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Críticas

Cineplayers

O drama existencialista e social do Porta dos Fundos.

7,0

Um pôster de Fábio Porchat com um olhar vazio e distante com a seguinte indagação: “E se você parasse de ver essas pessoas?”. Esse foi o primeiro contato que tivemos com Entre Abelhas, que não apenas por envolver o nome de Porchat, mas o de quase todos os integrantes do canal humorístico Porta dos Fundos, causou imediata incredulidade no público que não enxergava potencial algum no grupo em ir para algo além do humor. O trailer também pouco ajudou nas (na época) baixas expectativas, uma vez que muitas tiradas humorísticas se faziam presentes lá, o que fazia o público esperar por apenas mais uma das comédias nacionais que são insistentemente lançadas todo ano.

E assim, Entre Abelhas veio com um potente soco no estômago nos que desacreditavam no poder do cinema autoral brasileiro. Dirigido por Ian SBF (também criador do portal que catapultou os envolvidos para a fama), Entre Abelhas flerta pesadamente com certos dramas existencialistas que cativaram o público recentemente, como Ela, de Spike Jonze, uma vez que Bruno (Porchat) é um personagem mergulhado na depressão, que acaba de entrar num processo de divórcio e se vê obrigado a morar com sua protetora mãe (Irene Ravache), tendo também como apoio a amizade do amigo Davi (Marcos Veras), que insiste em levá-lo para as noitadas no intuito de conquistar mulheres. É quando coisas muito estranhas passam a acontecer com Bruno: ele esbarra em pessoas que aparentemente não estão ali, enlouquece ao ver os ônibus abrirem as portas para ninguém descer, e surta quando o motorista de seu táxi simplesmente some do volante. A verdade logo se torna clara: Bruno está deixando de enxergar as pessoas ao seu redor.

Embora não chegue ao ápice do que chega a prometer (o que causa certa ponta de decepção, já que Porchat e SBF trabalharam durante dez anos no roteiro), Entre Abelhas é um sopro de novidade sobre o que é o cinema nacional, de fato. Afinal, as produções tupiniquins podem ser filosóficas e sombrias, depressivas e angustiantes. O título da obra provém da teoria de que, com o sumiço das abelhas pelo mundo, a humanidade também seria levada à extinção, uma vez que já não haveria mais a polinização. As pessoas que aos poucos vão desaparecendo ao redor de Bruno assumem os papéis das abelhas, inevitavelmente fadando Bruno ao isolamento social.

E, no fundo, Entre Abelhas é justamente sobre isto: nós enxergamos as pessoas como elas realmente são? A inserção do atendente de pizzaria reforça esta mensagem, uma vez que aquele individuo, invisível aos olhos de todos que passam ao seu lado, surge como o único meio de Bruno buscar reaver o contato com a humanidade além dos seus conhecidos. Desta forma, seu amigo Davi funciona como contraponto ao assumir a posição do individuo que apenas enxerga a si mesmo, como se apenas ele existisse no mundo, e os outros (mais especificamente, as mulheres) ao seu redor fossem meros objetos de entretenimento.

O apelo visual de Entre Abelhas consegue falar tão alto quanto sua mensagem social e bastante pertinente, jamais se sobrepondo à voz do filme, mas funcionando como catalisadora da sensação de estranhamento de Bruno com os sumiços ao seu redor. Os planos abertos, em especial, vão se tornando cada vez mais sufocantes conforme Bruno se vê cada vez mais sozinho, até chegar ao ponto de vagar por uma cidade abandonada e sem nenhum sinal aparente de vida. E, nestes momentos, e também essencial o bom trabalho de Porchat frente às câmeras, convencendo o público da crescente angustia de seu personagem ao não encontrar nenhuma explicação racional para os desaparecimentos.

Apesar de um certo histrionismo em certas passagens que inserem certo alívio cômico (o que acaba aliviando a força dramática da história e diminuindo o impacto consideravelmente), Entre Abelhas é um trabalho bastante significativo de envolvidos que parecem ter certeza do que estão fazendo e nos entregam uma experiência bastante singular e intrigante, apesar de não exatamente marcante. Mas é louvável o risco assumido por esses nomes que, marcados pelo humor, conseguiram provar que podem ir muito além dele e dar a vida a uma produção nacional densa e de belo significado. Palmas para o Porta dos Fundos.

Comentários (4)

Alexandre Koball | terça-feira, 18 de Agosto de 2015 - 11:43 | Responder

Esse filme tem "cara de 7" mesmo 😏

É extremamente competente e o Porchat consegiuiu balancear seus maneirismos cômicos para dentro do gênero dramático, além do roteiro bem montadinho. Uma pena que bombou nas bilheterias, aparentemente.

Marco Roberto de Oliveira | quarta-feira, 26 de Agosto de 2015 - 21:32 | Responder

Pela nota 7 que o filme está sustentando creio que vale a pena dar uma olhada. Realmente é inusitado este papel para Porchat, tomara que seja bom.

Alexandre Marcello de Figueiredo | quinta-feira, 03 de Setembro de 2015 - 18:00 | Responder

Fábio Porchat até que se sai bem nesse papel dramático, já que é um humorista. Interessante e bem diferente do que estamos acostumados a ver no "Porta dos Fundos".

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