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Era Uma Vez um Sonho

(Hillbilly Elegy, 2020)
5,4
Média
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Medo de se posicionar

4,0

Os Estados Unidos, atualmente, são uma nação que olha constantemente para si mesmo com o intuito de se desvendar. Nos últimos anos, os conflitos internos se intensificaram. Como imagem das divergências, Donald Trump, um presidente abertamente preconceituoso, foi eleito logo após Barack Obama, o primeiro presidente negro da história do país, alçado ao poder por duas vezes consecutivas. Nos últimos dias, o bilionário perdeu as eleições para Joe Biden e questionou o sistema eleitoral norte-americano, incendiando o seu eleitorado.

Certamente, a condição de constante confronto interno impacta na produção cinematográfica do país que, cada vez mais, produz obras ligadas a uma ideia de busca por identidade. Em um país que se empenhou em projetar uma imagem de harmonia e aceitação entre todas as pessoas e culturas, muitos filmes projetam um olhar dissemelhante sobre o ideal de união que os Estados Unidos empenha-se em vender. 

Assim, é possível ver filmes de descendentes de orientais como Doentes de amor (The big sick, 2017), em que um rapaz de ascendência paquistanesa tenta encontrar o seu lugar entre a cultura de sua família e a do país em que vive; A Despedida (The Farewell, 2019), em que uma moça retorna para a sua China natal com a intenção de rever a avó doente e se desentende com seus familiares, pois eles a consideram ocidentalizada para certos costumes; Tigertail (2020), em que é exposta a necessidade de imigração de um senhor taiwanês para os Estados Unidos, embora parte de sua vida nunca tenha saído de seu lugar de origem.

A vivência dos negros nos Estados Unidos também faz parte do caldeirão político tensionado no cinema. Basta ver o horror Corra! (Get Out, 2017), em que um rapaz negro adentra um universo racista quando decide passar um fim de semana com a namorada; Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018), em que uma história real de conflitos raciais do final da década de 1970 se torna um espelho da atualidade; O ódio que você semeia (The Hate U Give, 2018), em que uma menina negra se percebe sozinha em uma escola privada majoritariamente branca.

Mesmo o faroeste, gênero cinematográfico marcado por escavar a formação social e política dos Estados Unidos, valorizando heróis solitários diante de um universo inóspito prestes a ser civilizado, apresenta uma reavaliação da leitura de seus mitos em certos filmes. É o caso, por exemplo, de Os Infratores (Lawless, 2012), em que a figura da força bruta masculina é triturada pela razão feminina. Em A qualquer custo (Hell or High Water, 2016), o capitalismo tardio é a razão de violência e destruição de um espaço social no interior. Em Hostis (Hostiles, 2017), a relação de domínio e violência do homem branco perante os nativos norte-americanos fica escancarada.

Destacar os filmes anteriores tem uma razão de ser. Era Uma Vez Um Sonho (Hillbilly Elegy, 2020) faz parte dessa tendência. O centro da narrativa é J.D. (Gabriel Basso), que convive com a mãe, a avó e a irmã mais velha. Ele as enxerga como exemplos a quem pode se agarrar. Mesmo no início, quando apanha de três rapazes mais velhos, e são os homens de sua família que avistam a situação e o defendem, é a mãe que ao ver o nariz ensanguentado do filho diz que vai “matar” quem o fez. Há uma clara relação de proteção e carinho envolvida na fala de Bev (Amy Adams). Obviamente, é nesse núcleo familiar que irá estancar o drama central da obra. Bev é usuária de drogas e tem um humor bastante oscilante, o que faz dela uma pessoa carinhosa ou agressiva em questão de segundos.

Assim como foram citadas questões relativas aos orientais, aos negros e até um gênero cinematográfico como pertencentes às narrativas características de uma mudança social no Estados Unidos, Era Uma Vez Um Sonho versa sobre a condição feminina. A avó engravidou aos treze anos. A mãe sofre preconceito por sempre trocar de namorado. A irmã mais velha - para fugir das complicadas relações em sua casa - vive com o namorado como se tivesse encontrado um príncipe encantado. Entretanto, exceto pela situação da mãe, as outras histórias funcionam apenas como pano de fundo da narração de J.D que, muitas vezes, se sobrepõe ao que está em tela e essas tramas se tornam apenas comentários passageiros.

A grande questão é que Era Uma Vez Um Sonho é uma produção que se faz valer de um momento social específico e deseja sugar uma temática comum a vários filmes de seu tempo. Por outro lado, mais parece um trabalho de encomenda em que se entrega uma embalagem, não uma obra cinematográfica. Em Directed by John Ford (2006), o realizador Martin Scorsese comenta sobre Terra Bruta (Two Rode Together, 1961) de Ford e avalia que ali descobriu como gostaria de tratar um personagem - pois eram apenas duas pessoas conversando à beira de um rio. Não havia uma necessidade clara na cena para o conflito principal, porém construía o universo das pessoas retratadas no filme. Aquela sequência inseria o espectador no universo radiografado por Ford.

Não há, no filme de Ron Howard, espaço para lidar com aquelas pessoas que, no fim das contas, são o centro da narrativa. Interessa destacar as sequências de maior intensidade, de alto teor dramático, mas não há interesse em revelar os pequenos momentos, a real vida daqueles personagens. Na série Objetos Cortantes (Sharp Objects, 2018), assim como em  Era uma Vez um Sonho, há uma sequência em que Amy Adams anda de patins. Nas duas, está drogada. No seriado, contudo, é uma sequência longa. Ela sente o vento frio da noite nas ruas vazias, movimenta os braços como se estivesse voando, esquece de seus problemas para curtir aquele momento. No filme, por outro lado, ela anda de patins no hospital em que atua como enfermeira enquanto as pessoas a reprovam. Claramente, ela será demitida. Na sequência seguinte, ela conta o acontecido para a família, briga com todos e dá um tapa no rosto da filha. Ou seja, as ações estão ligadas a uma situação de causa e efeito. É basicamente assim ao longo de todo o filme. 

A própria Amy Adams é quem mais sofre com essa condição. São poucos os momentos existentes para dar maior profundidade à personagem. Por exemplo, a sequência em que pede desculpas para o filho o levando para comprar cartões de beisebol ou quando decide que não vai entrar em mais uma clínica de reabilitação. Fica perceptível a dimensão que a atriz oferece para a sua Bev: amorosa e agressiva, firme e diletante, tudo a um só tempo. O que ocorre, muitas vezes, é ela chorando, gritando ou algo parecido. A impressão que fica é que Ron Howard não tem interesse em desvendar a personagem, apenas se concentra em seus escândalos inflados pelos efeitos das drogas ou a falta delas.

A bela atuação de Glenn Close, que traduz em seu corpo as marcas da vida, também sofre com as opções de Howard. A personagem mais parece uma máquina de frases feitas. Abnegada e altruísta, faz de tudo para que seu neto tenha uma chance na vida como costuma afirmar. Inclusive, foge do hospital para levá-lo para morar consigo, pois o rapaz teve atitudes equivocadas e a influência da mãe não lhe parece fazer bem. Ela avisa para a filha que vai levar J.D. da casa e caso Bev não goste, pode conversar com o cano de sua espingarda. Num país em que a questão armamentista é costumeiramente uma questão delicada, a arma funciona apenas para fazer o bem, dar condições de uma vida melhor para o neto adolescente. Não há, aqui, tempo para aprofundar essa discussão, apenas fica implícito que nas mãos de boas pessoas, uma espingarda pode ter bom uso.

Usha, a namorada de J.D., pode ser pensada como a principal figura dessa imagem de Estados Unidos, protetor e de pessoas abnegadamente boas. A moça de ascendência indiana conta que o pai dela chegou ao país sem nada e teve de se reinventar por lá, mas conseguiu se estabelecer na vida. O novo país deu as condições para uma existência confortável. Ela é o contraponto de J.D. no ambiente urbano. Altamente cosmopolita, o ensina por telefone a usar talheres chiques, participa de complexas discussões filosóficas em sala de aula e ridiculariza o sotaque interiorano do rapaz. O que não se altera é sua visão eminentemente gentil sobre as pessoas. Não se abala com a família de J.D. e ajuda o namorado sempre que precisa. J.D e Usha são a figura do casal americano tipo exportação: mesmo com as diferenças, se assemelham na perspectiva de batalhar para conseguir o que desejam.

O filme escolhe os seus símbolos. Entre a mão trêmula da mãe e o olhar das três mulheres da família quando ele vai servir as Forças Armadas, é na primeira imagem em que o filme se fixa. A relação pessoal de assistência para a mãe que necessita de ajuda se destaca. Por outro lado, a formação de caráter por meio da guerra e da destruição de várias famílias em outro país, se torna apenas uma memória distante, como se merecesse um olhar mais atento. O que importa é a jornada de piedade e superação pessoal. Fazer parte da destruição de outra nação para fins políticos é obliterado, torna-se uma pequena menção ao longo de sua jornada.

Era Uma Vez Um Sonho é essencialmente conservador em suas propostas e convicções. Não chega a ser um filme trumpista, mas em um momento no qual os Estados Unidos vive um clima político cindido, é perigosamente conciliatório. Não provoca, nem ao menos reage à crise institucional e às diferenças do país. Inclusive geográficas. Afinal, durante a vitória de Trump em 2016 e a atual vitória de Joe Biden em 2020, muito se falou da população que viveria esquecida no centro dos Estados Unidos, mas com força para deslocar o rumo das eleições. Não por acaso, Ohio, estado para onde o núcleo familiar central se muda logo no princípio do filme teve vitória de Trump, embora os democratas o entendessem como estado-chave para eleger Biden.

Há um arco narrativo tradicional do cinema norte-americano no início do século XXI, em que um jovem volta de um centro urbano para a sua cidade no interior.  Há exemplos recentes como Família Hollar (The Hollars, 2016) e Other People (2017), até filmes mais antigos como Hora de Voltar (Garden State, 2004)), Doce Lar (Sweet Home Alabama, 2002) e o belo Retratos de Família (Junebug, 2005), com a própria Amy Adams no elenco - muito mais inteligente em apontar uma divisão no país por meio da relação entre as pessoas de diferentes regiões. O que sobressai em Era Uma Vez Um Sonho é a valorização do American Way of Life sem quaisquer possibilidades de crítica.

No entanto, Era Uma Vez Um Sonho é hábil em apresentar as distinções de J.D com a família pela forma de falar ou de se vestir, por exemplo. Especialmente, a diferença do rapaz com a irmã Lindsay. Os dois cresceram juntos, têm uma ótima relação, porém se portam de forma discrepante. Ele é um cidadão do mundo, estudante de direito, e ela uma típica moça do interior. Cabe destacar a excelente performance de Haley Bennett ao dar as dimensões do cansaço físico de cuidar da mãe, do marido, das filhas e manter um emprego mesmo com pouco tempo de tela. Contudo, mesmo essa situação não provoca abalos reais no filme.

Todavia, se em quesitos técnicos o filme se destaca, não se pode falar o mesmo da direção de Ron Howard. O realizador usa e abusa das câmeras lentas nos amplos espaços característicos do interior na intenção de criar um clima bucólico. Contudo, não consegue extrair nada de relevante dessa opção que funciona, no fim das contas, apenas como planos de transição para outras sequências de escândalos. Tudo está ligado à aparência, porém não há a essência daquele microcosmo da sociedade norte-americana como parece ser a intenção do realizador.

No fim das contas, o filme padece da intenção de receber algumas estatuetas na próxima temporada de premiações dos Estados Unidos. A escolha de Glenn Close e Amy Adams, que foram indicadas sete e seis vezes respectivamente ao Oscar - mas que nunca venceram -, reforça essa ideia. Como obra cinematográfica, Era Uma Vez Um Sonho é de uma aridez gritante. A obra se distancia propositalmente de qualquer posicionamento sobre a política, a sociedade e o próprio cinema. Assim, um filme que deseja conciliar e exaltar a ideia mítica de um país, não consegue nada além de expor sua covardia.

Comentários (1)

Alan Nina | segunda-feira, 07 de Dezembro de 2020 - 16:35

O filme nem é sobre a mãe ou a avó, e sim sobre o rapaz. Obviamente isso não livra o peso da crítica e o fato de realmente ser mainstream, mas não sei se esse deslocamento foi devido a importância das atrizes em questão (o próprio cartaz reforça a ideia), mas me pareceu uma análise deslocada do núcleo central do filme, que afinal é ver como o rapaz conseguiu superar as adversidades, ainda que, obviamente, o seu contorno tenha influência demais.

Lucas Reis | segunda-feira, 07 de Dezembro de 2020 - 18:23

Oi Alan! Não me parece que a mãe e a avó sejam o contorno da narrativa. Elas são o núcleo central. Pois em Era Uma Vez Um Sonho, o olhar de J.D. se concentra nas mulheres de sua vida. O arco dele depende completamente delas, embora isso não seja um problema. É apenas uma opção. Assim como não me parece um problema o filme ser mainstream, mas as articulações óbvias que a obra constrói.

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