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Críticas

Cineplayers

Um voo ousado e nostálgico.

8,0
Em meio à falta de imaginação reinante na feitura dos 'live actions' Disney e na carreira de Tim Burton quase na totalidade nos últimos 20 anos, o encontro entre esses dois universos volta então a provocar a poesia e o encantamento que não tinham aparecido desde que o estúdio do Mickey resolveu transformar seus produtos animados em versões de carne e osso. A nova versão do clássico de quase 80 anos atrás provoca, instiga e surpreende, ao promover não apenas os olhos e a emoção, mas também abrir uma irônica discussão sobre o comércio da arte. Terá Burton alfinetado seus próprios patrões ao conduzir essa adaptação ou estaria a própria Disney mais ousada do que supomos? Qualquer que seja a resposta, a estreia de Dumbo coloca uma dose de expectativa nos próximos passos desse momento de transição do estúdio, que parecia não querer mexer em time que está ganhando, e agora se permite uma abertura.

O longa tem agilidade e uma preocupação imagética que tem faltado ao outrora perfeccionista Burton, que nas últimas duas décadas praticamente só entregou esmero quando assinou animações (A Noiva Cadáver e Frankenweenie), independente do sucesso popular que eventualmente consiga, e que mesmo esse também vem rareando. Aqui o cineasta parece encontrar mais do que suas raízes, mas principalmente um genuíno cuidado com a narrativa, sua textura, a praticidade de seus efeitos e a forma terna com que volta a nos inserir no material filmado. Isso é superior a explorar tecnicamente suas potencialidades, mas absorver o universo escolhido e dar naturalidade ao fantástico, uma especialidade de sua origem que parecia perdida ultimamente e que o novo filme resgata e volta a inseri-lo como um artista a se explorar.

Ainda que poucas alterações tenham sido feitas na estrutura do material original, tudo parece suficientemente orgânico e integrado a uma lógica que obedeça a várias variáveis: o tempo retratado, a magia necessária à adaptação de uma releitura de um clássico da animação, e o público contemporâneo, ao mesmo tempo exigente de demandas particulares e ansioso por se reatar ao passado. O filme toca na nostalgia pura que é a base do público que a Disney vem criando com essas novas versões sem agredir o grupo neutro que eventualmente não tenha assistido o original, transformando esses olhares conjuntos de maneira a seduzir o maior número de espectadores possíveis, e realizando um equilíbrio fundamental entre ação prática e universo computadorizado, que grande parte dessas versões não conseguiu alcançar; nos importamos com o que não é real porque a base do que é a sustenta e credibiliza.

O elenco é um completo acerto, todos integrados tanto ao material fantástico quanto a suas próprias humanidades. Se Colin Farrell tem um olhar compungido diante de seus sonhos esfacelados e sua realidade transformada, Michael Keaton passa a dúvida e o encanto esperado a um homem que vende ilusões com a facilidade de quem também as fabrica. Eva Green está perfeitamente adequada em sua porção e Danny DeVito é o rosto que não deveríamos ter passado tantos anos sem ver, um manancial de carisma a toda prova, evidentemente se provando um diferencial; se há alguém que precisa ser visto nesse filme, além do próprio Dumbo, este é DeVito. A partir dele, todo o pacote de Burton é comprado, pois é nele que está incorporado os elementos tanto da carreira de Burton quanto do próprio produto em questão.

A cereja do bolo do filme são as pouco sutis olhadas para a exploração do espetáculo, em todos os seus segmentos. Sendo a própria Disney uma comerciante em busca da venda de seus produtos, é no mínimo curioso que a mercantilização do sonho seja um dos temas cheques do longa. Graças a essa camada, alguns pontos não alcançados pelo filme são diminuídos (tudo se passa em curto espaço de tempo, sem dar tempo do público respirar, assimilar ou mesmo captar toda a cadeia de eventos, que parecem se atropelar), deixando mais óbvia essa sacada de debruçar-se sobre um tema que o estúdio não tem nos deixado esquecer, diante da sua ultra presença durante todo o ano, todos os últimos anos. Dumbo critica o quanto de valor tem na transformação dos nossos desejos em concretização, e toda a beleza e inocência precisam dar um espacinho para esse olhar crítico que Burton trouxe, junto com a beleza da sua paleta de cores, com a magia "incalculável" do estúdio e uma das mais belas trilhas recentes de Danny Elfman. Um pacote recheado, como se vê. 

Comentários (2)

Alan Nina | quinta-feira, 28 de Março de 2019 - 16:23 | Responder

Caramba, legal o texto, me fez reanimar aqui,

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