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Dirt, The

(Dirt, The, 2019)
4,3
Cineplayers
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6,5
Usuários
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Críticas

Cineplayers

Sexo, drogas, Rock and Roll e filmes enlatados

4,5

De alguma forma, nós sempre tivemos no cinema biografias de personalidades famosas que tiveram importância científica, social ou cultural. Mas podemos atribuir que Ray (2004) fez com que essas produções aumentassem em frequência. E após filmes de pais da música mundial como Johnny Cash, Ray Charles, James Brown e Miles Davis, não demorou para chegar em ícones mais ou menos recentes, e o retrato da vida de Freddie Mercury Bohemian Rhapsody (2018) pareceu assegurar a sobrevivência do filão; pouco após o sucesso do filme foi confirmado Rocketman, com Taron Egerton (Kingsman: Serviço Secreta) como Elton John e agora, The Dirt chega à Netflix.

Baseado na autobiografia coletiva The Dirt: Confessions of The World’s Most Notorious Band (A Sujeira: Confissões da Banda Mais Notória do Mundo), o projeto estava em “inferno de desenvolvimento” desde a década passada, tendo sido resgatado pela Netflix, que comprou seus direitos de produção e lançou o filme dirigido por Jeff Tremaine (Jackass - O Filme) no timing mais oportuno possível.

The Dirt é a uma biografia sobre Mötley Crüe, verdadeiro ícone do que se convencionou a chamar “hair metal”, “glam metal” ou ainda “hard rock farofa” no Brasil. Apesar de precedidos por bandas setentistas como Van Halen, Whitesnake e KISS, o paradigma foi mesmo criado por bandas que tocavam pela Sunset Strip de Los Angeles, como Def Leppard, Bon Jovi e o próprio Mötley Crüe, sendo seguidos por Poison, Skid Row, Cinderella e Guns ‘n’ Roses. Cabeleiras impressionantes, roupas estilosas, coloridas e apertadas, solos de guitarra, refrões explosivos, exaltação ao luxo e a luxúria sem precedentes da época: quase uma epítome do que são os anos 80 no imaginário coletivo.

E não podemos dizer que o filme negue fogo nesse lado mais cosmético e publicitário que levou o Crüe ao topo do mundo três décadas atrás - muito mais que o lado musical, aliás. A direção de Tremaine e o roteiro de Rich Wilkes (Triplo X) conseguem criar alguns momentos interessantes, como a narração em off repartida entre os membros da banda e as constantes quebras da quarta parede que intervém na própria história, declarando bem humorada o que a maioria das cinebiografias não admite: “não foi bem assim, mas achamos que desse jeito fica mais legal”. 

Mas o que poderíamos esperar do diretor de Jackass - O Filme e o roteirista de Triplo X abordando a história de uma banda que vendia a imagem de serem reis das festas, encrencas e intoxicação? Bem, a resposta seria um filme que justamente compra tal imagem e sofre uma dificuldade tremenda em ver seus protagonistas como pessoas. O tempo dedicado ao lado inconsequente é muito maior que as consequências, que chega em ritmo acelerado e apressado, com inúmeros saltos no tempo.

Comparemos: conte quantas cenas você vê do Mötley Crüe jogando televisões de janelas, tendo relações sexuais (às vezes em público), protagonizando cenas escatológicas com Ozzy Osbourne, assustando pessoas em hotéis, fugindo de seguranças e afins, e quanto tempo temos, por exemplo, de Vince Neil sofrendo por bater o carro que mataria Razzle, baterista da então emergente banda inglesa Hanoi Rocks? Após bater o carro, vemos Neil preso - por alguns segundos, pela televisão. Ou o histórico de agressão conjugal do baterista Tommy Lee reduzido a uma cena sem grandes consequências posteriores? 

Sim, The Dirt é um filme que tem medo de explorar o lado sombrio e triste dos personagens. No início parece que não, ao introduzir a história do baixista Nikki Sixx, sua vida pregressa protagonizada por mães e pais adotivos abusivos, um pai biológico que nega reconhecê-lo e a vida nas ruas. É o ponto de vista mais aprofundado no filme, enquanto todos os outros protagonistas se resumem a algumas cenas. Mas mesmo a história de Sixx continua a acelerar mais, quando desenvolve um vício em heroína, tem morte clínica após overdose, tem uma recaída e vai para a reabilitação. Tudo tão rápido quanto escrito aqui: esses momentos mal somam dez minutos de trama. E o filme usa para desenvolver outros personagens? Tampouco. Há uma tragédia familiar enfrentada por Neil que é concluída tão rápida quanto foi introduzida. 

Não tem jeito: o forte do filme é “a sujeira” - mas só a sujeira “moleque”, nem tanto “a sujeira” que fariam seus protagonistas não ter coragem de olhar no espelho. Uma explicação é, além da falta de tato do time principal por trás das câmeras para lidar com temas adultos de maneira sóbria, os intérpretes serem bem verdes: tirando Iwan Rheon (Game of Thrones), subaproveitado como o peculiar e sem traquejo social guitarrista Mick Mars, personagem menos explorado dos quatro protagonistas, Douglas Booth (O Destino de Júpiter) como Nikki Sixx, Daniel Webber (Justiceiro) como Vince Neil e o rapper Machine Gun Kelly como Tommy Lee sabem fazer pose como rockstars/sex symbols/junkies, mas não sabem muito o que fazer quando é pedido deles para representar dramas ou sutilezas. Mas mesmo mais maduro (em idade e em qualidade dramática) que outros do elenco, Rheon nem consegue roubar a cena, tão pouco destacado é o seu personagem.

O início, com a câmera passeando pelo ambiente enquanto a narração apresenta os personagens em meio à inserção de texto na tela e freeze frames, chega a lembrar Scorsese no radical O Lobo de Wall Street (2013); mas quando a ressurreição por injeções de adrenalina chega a copiar momento semelhante em Pulp Fiction - Tempo de Violência (1994), vemos como é um filme dependente de outros melhores e mais articulados em matéria de encenação e uso de recursos estilísticos. O dia-a-dia de Tommy Lee filmado em primeira pessoa com uma GoPro é um dos raros momentos de suspiro criativo de um filme tão impressionado com os mais batidos clichês do rock and roll que está mais para “O Sucesso e as Trapalhadas” do Crüe do que, propriamente, sua “Sujeira”. E pensar que agora esse tipo de cinebiografia se firmou como filão e tendência só nos faz pensar que vem mais enlatado como esse por aí.

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