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Druk - Mais Uma Rodada

(Druk, 2020)
7,7
Média
85 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Saúde, amigos!

8,0

Druk - Mais Uma Rodada lança uma questão teórica proposta por um filósofo norueguês e quatro amigos, professores em uma escola dinamarquesa, decidem testa-la e entender até onde isso iria e quanto contribuiria em suas rotinas melancólicas. O filósofo diz que as pessoas nascem com deficiência de álcool no organismo, sendo o teor ideal estável no sangue de 0,05%. Manter tal quantidade de álcool deixaria a vida menos infeliz? Favoreceria os relacionamentos amorosos despedaçados? As convenções do trabalho seriam mais edificantes? Retiraria todo o peso dos compromissos e preocupações do dia a dia? Ajudaria a lidar com tudo com a paciência que o tempo fez evaporar?

O filme não responde. Não é moralista a tal ponto.

Ora, a partir de tal tema, muito há a se pensar. E estudar. Estudo, no caso, é o que os amigos visam fazer e o filme também pode ser visto (ou lido) como um interessante estudo de personagens. São quatro os homens que colocarão bebidas em suas garrafinhas de água esperando pelo arrebatamento que transformará suas vivências em sociedade em alguma coisa minimamente mais estimulante, repetindo a dose rodada após rodada, em casa, na rua e na escola; às escondidas, com a vida frágil como uma taça de cristal guardando aromas, cores e sabores. Atrás dos sentidos, não consideram os custos.

A narrativa fruitiva e divertida explora amigos de longa data e que estão na meia-idade, percebendo que o tempo não volta mais. Em certo ponto, lembramos do clássico de Billy Wilder, Farrapo Humano (1945), onde um sujeito de idade similar aos dinamarqueses encontra alguma saída no álcool, não como encorajamento, mas como afago ao seu desapontamento enquanto escritor e dedica-se a se manter embriagado com o pouco que tem para esquecer do fracasso. Aqui, em Druk, é para lembrar, para libertar da prisão do esgotamento: uma solução tão improvável, mas deleitosa, até o ponto de indigestão e gosto ácido na boca.

Os professores de educação física, psicologia, história e música então investem em bafômetros a fim de garantir a quantidade certa e costumam tomar nota de suas atividades, de maneira bastante acadêmica condizente a suas posições profissionais, avaliando os resultados do experimento social onde se inseriram. Cada nota invade a tela, como uma mensagem no celular. Mais impelidos do que ratos em laboratórios de psicologia que acionam botões quando desejam água, os quatro mantêm seus comportamentos reforçados um pelo outro, garantindo a manutenção do estado de embriaguez. Os visíveis e mensuráveis triunfos os motivam a seguir adiante.

É preciso ter consciência que a obra não é sobre o álcool, mas sobre as circunstâncias que o envolve, uma vez não ser solução ao que ambicionam e sim um possível e questionável caminho. Assim creem, como poderiam acreditar em qualquer outra coisa, afinal, não são poucos os meios de entorpecimento. Para isso, o veterano diretor Thomas Vinterberg escancara insatisfações da vida adulta, como aborrecidos compromissos no trabalho; os desagradáveis afazeres domésticos; ou os cuidados com os filhos – e é bastante interessante o contraponto envolvendo a criança que urina na cama e o pai, ébrio, reproduzindo comportamento similar. Há outras tantas duras penas que não se resumem apenas a acordar cedo e garantir boletos pagos.

O ótimo Mads Mikkelsen assume a personalidade de um sujeito que transita embriagado numa linha que divide frustrações e euforias. A frustração devida sua condição atual abatida numa vida quase inanimada e definitivamente entediante – assim lhe parece diante os alunos; e a euforia do experimento que funciona como um resgate de uma alegria esquecida em algum ano no passado, durante a jovialidade já extenuada e longínqua. O entorpecimento anestesia o desencanto e a experiência parece fazer jus à teoria desafiada a partir dos atuais êxitos, tal como o respeito em sala de aula reconquistado ou o casamento insípido restaurado com a endorfina favorecendo o humor, devolvendo a sensação de bem estar que aparece como velha conhecida.

Revelada sem moralismos, a embriaguez tem custos, sendo mais duros com alguns do que com outros. A falta de controle e a adaptação à condição gera prejuízos que Thomas Vinterberg não ignora, explorando-os sabotando o humor gerado pelas primeiras doses que trazem certa recreação à narrativa a fim de mostrar as feridas causadas pelo excesso, pelo alcoolismo doentio e todas as implicações psicológicas que arruínam relacionamentos, relações sociais e profissionais. A Dinamarca é um dos países que mais consome álcool no mundo, inclusive entre adolescentes, como o filme mostra em corridas e farras.

Com câmera em punho, o diretor parece se ocupar de traços do Dogma 95 para contar sua história, fazendo da imagem por vezes trêmula um recurso estético alusivo a condição de seus protagonistas, favorecendo a percepção da ebriedade. Conta com grandes atores e é especialmente bom ver mais uma parceria entre Thomas Vinterberg e Mads Mikkelsen – os dois trabalharam juntos no impressionante A Caça (2012). É basicamente um filme cujo olhar paira sobre homens. Da satisfatória primeira dose até à danosa. O descontrole! É o que se vê, em cena, entre festas, entre cerimônias, uma dança de curtição, de felicidade instituída no que nos movimenta e inspira a seguir em frente, ao que realmente interessa: se divertir. Festejar. Dançar sob espuma prateada. Cevada. Zimbro. Anis. Celebrar juntamente! Celebrar enquanto houver pulsação.

Comentários (2)

Bernardo D.I. Brum | segunda-feira, 12 de Abril de 2021 - 21:00

Tou sem tempo total por enquanto, mas esse é um dos que eu separei pra ver. Bom saber que tem texto do Marcelo pra ler assim que ver!

Herbert Engels | terça-feira, 13 de Abril de 2021 - 18:43

Tb to assim B :(

Tentar assistir quando der tempo.

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