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Devorado Vivo

(Eaten Alive, 1976)
7,3
Média
23 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Até o crocodilo é um redneck

9,0

Novamente os rednecks em voga. Tobe Hooper tece seu material novamente num comentário social incisivo e sujo sobre o interior americano. Na bagaceira dos seus vícios e preconceitos. Algo que já o fizera no seu material anterior O Massacre da Serra Elétrica (Texas Chainsaw Massacre, 1974). O alvo da esculhambação agora é um hotel vagabundo de beira de estrada – na boca dum pântano – comandado por um velho louco que tem um esfomeado crocodilo de estimação. E por ali perpassam figuras diversas. Famílias comuns e outras mais doentes, um casal de bêbados afim duma trepada casual e por aí vai. Todos constantemente em busca de pausa momentânea naquelas paragens. Assim já sabemos o que vai rolar. Destruição, sangue, tripas, embriaguez e desordem.

A escolha pela simplicidade do roteiro serve em conformidade com que a atenção seja dada à criação duma ambiência atroz, infernal e manicomial. Um clima tétrico e excessivo, com um ar mais cínico que em seu filme anterior, tem-se obra totalmente criada em estúdio onde se visa uma atmosfera mais controlada e iluminada artificialmente, beirando, de forma totalmente proposital, o farsesco – o que não impede de ser concatenada com aquelas sobras marotas de orçamento. Continua o pessimismo social nesta moldura e se tem uma violência bem marcada, com a dupla velho escroto e crocodilo faminto dando o gás e fazendo a festa. Magote de perturbados. Contribuindo com esta celeuma podre temos tipos bem descomedidos, algo que é um crescimento de idiossincrasia do cinema do Hooper. Só crescia em teor nessa seara, e que fora se acentuando e tornar-se-ia padrão em sua filmografia. A destacar o reacionarismo do redneck mor, o diabo do velho (Neville Brand). Todas as decisões que o cara toma são baseadas em morais antigas estabelecidas, nas quais ele cria um padrão próprio de certo e errado conservadoresco, agindo com virulência quando esse código é afrontado. Como exemplo temos o tratamento dele com sua hóspede que vinha diretamente dum cabaré. Uma prostituta desistente. E trucidada ela será. São condicionantes que fazem parte da trajetória do diretor que aqui em seu início de carreira já propunha a loucura moral como mote narrativo do horror. Não há derrocada lenta ao inferno. Ele já existe desde sua primordial encetadura.

Uso das cores quentes, tons de rubro do brabo. Fortes com uma fumaça proeminente que acentua a morbidez, infernal e pantanosa oferecida pela fita. Um tormento vivo e cheio de abuso montado na artificialidade do seu começo. A câmera aproveita bem os espaços propostos. O interior ordinário do hotel e sua fachada suja com direito a um criadouro duma besta escamosa. Em meio a muita luz vermelho-sangue. Um hotel endiabradamente inebriante. Percebamos a sagacidade dos planos ao esconder a pobreza de verba. O Crocodilo, já citado, é um exemplo. Mostrado às sombras e brevemente, e em ótimos ataques, antes que nos liguemos do seu visual bagaceiro. Disso o animal Hooper manjava. Os jogos de luzes também são um toque de interesse não somente pelo meio, mas pela percepção do caráter dos personagens. Como numa cena de conversa entre o velho e uma vítima presa numa cama. A luz os ilumina e os divide, tal qual um monstro ao se aproximar de sua presa nas sombras. A partir disso temos o discurso do insano e sua cara iluminada num ruivão pulsante. Planos de escuridão e luz. Mal e bem. E som e trilha? Música country no rádio contribuindo com o clima sem noção, numa cacofonia sonora, tanto na tortuosidade dos ataques como nas músicas country misturadas a elas. A doidiça o tempo todo.

Um ponto a ser salientado ademais é a arte, que é importante e abusiva nas obras do chefe. Ele a usa para explicitar doenças sociais, chagas e características imundas de seus personagens. O hotel em si já é uma podreira viva, sempre com a incômoda luz escarlate a cintilar em objetos e paredes já avermelhadas. No âmago do quarto do perturbado principalmente. Das paredes com armas penduradas a rodo à cadeira coberta com uma bandeira nazista. Tudo a serviço do desenvolvimento da persona principal doentia e exagerada. Preconceituoso, radical e assassino que devaneia sobre seu código moral e suas condutas. Escolhendo quem deve usar como alimento para seu réptil de estimação. A arte faz questão de ser explorada pra isso.

Hooper filma o desespero como poucos. Tensão em som e imagem encaixados perfeitamente. Perseguições abusivas em cenário avermelhadamente alucinado; torturas contra fêmeas por um mentecapto alucinado por sua moral apodrecida; abastecimento estomacal constante de um réptil com tripas humanas e por aí vai. Tudo nesta conjuntura nada agradável, porém divertida pra cacete, faz o cinema desse bicho transparecer. Permanentemente com sua sagaz observação social brutal. O uso do desprezo pelo próximo, com uma mulher aos gritos desesperados – uma marca clássica das obras do cara – em choque com um psicopata perna de pau e de foice na mão, na possibilidade dela virar comida de lagarto gigante. Um inferno que o interior americano bem oferece.

Paranoia e esquizofrenia. Temas caros ao gênero que enaltecem o medo quando percebemos que algo que pode nos espreitar e é tangível fora da tela, mesmo com todo o visual sanguíneo demoníaco num universo louco, mas ainda humano. Primal. Raivoso. Doentio. Doloroso. Glutão. Vermelhento. Devorado Vivo nos mostra isso. Um ambiente descomedidamente farsesco, mas ainda com o pé em possibilidades dementes que a mente humana ainda é capaz de forjar.

Parte do especial Tobe Hooper: A maldição grotesca do excessos

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