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Críticas

Cineplayers

O pesadelo espetacular.

7,5
O camaleão Johnnie To, famoso por filmes como Eleição – O Submundo do Poder (Hak Se Wui, 2005), Mad Detective (idem, 2007) e Breaking News – Uma Cidade em Alerta (Daai Sin Gin, 2004), faz de Escritório, seu comentário social da vez, mais uma de suas estilizações inacreditáveis. Nesse caso, trata-se de um musical sobre a grande crise de 2008, enfocando a companhia bilionária Jones & Sunn.

O ar de riso que pode surgir no canto dos lábios ao ler a descrição é mais que justificado, pois To se vale da caricatura do poder e da subserviência, com os grandes patrões conspirando, os subordinados obedientes e interesseiros, os cenários sendo a última palavra em design – arredondados, vazados, luminosos, com os artifícios do estúdio possibilitando o diretor a criar um sem número de possibilidades com rimas visuais e sonoras, com a administração mutante do ritmo e do espaço substituindo as coreografias expansivas esperadas pela injeção do espetáculo nos rituais cotidianos de uma rotina desumana.

Pois Escritório, tão grandioso quanto ridículo, não esconde uma profunda amargura com as grandes figuras que deixaram o mundo em rota de colisão em 2008. A ganância testemunhada no mundo real ganha ares absolutamente inverossímeis – como se espera do musical – para contar histórias de paixões, sonhos, infidelidades, mentiras e conspirações que orbitam em volta do grande assunto – o dinheiro que a todos seduz e por causa dele fazendo sempre acordarem com pactos faustianos enfocados com a câmera histérica, viajando pelos mais improváveis pontos de vista, deslizando por travellings limpos mostrando uma realidade automatizada, planejada e predatória, com a fotografia e efeitos tornando-se cada vez mais “plásticos” e “falsos” à medida que o filme progride.

Essa estilização pesada é também uma faca de dois gumes para To – conseguimos sentir quando o comentário social subitamente parece se tornar muito dramático e perder o tom paródico, caminhando em uma linha tênue e arriscada do pastiche – as piadas somem em muitos momentos para justamente tentar desenvolver os conflitos e complicações daquelas caricaturas – some-se a isso a profusão de histórias, o filme pode oferece um bom número de informações para serem absorvidas pelo espectador, disparados numa velocidade pelos diálogos e narrativa fazendo que, com o passar do tempo, nos entreguemos mais ao espetáculo sensorial do que uma explanação didática e objetiva dos fatos.

Trocando mais de uma vez de protagonista – começando pelo ponto de vista de um jovem cheio de sonhos e tentações, mudando para um veterano já integrado e perturbado pelo sufoco que tem de encarar diariamente, o que o leva a entregar compulsivamente à bebida, observando suas dúbias relações que entrelaçam o pessoal e o profissional, afinal, suas residências depois de um tempo já não parecem diferir do escritório – um To didático em seu criticismo almeja alcançar uma multiplicidade de pontos de vista em seu verdadeiro “carro alegórico” para conseguir refletir temas primordiais de narrativas como se chegou aquele ponto, onde sonho dá lugar à ganância e a sensação de plenitude é esquecida, restando uma fome infinita de ascensão que o final parece sugerir: criou-se um mundo de aparência uniforme, de tintas carregadas, de desespero traduzido em simbolismo estiloso, estilo esse constante que não abandona o filme jamais – sempre escalando em intensidade, cada vez mais demorando em apenas um conflito e dispensando a alternância rápida, distorcendo a atmosfera limpa e branca e mergulhando no neon e nas sombras, para a apoteose logo se desmanchar numa repetição cíclica: a roda continuará girando, os construtos sociais de aparência humana serão substituídos, o espetáculo de aberrações irá se renovar. Pois como bem percebeu To, nada representa tão bem o absurdo cinematográfico quanto o musical.

Comentários (1)

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