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Eles Vivem

(They Live, 1988)
8,0
Média
455 votos
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Críticas

Cineplayers

Farra dos oprimidos na base da pancadaria

10,0

O mestre à solta. John Carpenter parte para um material mais independente neste filme, após seguidos fracassos nas relações com grandes estúdios, e isto proporcionar-lhe-ia mais liberdade de ação e esculhambatório. Disso que respira Eles Vivem.

Desemprego. Malditos yuppies da era Ronald Reagan. A repressão policial. Capitalismo selvagem. Dos comentários políticos mais contundentes e grosseiros ao sistema. Disso que trata a obra. Da vivência dos operários onde as imagens servem para montar um eterno esquema de discrepância política, econômica e social. A luta de classes. A vaidade e a pobreza exibidas respectivamente por TV e sobras de comida. A miséria da comunidade que persiste de migalhas e da união entre os camaradas esfomeados. O capitalismo é o foda-se para todos. Que se virem. Os meios de comunicação agem como algozes humanos. Divulgadores e comerciantes de mitos e sonhos farsescos. A TV encaixa perfeitamente nisso no seu boom contínuo pelos anos 80. Os fodidos lutam pela sobrevivência. Nisso a TV serve pra encher os mesmos duma anestesia social que os tome de assalto e os derrube ao nível das suas poltronas (quando se tem poltronas). O fim da consciência humana trocada pela obediência coletiva. Farra.

A teimosia dos contrastes. Este é o lance. As pessoas colhendo roupas nas ruas. As sobras do desastre capitaneado pela polícia na noite anterior enquanto um desfile de moda passa na TV. Uso destas imagens em contraposição do poder com a dureza do pauperismo. Prédios ao fundo no alcance infinito da profundidade de campo da câmera. O distanciamento dos pobres lascados em relação à riqueza fora de alcance. A questão inicial é a luta pela subsistência. O acordar vem como uma iluminação. Estória. John Nada (Roddy Piper), chega no subúrbio da cidade atrás de emprego. Assim que consegue, descola um abrigo pra comer e dormir. Nisso acaba por descobrir uma conspiração marmotosa na qual os alienígenas são os capitalistas que dominam o modo de vida no planeta e alimentam a desgraça entre os humanos muito lentamente. Esta é a estória desta fita escrota. Um traçado de descoberta e reação dos oprimidos lascados frente ao abusivo domínio que os cerca. Um caminho desconfioso que vive dialeticamente com a crença de luta por um ideário d’algo mais que a sobrevivência do estômago.

Opressão e morte. Para corroborar com o elemento pesadamente opinioso da fita, não poderia faltar o braço violento do estado na pista. As intervenções deste frente a contraposição ameaçadora. Um braço que aparecera para manter a ordem desde o surgimento do que se pode chamar de propriedade privada – termo alcunhado milhares de anos após sua existência factual. Então nada mais óbvio que o tal estado, controlado por corporações alienígenas, ataque para proteger seu legado de poder usurpado na marra. Massacrando quaisquer focos de resistência. A brutalidade e falta de docilização nisso é a cara dos anos oitenta. O que não deixa de ser verdade. Chefes políticos tesudos pelo, deveras citado, braço policial, os usam para fazer valer suas aspirações (estes em específico, asseclas do mercado, não vamos esquecer) numa permanência histórica em perspectiva. A piada encaixa por hoje, onde vimos um presidente empresário escuso nos EUA, e um militar fracassado e político inútil e serviçal entreguista no Brasil. Pra ficar em dois exemplos fáceis e marotos.

A intenção é o que interessa, e a diversão que este caminho proporciona. Lotado de mensagens subliminares na colocada dos óculos. Sim. Enxergando a verdade. Óculos como representação da descoberta e revelação mediante a escuridão do consumo vicioso pela submissão cega. Curando cegueira.  Obedeça. Este é o seu Deus. Case e se reproduza. São as mensagens adotadas por Carpenter ao mostrar que o consumo desenfreado daquela era moldara-se com propaganda de toda maneira. Todos nos vendemos. Qual é o problema? Filme rude quando se enxerga a intencionalidade no completo e pelas escolhas de ação e narrativa, que existem em meio às mais diversas frases e adjetivações encaixadas, que são brilhantes. Com toda a falta de pompa, claro. E por resolução propõe 2 caras resolvendo o mundo na porrada. Alguém teria alguma dúvida do tom seguido aqui? A paródia social que ri psicoticamente de si mesma e da sociedade que a inspirara. Por isso as frases feitas. Por isso a solução ríspida no conteúdo da selvajaria. Ou no visual escabroso dos alienígenas, e no tamanho da conspiração existente, que tendo toda a gama de alegoria baseada em elementos reais, deixa o riso de tudo isso ainda mais nervoso.

E é nesse clima de crítica grotesca ao sistema capitalista arregaçada no sarro que encontramos um ponto chave, que é a violência física neste material. A intencionalidade de resposta dos personagens ao que se apresenta ser resolvido na base da agressão. Os fodidos se levantam. A solução vem de baixo. Do proletariado. A crítica feraz seguida da condição eterna da iconografia nada utópica da luta de classes pra ser resolvida no murro. Que o levante popular venha a aloprar por sobre os exploradores. É uma delícia de se ver por conta da catarse barbarizada. O diretor não tem a menor sensibilidade delicada para trabalhar determinados pontos narrativos, única e exclusivamente por sua escolha operacional. A ignorância proposital serve pra isso. Pra compor uma análise escrota a uma esquematização parasitária a sanguessugar o ser humano e criada pelo próprio. E que só resolvida seria na base da chibata. Pra isso serve a porradaria épica e franca entre John Nada e Frank (Keith David) num corredor sujo. 5 minutos duma pancadaria dura, num misto de testosterona oitentista com resolução revolucionária via bordoada. Somente debaixo de peia se consegue ver a desgraça.

As mais variadas rupturas revolucionárias dão-se via sangue. Em algum momento dos conflitos um levante popular resolvera ir as vias de fato (com líderes ou não). Mesmo que o resultado final venha a recrudescer ideologicamente a proposta. É do jogo. Movimentos de emancipação mais plena, feitos foram desenrolados com tiro na cara. Revolução Francesa, Independência do Haiti, Revolução Russa, Revolução Cubana. Robespierre, Danton, Lenin, Trotsky, Stalin, Fidel, Che Guevara. Todos e tudo com sangue. O marxismo clássico pregava o controle dos meios de produção para serem tomados pela classe trabalhadora, já que tudo produzido a ela pertenceria, segundo o próprio Karl Marx. John Nada e Frank partem para a libertação de si mesmos e do seu povo, não antes sem proferirem frases que pressupunham consciência de classe e luta pela sobrevivência ao atestarem a real necessidade de reação mediante a exploração sofrida. Ora, as personalidades históricas citadas possuíam formações distintas e, como tal, fizeram parte das intelectualidades de suas épocas. Eram lideranças políticas, militares e ideológicas tácitas a guiarem seus camaradas. No filme de Carpenter, John Nada e Frank fazem parte exatamente do extrato de classe que as figuras memoriosas acima citadas clamavam em defender. A organicidade da fita é mais ao popular. Mais frontal. Sem comandantes no meio do caminho, mas as peças agindo dentro do pressuposto revolucionário de combate. O proletariado fora para a pancadaria por ter tido alguma epifania, se não por algum chefe de comando em discursos, mas pela descoberta fornecida pelos radicais. Aqueles óculos serviram pra isso.

Não havia mais espaço para o diálogo. Existia uma percepção dum caminho tomado e suas consequências de domínio absoluto. O Carpenter aposta no exagero pra passar seu recado, como sempre, mas aqui ele extrapola pela dimensão política vomitada a todo instante sem cessar. O sistema a ser dinamitado. Esta é a solução. Tanto que quando John Nada entra no banco e sai triturando a galera na bala, o seu foco é somente nos ricos alienígenas. O afã da luta de classes. O massacre do oprimido sobre o opressor. Catarticamente na anedota.

E somente a bestialidade causaria uma suspensão definitiva. A retirada de antigas lideranças via porrada e/ou execução sumária. Sejam os Romanov, ou os escravocratas franceses no Haiti, ou Fulgêncio Batista em Cuba. Somente pela derrocada fúnebre desta turma que as nações em questão se metamorfosearam em prol doutra sistemática. O Carpenter almejara responder aos alienígenas com uma porradaria revoltosa na mais absoluta farra da existência desta ideia. A união do processo insurrecionário na violenta tomada de poder encaixada na ótica oitentista da agressividade da testosterona. Nisso a fita alopra espertamente.

Existe mais tesão do que estraçalhar alienígenas ricos que vivem do sangue e suor proletário. Sacou?

 

"Eles Vivem"
"Nós Dormimos"

 

Não mais

Texto integrante do Especial John Carpenter

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