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Destacamento Blood

(Da 5 Bloods, 2020)
7,1
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84 votos
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Críticas

Cineplayers

O revisionismo das feridas abertas de Spike Lee.

7,0

Destacamento Blood abre com imagens discursivas esperadas de alguém como Spike Lee: um trecho de um discurso de Muhammad Ali, Martin Luther King Jr. e Angela Davis é seguido por imagens em vídeos e fotos de afro-americanos nos campos da Guerra do Vietnã, pobreza nas cidades e protestos contra a desigualdade racial e a truculência policial. Lá pelas tantas, Lee igualmente não esconde duas referências e reverências, deixando óbvias suas inspirações em Apocalypse Now e Platoon, além de uma crítica direta ao idealismo construído pelo cinema americano sobre o Vietnã com personagens como John Rambo e James Braddock.

Essa escolha de Lee em ligar narrativamente o passado ao presente dos personagens através de intervenções tão cruas ameaça, em primeiro plano, ser um alimento para os depreciadores do cinema do diretor de Faça a Coisa Certa, que consiste, basicamente, nas acusações didatismo. De fato, Destacamento Blood caminha numa corda bamba enquanto elabora suas contextualizações na primeira metade, e nela, um grupo de veteranos do Vietnã retorna ao país em busca dos restos mortais do seu comandante, Stormin’ Norman (Chadwick Boseman, de Pantera Negra) e encontrar um tesouro que esconderam enquanto viviam lá.

O que talvez torne Spike Lee um cineasta tão despreocupado com esse suposto didatismo é que ele é muito menos preocupado com a manipulação dos fatos em prol da imersão megalomaníaca, e mais atarefado com o poder da imagem que crie uma lógica e verossimilhança com o contexto do que é desenvolvido; seu cinema sempre comprovou que, mesmo existindo, esse didatismo é ligado a uma linguagem cinematográfica específica. Lee é pontual e mordaz nessas construções em doses equilibradas, como a radialista Vietnamita passando informações externas para os soldados negros que estavam no Vietnã, lutando uma guerra que não era sua. “Nos EUA os negros são apenas 11% da população, mas aqui vocês são 32%”, ela diz. Lee, antes de tudo, quer tocar nas feridas mal curadas da História, mas na verdade, será que um dia se curarão?

É notável o compromisso histórico do roteiro do próprio Spike ao lado de Danny Bilson, Kevin Willmot e Paul De Meo, por mais que o filme tenha caído na polêmica, acredito que inevitável, da caricaturação do povo Vietnamita. De qualquer forma, é esse compromisso que justifica as duas horas e meia de Destacamento Blood e seu apego à análise dos efeitos trágicos do passado sobre a contemporaneidade; um recurso inteligente são as mudanças nas proporções da tela entre as cenas em flashback e o uso da câmera Super 8. Lee quase constrói um filme dentro do filme.

Parte do estranhamento com Destacamento Blood, entretanto, é como a primeira metade é tão cambaleante na contextualização dramática pessoal de cada personagem. Lee promove o reencontro dos quatro veteranos e, após uma sequência em um bar onde é estabelecida a dinâmica entre eles, o diretor parece pouco confiante ou mesmo interessado no suporte dramático de cada um. Não há pessoalidade suficiente no reencontro entre Otis (Clarke Peters) e a ex-prostituta Hanoi (Ngô Thanh Vân), assim como os fantasmas do passado que perseguem Paul (Delroy Lindo, em momento grandioso da carreira) e sua relação desmembrada com o filho David (Jonathan Majors). Dessa forma, o vínculo nesse primeiro contato com os personagens não acontece de imediato, aproximação essa que só acontece quando a narrativa se fixa no Vietnã.

É quando Lee acentua a paranóia e a dubiedade daquelas personalidades que Destacamento Blood cresce, com uma tensão política elaborada através dos efeitos físicos e mentais da guerra no destacamento. Nisso, até mesmo a presença de Ride of the Valkyries, de Richard Wagner, está ali para marcar o momento em que os personagens adentram nessa estrada em busca de uma cura pessoal e de acertos com o passado.

Assim, Destacamento Blood se firma tanto como o ponto de vista ficcional de Spike Lee sobre a guerra, como a desconstrução da falsa impressão de que o peso do passado ficou por lá. Mesmo faltando estofo dramático na particularidade de cada personagem, poucos revisitações geracionais dentro do cinema carregam a potência da visão de Spike Lee, didática ou não.

Comentários (2)

Carlos Eduardo | sexta-feira, 26 de Junho de 2020 - 17:27

Melhor de 2020 até agora. Spike dá socos no estômago como ninguém. E que timing de lançamento.

Alexandre Carlos Aguiar | domingo, 26 de Julho de 2020 - 19:36

É um filme muito denso e atual. Acredito que a suposta "pouca profundidade" dos personagens no começo tenha sido proposital, para apostar numa caricatura cidadã destes veteranos, cada um rodando por aí com uma história visível e uma presa em suas memórias. Isso fica provado quando são submetidos a um stress, seja na divisão do tesouro ou após o encontro com a mina terrestre. Enfim, um Spike Lee no seu melhor estilo.

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