Saltar para o conteúdo

Do Fundo do Mar

(Deep Blue Sea, 1999)
5,3
Média
202 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

A inteligência dos tubarões criados por humanos otários

8,5

Cientista tapada lidera uma equipe em busca da cura pro mal de Alzheimer através do uso de células cerebrais de tubarões, porém só obteria algum resultado satisfatório se, por manipulação genética, aumentasse o tamanho dos cérebros dos animais. E ela ainda achou que isso estava tranquilo e favorável e que não ia acontecer porra nenhuma de ruim, já que na cabecinha dela, era uma ideia joia.

Depois do clássico Tubarão (Jaws, 1975) do Steven Spielberg, na seara dos filmes deste filão tubarocida, este Do Fundo do Mar vem logo em seguida. Direto ao ponto, sem frescuras, bem dirigido e montado. Com uma criação decente de pontos memoráveis no que propõe a uma verossimilhança interna e suspensão da descrença que a fita pede. Trata os bichos como máquinas assassinas, oportunistas e inteligentes, na intenção que isto sirva exclusivamente para uma manutenção de tensão vultosa para que os personagens sintam-se cada vez mais encurralados num laboratório marinho que está afundando. Conta com os mais variados chavões do gênero que prosseguem desde animais menores em perigo aos novos desafios apresentados sub-repticiamente a cada obstáculo superado. Aqui mora parte da graça dessa diversão. O ritmo é excelente e não deixa a tensão cair, e conta com alguns respiros curtos e divertidos servindo bem à construção narrativa. O fato de vários personagens serem imbecis já se tornou tão óbvio no gênero que só não cansa por conta da brutalidade das criaturas e pela direção que sabe lidar com aquela ambiência, além dalgumas mortes criativas.

É uma atualização esperta dos filmes de monstros de outrora, contando com o avanço tecnológico (mesmo que até discutível aqui em certos pontos) para criação das bestas e por uma escolha muito acertada de elenco. O diretor Renny Harlin parece ter seguido os passos tanto do Spielberg em Tubarão quanto os de Ridley Scott em Alien – O Oitavo Passageiro (Alien, 1979), onde estes dois monstros escolheram propor um cinema com violência e aflição defendidos por um elenco de primeira. Scott declararia, anos depois de seu filme de terror espacial, que gastara parte do orçamento com atores/atrizes fodas porque não queria perder tempo com um elenco ordinário. Quem tem verba para tal que assim a use. Harlin faz isso muito bem com figuras do protagonismo de Thomas Jane e Saffron Burrows, e com coadjuvantes de luxo do peso de Stellan Skarsgård e Samuel L. Jackson. Dentro da proposta do absurdo que o filme inventa de nos apresentar, que um elenco tarimbado consegue dar a credibilidade – e uma divertida inteiração – diante do que um roteiro inverossímil desse propositalmente joga na tela. Para isso escapismos bem humorados caminham lado a lado com um gore escroto, nos trazendo urgência e riso nervoso ao mesmo tempo. Algumas mortes, inclusive, são especialmente dedicadas a isso. As consequências de uma burrice numa ou a surpresa sem noção que funciona noutra.

Com uma câmera incessante, seja na perspectiva dos animais ou no desespero dos locais claustrofóbicos – com planos a apertarem a galera no ambiente – o desastre se monta. As escolhas de planos e cortes permitem o ótimo ritmo que a montagem inventa, com tudo as claras numa movimentação contínua que faz crescer muito bem o tamanho da ameaça daqueles tubarões. Os bichos são mostrados frontalmente sem segredos, afinal o público é outro, e o choque já fora dado décadas atrás. Por isso é tensão, ritmo e ignorância carnal desenfreados. A escolha ao não guardar nada dos bichos traz aqui o ônus e o bônus da questão. O ônus viria por conta dalguns efeitos digitais serem discutíveis no CGI (levando em consideração o orçamento de 60 milhões) onde a artificialidade dos monstros chega a ficar clara em alguns planos – o CGI estava caminhando bem nos anos 90, mas era necessário um cuidado mais acentuado ao expô-lo de forma frontal por questões de iluminação, principalmente na seara do eco-horror onde as bestas tinham tamanho protagonismo –, aqui num erro de escolhas da direção, de posicionamentos de câmera e a falta de um refino final, apesar doutras cenas serem excelentes. Um trabalho a cargo da Industrial Light and Magic do George Lucas. O bônus, porém, vem dos animatrônicos dos tubarões feitos pela Edge Innovations, que estão entre os melhores da história. Aqui é sentida a textura por luz e escamas do tamanho daquele maravilhoso e descomunal perigo. Nisso temos a soma da brutalidade atrelada, com direito a mutilações, desmembramentos parciais e completos; com perseguições insanas e sangue em profusão. O perigo do que representa uma criatura marinha insana é altamente bem representado aqui.

O que não deixa de ser irônico que estes peixes brutos ajam como tais por serem compelidos geneticamente para alcançar estes objetivos. A criação é humana, e resultados nefastos são dados para aqueles que inventaram esta marmota. De óbitos por estraçalhamento à perca total do objetivo inicial de cura de doenças degenerativas. O filme traz uma relação simples de causa, efeito e consequência sem oferecer filosofias maiores que não caberiam aqui. Funciona como mote de exagero para o aumento dum perigo que já era desconfiável, e que agora passa a ser estupidamente perigoso. O ser humano é vacilão e o grande público quer, obviamente, que os culpados sejam destruídos e os animais eliminados. Isto é oferecido na fita. A catarse da sobrevivência dos desimportantes frente a genialidade disfarçada dos imbecis.

Altamente violento e divertido, tira até onda com a genialidade dos tubarões e da jumentice de ser ter uma ideia dessas. Joia.

Comentários (1)

André Araujo | quarta-feira, 26 de Janeiro de 2022 - 14:37

Lembro até hoje da chamada desse para o Tela de Sucessos ou o Cinema Espetacular. Clássico.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quarta-feira, 26 de Janeiro de 2022 - 19:46

Lembro demais. Tela de sucessos era nas sextas e cine espetacular nas terças.

Faça login para comentar.