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Críticas

Cineplayers

Em Busca do Imbecil Perdido.

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A cultura brasileira corrente, e pensemo-la numa abrangência “socioartística” das mais vastas possíveis, teoricamente, parece afeiçoada à comédia como Tom é a Jerry: incansável, poderíamos até dizer quase sem noção?, nos lugares mais improváveis e sob as armadilhas mais letais, o gato persegue o rato; língua de fora, nunca houve objeto tão ansiado. Pois que enquanto primo excêntrico nessa árvore familiar, o cinema nacional parece se conceber como ainda mais indissociável do humor, tanto que, sobretudo quando o próprio tronco gira para trás, aquilo que consegue ver é um Santo Rosário não de contas, mas pérolas, sem as quais a urgência mesma dessa comicidade pelo ridículo, pelo excesso, nos pareceria hoje estranha, não conseguiria alcançar uma sensibilidade que explodiu e quase simultaneamente buscou se maturar pela (não tão simples) replicação. Não é preciso a ela emprestar nomes – ela não se encerra numa aparentemente alcunha “memética”, nem muito menos seu valor está no teor multiplicativo. E a grande questão não sendo tanto “que estilo cômico é este?”, mas uma que se lance sem demoras sobre as possibilidades daquele ridículo, digamos, “sequer passar do talher à mastigação”, a palatabilidade se insere como princípio ainda mais imperioso.

Em 97 Era Assim (2017), não demoramos muito a percebê-lo, não é nada sobre um ano particular, ou ainda uma suposta faixa temporal relativamente localizável por aqueles que a cruzaram, e identificável por reminiscências ou simples similitudes por outros que por ali não viveram; não é tampouco, aliás, muito menos, por mais que, em erupções, a pele adolescente pareça gritá-lo, agoniada no sentido mais estrito do termo, sobre quatro adolescentes em busca do rito de passagem da perda virgindade – dito de outro modo, por insistência “roteiril”, mais por capricho puxa-saco do que por vivência visceral do palavriado de... 20 anos atrás, ou seja, como tão insistentemente bradado por todos os machos do filme: não se trata, aqui, da jornada para perder o “cabaço”, porque qualquer possibilidade de filme é sufocada pela efeitualidade comercial. Nada avança, nada respira, nada floresce num solo que é programado para fertilizar homens que necessitam de mulheres – e ponto.

Sim, logo quando acharam que apenas Big Jato (2015) poderia concentrar o maior número do arcabouço de palavras feias da língua portuguesa por cena, o filme de Zeca Brito rola, deliciado, numa lama identitária cujo alcance só pode se dar num único espectro embalado de assombro, enquanto resposta: do susto diante da necessidade de tornar uma obra uma sequência abjeta de sketches que misturam Malhação (força dramática) e Hannah Montana (força cômica), ao verdadeiro pavor pela rápida e “contemporânea” constatação de todo o dinheiro dedicado a algo que se dedica ele mesmo por ser de péssimo gosto e ressuscitar um clima comportamental que inegavelmente séculos de lutas tem tentado demolir: na pomposa high-school de direção francesa, nos lares caricata ou acidentalmente disfuncionais, impregnado na tacanha ausência de resposta (ação) de qualquer indivíduo, absolutamente qualquer familiar, colega, prostituta, professor ou polícia àquilo, a tudo aquilo, ei-los, quase que suspensos por um halo dourado e viril: a lascívia hormonal dos 15 anos escancarada em quatro boçais que não conseguem enxergar no mundo nada que exceda o projeto da perda de virgindade. 

Curioso, está tudo no corte, música e reatividade aos acontecimentos, quaisquer que sejam (ou seja, bem longe dos personagens e do jogo de crescimento diegético): num ritmo cênico típico dos seriados juvenis pop, cuja função é ora encarnar o vexame ou a redenção dramática miraculosa, ora enfeitar-se no estilo propagandístico, em planos-contra-planos reiterados, o jovem terá a masturbação interrompida pela foto que não carrega completamente porque a irmã está no telefone; a Lolita, num hiper-close, sorve o sacolé amarelento; a prostituta não só sucumbe aos quatro, como agracia-os com uma promoção; o elemento vagabundo nada malandro surrupia dinheiro do pai nada adulto. Há uma magia sob a qual as coisas não conseguem não corroborar com o mundo de aventuras e aprendizados instantâneos dos adolescentes, e um feitiço ainda maior que guarda o mistério do por que a prevalência é a da idiotia, por que nos parece que, ao fim, esse aprendizado, que se traveste do menino que logrou a sensibilidade sobre as mulheres, ainda fede ao reinado do homem que cruzou ileso todas as instituições, cometeu ofensas imperdoáveis, subsiste de desequilíbrios de poder dos quais só goza, recebe imperativos de fora só para tê-los amaciados como plumas logo em seguida – não há nada de resolutivo e evoluído na gargalhada coletiva final, nem muito menos um disfarce merecedor desta que ainda guarda o ouro das negatividades: comercial. É aquém do vulgar e do cinema, tanto quanto cônscio da elasticidade conceitual corrente de ambos.

E, a valsa da masculinidade-todo-Poderosa coreografada, embalada pelo vozeirão que canta querer ser o banquinho da bicicleta para ficar no meio “das perna” dela (Ela, a gostosona com quem Ele sonha), fica extenuada qualquer reação senão o embaraço puro. Um susto que imobiliza, como aquele que sentimos pelo objeto de infância que desprezávamos e não nos ressurge à vista senão 30 anos depois. É preciso se perguntar os motivos por detrás daqueles que trazem de volta passados, decerto, mas mais ainda sob que instâncias certas obras vêm mesmo a nascer, que sensibilidades estão sendo agenciadas para que as dezenas de folhas com letras de fato emanem algo a que ainda podemos chamar de Cinema, para que, aos olhos que àquilo sigam, algo de... verdadeiro ressoe, e cada vez mais longe do infinitamente mastigado. Pior: daquele que se regurgita. É menos que comercial neste sentido: vale, efetivamente, menos que dinheiro – que aquilo exista e que o engolimos enquanto valor “simbólico”.

Comentários (2)

Patrick Corrêa | quinta-feira, 14 de Junho de 2018 - 15:58 | Responder

Que texto afetado e pedante é esse? Abusou da paciência do leitor.

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