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Críticas

Cineplayers

“We’re gonna die today.”

9,0
Há uma antiga parábola budista sobre um grupo de cegos que apalpa um elefante, cada qual em uma diferente parte do corpo, e tenta descrever o animal de acordo com o que seu tato lhe permite dimensionar. Obviamente, nenhum deles consegue formar uma visão total do elefante e muito menos chegar num acordo sobre qual animal estão apalpando. Com base nessa curiosa história, Gus Van Sant se inspirou a nomear sua obra-prima multipremiada em Cannes, Elefante (Elephant, 2003), por encontrar um paralelo com o retrato que procura construir sobre um dia comum em uma escola americana.

Elefante é formado a partir de fragmentos diegéticos, que vez por outra se interligam através de contra-plongées e outras técnicas de câmera, em busca de um registro o mais fiel possível sobre a atual juventude. Inspirado nos terríveis acontecimentos do massacre de Columbine, onde dois jovens estudantes atiraram contra colegas e professores e acabaram matando 13 pessoas, o filme remonta um dia aparentemente comum em um colégio qualquer e procura trazer à tona os fantasmas de toda uma geração.

Na proposta de captar da maneira mais natural possível a rotina e dinâmica de um jovem comum, o diretor escalou os próprios estudantes do colégio no qual o filme foi gravado, apostando em muitas improvisações e diálogos/situações reais. Indo além do papel de curioso documentarista, o cineasta emprega sua câmera em infinitos travellings que perseguem de perto diversos personagens por entre salas, corredores, pátios e outros ambientes, num ciclo inconstante e cheio de rupturas em que o foco por vezes se esvai de um personagem e pula para outro na proximidade, sem haver um rumo previamente delineado. Nota-se aqui uma herança do neorrealismo italiano na escalação de pessoas comuns vivendo suas próprias histórias cotidianas, como se Van Sant se colocasse numa posição respeitosa e curiosa, sendo guiado pelos seus atores, e de certa forma suprimindo seu próprio poder como diretor e comandante do filme.

No entanto, não se trata de um trabalho documental, visto que o cineasta incorre em vários truques e técnicas que bagunçam a lógica narrativa. A princípio, na suspensão temporal, numa sucessão de situações que não seguem necessariamente uma ordem cronológica, visto que vez por outra notamos a repetição de uma cena já captada antes, só que agora ocorrendo em segundo plano, ou no ângulo contrário, o que não nos permite identificar o encaixe exato na ordem dos fatos. Por meio dessa dinâmica, Van Sant consegue potencializar exponencialmente sua visão, não limitando a história a um caso documental de massacre em escolas, ou em datas específicas e soluções tomadas. A intenção dele não é formar um retrato fechado e conclusivo sobre a geração atual, mas sim se posicionar ao lado desses jovens, acoplar sua lente rente a eles e se revezar no papel de cúmplice de cada um.

A opção do não julgar ou oferecer respostas é propositalmente incômoda, porque cedo ou tarde a câmera/nós acaba seguindo a perspectiva dos dois garotos que planejam e executam o massacre, e nesse ponto o diretor poderia se render maniqueísmos e discursos prontos, mas ao invés disso apenas fica ali, em silêncio, junto com eles e não contra eles, assim como ele esteve ao longo do dia junto de outros personagens/estudantes, porém com uma distância um tanto maior, como que nos precavendo do perigo latente ali. A genial cena em que a câmera gira 360° dentro do quarto do futuro assassino indica diversas possíveis causas ou origens para o ato que eles estão prestes a cometer: videogames violentos em primeira pessoa, fácil acesso a compras de armas pela internet – tudo em meio a outros itens e disposições comuns no quarto bagunçado de qualquer adolescente americano. Contudo, a cena mais antológica desse núcleo dos dois garotos se desenrola quando eles entram juntos no chuveiro e um deles simplesmente diz, antes de beijar o outro: “Well, this is it. We’re gonna die today. I’ve never even kissed anyone before, have you?”. Uma cena brutal, chocante, e ao mesmo tempo sensível sobre a solidão, o isolamento e a impenetrável lógica da mente não só de um assassino, como também de toda uma geração marcada pela inadaptação e deslocamento do mundo.

Quase um filme de horror moderno, uma espécie de slasher reformulado e despido de qualquer fantasia, Elefante cutuca uma ferida de forma incisiva, sem se refugiar em soluções, respostas ou concessões; pelo contrário, se ancora nas perguntas que levanta e, através de sua técnica imersiva, nos coloca no coração da questão logo após nos familiarizar com aquele universo tão real e depois nos deixa ali em meio ao palco de tiros e mortes, um verdadeiro festival de horror. Dá continuidade ao que filmes anteriores e essenciais, como O Diabo Provavelmente (Le Diable, Probablement, 1977) e Água Fria (L’Eau Froide, 1994), diziam sobre a iminente ruptura emocional e a fragilidade de uma geração que não consegue encarar mais com otimismo os horrores de um mundo cada vez mais afundado em desesperança, tornando a experiência do existir quase insuportável e sem sentido.

Esse cruzamento de interior documental com o exterior fragmentado em cacos permite uma visão até hoje inatingível por outro filme próximo, fazendo de Elefante um dos mais brutais e belos do cinema contemporâneo. Como ninguém, Van Sant compreende ser impossível qualquer quadro perfeito e completo sobre a juventude, e por isso transmite essa ideia com um mosaico incompleto, cheio de arestas e ilimitado dentro de suas possibilidades. Elefante jamais se fechará em qualquer conclusão ou ciclo, permanecerá sempre um filme evolutivo que necessita de revisões constantes, que nos trairão e jamais nos darão uma noção de sua totalidade, nos restando apalpá-lo como cegos em busca de um novo pedaço ainda não alcançado.

Comentários (5)

Thiago Cotta | segunda-feira, 14 de Março de 2016 - 15:09 | Responder

Exercício de cinema do diretor, se fosse cineasta talvez apreciaria, como espectador...não consigo ver a realidade cruel que muitos dizem, Elefante me trouxe mais tédio que algum impacto

Declieux Crispim | segunda-feira, 14 de Março de 2016 - 15:21 | Responder

Ótima crítica, caro Heitor. Elefante é a obra-prima de Gus Van Sant.

Conde Fouá Anderaos | terça-feira, 15 de Março de 2016 - 08:03 | Responder

Belo escrito. Só um adendo. A cena do chuveiro foi o único arrependimento confesso de seu diretor, visto que ele ao fazer isso (opinião dele), criou um alicerce maniqueísta. Ele iria suprimir isso, se pudesse.

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