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Críticas

Cineplayers

O funeral das ilusões.

9,0
Michelangelo Antonioni filma seu primeiro filme colorido, este que pode ser assimilado por alguns como uma extensão correlata de sua célebre trilogia da incomunicabilidade que filmara anos antes: A Aventura (1960), A Noite (1961) e O Eclipse (1962). O Deserto Vermelho é um penoso drama que conta sobre um período da vida de uma mulher infeliz em sua redoma de relacionamentos, entre amigos, marido e filho; ofuscada pela fumaça industrial que rouba as cores de todo o filme com um amarelo entorpecido, acondicionando uma constante sensação de aprisionamento, de profunda tristeza, de desesperança e amargura. É um trabalho que circunda um caso de depressão.

Giuliana (Monica Vitti) é quem caminha pelas paisagens tomadas por poluição e quem intimamente questiona seu papel naquele meio asfixiante. Solitária entre amigos, percebe em seu marido uma distância que lhe mantém cética diante a felicidade prometida pelo amor romântico; e o filho, sua paixão e a quem defende, convivendo com adultos e com um robô, ratificando uma espécie de exílio diante a ausência de pessoas de sua idade. Mais parece uma criança sendo preparada para um dia assumir algum cargo importante nas empresas progressistas da cidade. Antonioni trata de aspectos da modernidade exprimindo a tecnologia ocupando lugares onde supostamente deveria haver brinquedos. 

Durante um dia qualquer, Giuliana conhece Corrado Zeller (Richard Harris), que dedica a ela a atenção que não tinha em casa. Ao perceber a oferta da escuta, fala sobre o que intimamente sente e o relacionamento entre os dois ganha notoriedade, já que a carência acaba suprimida a um interesse confundido com paixão nessa estima furtiva. A habilidade de comunicação humana, ou a falta dela, tema o qual o diretor tão bem trabalha, encontra um novo cânone, evocando dessa vez a angústia, a percepção de um vazio traduzido nos diálogos ressentidos e pouco otimistas. 

Os personagens respiram frustrações.  

Ao que determina o tédio de uma burguesia desalegre, assistimos um grupo de amigos interagir em um quarto com paredes vermelhas mal pintadas, falando de diferentes assuntos, tratando o sexo como tema banal em piadas escapistas da inconformidade frente as suas condições amorosas, moralizadas pela impermanência de suas aspirações nos relacionamentos e nas carreiras. Não há, ali, felicidade que perdure, mas noções de prazeres fugazes que garantam alguma alegria travestida de satisfação. É ótimo ver como as paredes estragadas se quebram com facilidade e todo aquele universo se despedaça, numa metáfora visual de desmantelamento.  

Em cena, os fragmentos de uma sociedade frente as ameaças da modernidade, com a industrialização envenenando as vidas do povo de Ravenna, na Itália. No meio e no ar, as ilusões da felicidade se dissipando, como se a obra de Antonioni, em sua inércia cadenciada, exprimisse as frustrações do progresso que os personagens tanto ouvem falar, mas não percebem atingir; exprime as obsessões de uma vida que seja abertamente feliz, mas cuja felicidade não é identificada. 

É neste ambiente que Michelangelo Antonioni coloca seus personagens fragilizados pela indiferença dos outros, prostrados diante o consumo que os oprimem, gerando a costumeira e deliberada noção de insignificância. O poder assombra Giuliana que se vê pequenina quando olha para o alto e enxerga as fábricas, os operários saindo de casa e deixando a família pelo trabalho. O cineasta demonstra ainda mais seu controle imagético ao revelar as vistas de seus personagens, como exemplo a janela que dá para o mar, onde é possível ver cargueiros tão próximos, tampando a vista da paisagem do oceano. Assim, o futuro parece interrompido por uma imensa parede de aço, quase que instransponível. 

Sobre a depressão, parece que a história a questiona através da maneira a qual seus personagens interagem com seus meios. Alguém pergunta como se deve olhar o mundo, enquanto outro indaga como deve-se viver nele. Questões vagas, cujas respostas jamais são fornecidas, espelhando a abordagem estética de seu realizador, em sua forma de ver e conceber o universo do filme.  Antonioni faz isso através das cores e sua interferência sobre elas, ora pintando espaços com cores que se destacam e em outros instantes envolvendo-as com um cinza melancólico. Cada cor evidentemente corresponde ao instante emocional de sua protagonista, fotografada com luxúria e revelando profundo mal-estar. Monica Vitti nos afeta.

Antonioni dirige um filme que pode ser comparado a uma tela de um impressionista que destaca cores vibrantes em meio a imoderados tons de cinza. Há uma sensação de vida pulsando naquele meio descolorido quando se observa o verde ou o amarelo de um casaco em movimento, revelando a face taciturna de seus caminhantes que cortam as ruas e campos, vendo à frente enormes chaminés expulsando fumaça, como se tossisse doenças. De tantas maneiras, O Deserto Vermelho transmite a noção do que é experimentar e viver tal mundo. Frente a dureza e agonia ocasionada pela existência e perante a habitual e certeira sensação de incapacidade que leva ao desejo de alguém pelo próprio fim, por vezes, ao que parece, a pratica do sofrimento ensina a suportar a angústia. É possível aprender a lidar com as desilusões e se esquivar dos suplícios, tal como pássaros que aprendem a evitar a fumaça por lhes fazer mal.

A ilusão da felicidade padece. Triunfa a vontade e a insistência pelo que ainda há.

Comentários (1)

Bernardo D.I. Brum | segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019 - 17:28 | Responder

Um dos filmes mais desesperadores que já vi, meu Antonioni preferido e um dos meus filmes preferidos. Parabéns pelo texto, Marcelo!

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