos apresentados a vários acontecimentos dispersos na grande Paris: desde o manuseio de um cérebro por um neurologista a jovens invadirem uma casa habitada por uma mulher, ao passar por um médico negro normalista sendo enganado por um paciente até uma cena absolutamente sanguinária. Todos esses caminhos conduzidos por um fio condutor que ainda chegará à capital francesa: recém-casados americanos em plena lua de mel à cidade do amor.

Tudo o que poderia ser um grande documentário de Chris Marker de abertura dos anos 2000, sobre a realidade parisiense em contraste a mais um casal rico a desfrutar dos dólares e esquecer da própria realidade frustrada enquanto sonham com um fim de semana nas cores de Jacques Demy, toma lentamente contornos do cinema de gênero de As Diabólicas (1955), de Henri-Georges Clouzot.

A mão da construção de um relato ficcional por parte de Denis evidencia-se quando, num plano fechado do rosto atormentado de Shane Brown (Vincent Gallo) a caminhar pelo corredor do hotel em plena lua de mel ao lado da esposa, June (Tricia Vessey), o foco muda para revelar o olhar tenso do protagonista à nuca da camareira que leva suas enormes bagagens. Não sabemos a razão de sua angústia, mas entendemos que sua busca é premeditada. Nesse simples movimento de foco expõe-se a obsessão sexual do protagonista controlada por remédios e adornada pelo casamento perfeito.

O suspense está instaurado, ainda assim não há sobressaltos. O relato amplia-se em espaços narrativos que por si só instigam o espectador. O título original em inglês, que mostra problemas em todas os cantos, ganha significado. Passamos a navegar num verdadeiro campo minado de possibilidades, o estilo da cineasta francesa articula-se banhado pela libido ou limite da curiosidade sobre o sexo, entre a culpa e la petit mort - ou como os franceses falam de orgasmo.

Não há gritos, nem estrondos por todos os lugares, a direção constrói-se pelo espaço ao silêncio. O terror estar no permanecer daquela visceral compulsão. Desde o carnívoro olhar de Gallo à vagina de sua mulher no banho, ou o mistério por trás do lavar dos pés da camareira num sujo banheiro de serviço de um hotel cinco estrelas, ao limpar carinhoso de Leo (Alex Descas) no corpo ensanguentado da misteriosa Coré (Beatrice Dalle) até chegar aos tensos diálogos entre os dois doutores de vertentes completamente opostas nos estudos acadêmicos sobre os limites do orgasmo. A montagem desse quebra-cabeça precisa ser feita pelo público, a essa altura em firme estranhamento por tudo que já viu ou em total êxtase por mais.

E há mais, muito mais, e esse é o jogo da Claire Denis conosco, pobres mortais lineares. A síntese estética entre imagem e som desse misterioso exercício visceral de montagem narrativa impregnada de sexo e sangue proposta ao espectador expressa-se numa sequência de primeiríssimo plano formidável entre Gallo e Vessey, vemos nos detalhes do eriçar dos pelos do casal Brown o encontro entre passado e presente de todos os personagens do filme. Toda a complexidade desenvolvida se resume na aparente simplicidade do que há mais íntimo entre marido e mulher: para alguns o rumo de todas as escolhas, o fim da lua de mel, ou simplesmente os motivos para amar-te.

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