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Duna

(Dune, 2021)
7,4
Média
71 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Cinema acinzentado.

5,0

Antes de qualquer afirmação, uma essencial: Denis Villeneuve não é um autor de covardias. Claro, é contestável se o diretor realmente possa ser chamado de autor (e, para muitos, a linha que define tal taxação é bastante complexa), mas Villeneuve é um cara de inquietudes – inquietudes que, convenhamos, nem sempre se fazem presentes no que ele deu vida, como a bola fora Sicario – Terra de Ninguém, o seu wanna be Traffic. Mas convenhamos, só com alguém com uma certa ousadia de visão, para o bem ou para o mal, adaptaria um dos livros mais caóticos de José Saramago ou mexeria num projeto cultuado como Blade Runner – O Caçador de Andróides para a contemporaneidade.

Cineastas tão “8 ou 80” como Villeneuve tendem a conseguir, como uma consequência previsível, sua própria legião de haters e entusiastas (Christopher Nolan está aí pra não me deixar mentir). Os projetos de Villeneuve, em si, carregam uma extrema sobriedade e suntuosidade que criam um forte diálogo com o cinema realista posudo que tem tomado conta do cinemão blockbuster contemporâneo, onde as tendências ditadas por uma nova geração de consumidores anseiam por enxergar um realismo próprio dentro do que há de mais fantasioso no cinema. Se isso é ruim ou bom, varia de cada um. Mas querendo ou não, entregar um projeto tão ambicioso quanto uma nova adaptação de Duna nãos mãos de Villeneuve, especialmente quando temos consciência da infame adaptação de David Lynch nos anos 80, é uma resposta direta a essa tendência mercadológica no cinema, e eu friso aqui: não há problema em nenhum em buscar alguma confortabilidade nessas tendências.

Mas é de se notar que buscar realismo dentro do cinema fantástico se mostra, inicialmente, como uma tendência contraditória, o que não lhe torna impossível. Equilíbrio é, provavelmente, uma das palavras-chave para lidar com tal desafio, e Villeneuve não fugir dessa briga denota sua ambição, mas essa cerimônia quase extrema que têm prejudicado os filmes do diretor já há algum tempo faz extremamente mal a Duna que, convenhamos, quase não parece sair do lugar dentro de suas duas horas e meia. Um resultado direto da estranha decisão de adaptar somente as 400 primeiras páginas do livro. Uma decisão que deixa de ser estranha quando lembramos de mais uma tendência não exatamente nova, que consiste em dividir as adaptações em mais de um filme. Afinal, vivemos na época em que até um livro ínfimo como O Hobbit gerou três filmes.

Nessa missão viciosa de transformar Duna num produto que atenda a todas as demandas desse cinema visualmente posudo e discursivamente filosófico que buscam (ou “buscam”) um quê de novas camadas atrás desse entretenimento consistente e que valorize a inteligência do público, Villeneuve sacrifica o próprio filme. Pra não dizer que o diretor afunda completamente seu barco, a construção naturalista daquele universo desafia a percepção do público sobre as regras que regem os dogmas de toda uma dinastia. Como mérito advindo do próprio material-fonte, há uma leva enorme de conceitos e ideias extremamente ricas sendo apresentadas, e numa consequência quase imediata de adaptar pouco mais da metade de um livro, Villeneuve comete seu primeiro pecado ao somente nos apresentar tanto, mas pouco levar adiante quando essa primeira parte de Duna parece tão incompleta e não se dedicar ao que alimentaria a densidade da própria narrativa. Na verdade, Villeneuve se confunde.

Se confunde, principalmente, nessa confiança de que a sublimidade estética é o principal elemento para ditar o que o filme busca transmitir ao público, e nisso Duna não nega fogo. Das imagens aos sons, a fotografia de Greig Frasier (de A Hora Mais Escura), os figurinos de Bob Ringwood (que supervisionou a elaboração do uniforme do Batman de Tim Burton), a trilha sonora auto-importante de Hans Zimmer, a maquiagem de Donald Mowat (colaborador constante de Villeneuve), a direção de arte de Gergely Rieger e David Doran... Duna não se permite errar na busca pela transposição grandiloquente dos livros para às telas, mas derrubar o queixo do público com a suntuosidade de um universo é o mesmo que conseguir transmitir as tensões, os conflitos e os sentimentos de uma realidade fantástica-realista regida por dinastias, monarquias e colonialismo? Esse é o problema, Villeneuve parece reverenciar tanto o próprio material que esnoba a necessidade de fazer aquele universo respirar para além de sua própria elaboração visual.

Daí, Duna também cai naquela velha ironia de reunir pra si um elenco de nomes que varia entre os de enorme apelo popular (Chalamet, Zendaya, Momoa) com aqueles de legado mais longevo na indústria (Isaac, Brolin, Bardem, Rampling), mas não hesita em pegar grande parte destes nomes e inseri-los dentro de personas que estão ali para preencher requisitos e que, com a mesma facilidade, vão sendo aleatoriamente dispensados sem justificar qualquer peso ou influência na trama geral, mas não deixa de ser divertida a escalação de Zendaya para um número infindável de mini cenas em câmera lenta pra resultar numas dez linhas de fala quando finalmente dá as caras nos minutos finais. Excetuando a personagem bastante consistente de Rebecca Ferguson e que parece ser a única a conseguir dar um salto evolutivo naquela narrativa (Paul Atreides, de um ruim Chalamet, surge rodeado por uma importância pouco justificada), o elenco de Duna mais parece ser mais uma arma do projeto pro seu desfile de suntuosidades, mas que passa longe do objetivo de trazer vida para todos os seus enlaces.

Nisso também se torna irônico quando paramos e percebemos que este Duna também busca ser uma completa aversão à visão (destruída por estúdio) de Lynch para a versão dos anos, carregada de histrionismos, breguices e cafonices – hoje tão envelhecida quanto algo nascido nos anos 80 lhe permite ser. Villeneuve esteriliza aquele caos nada comum, e com isso acaba por minar a vida de sua própria visão, tão asséptica quanto o lado mais extremo de suas características também lhe permite ser. Não há o respiro da excentricidade por essência que existe no filme de Lynch, mesmo com os inegáveis problemas.

Sem toda essa urgência, esta primeira parte de Duna sintetiza com tanta obsessão as características de seu diretor que transforma o seria seu melhor no que lhe há de pior, minando mais essa adaptação do livro de Frank Herbert de uma catarse própria (o “Este é só o início” de Zendaya ao final da projeção me tirou sinceras risadas, como se uma frase de feito fosse catarse suficiente), de um fechamento em si mesmo (o roteiro do próprio Villeneuve ao lado de Eric Roth e Jon Spaiths confunde interromper abruptamente sua história com fechar algum ciclo), de expandir suas próprias camadas. Segue a tendência do cinemão cinzento e ultra monocromático que se disfarçam atrás de uma densidade inexistente, mas receosos em confrontar sua própria construção de forma mais direta.

De qualquer forma e já que é inevitável, que venha a Parte 2.

Comentários (1)

Alexandre Koball | segunda-feira, 01 de Novembro de 2021 - 10:30

Confesso que bateu uma preguiça de ver mais uma versão de Duna, depois das que já existem serem tão ruins. Ainda mais que é só a metade de história... vai ficar pro backlog mesmo por um bom tempo.

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